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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

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Polêmica na eleição do Conselho LGBT de São Paulo. Militantes dizem que existe proposta de eleições indiretas; coordenador nega e enxerga má fé

Por Vitor Angelo
24/07/14 14:00

Há mais de uma semana, as redes sociais e a militância LGBT de São Paulo estão em polvorosa. Foi divulgada que a Coordenação de Políticas LGBT do município estaria pensando em mudar as eleições do Conselho que são feitas de forma direta, com militantes independentes e muitas vezes sem vínculos partidários, para a forma indireta através de indicações de ONGs. Uma reunião está marcada nesta quinta-feira, 24, na Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania. A Folha entrou em contato com Felipe Oliva, 30, servidor público, membro do Conselho e eleito por forma direta em 2012 e com coordenador de Políticas LGBT municipal Alessandro Melchior. Este último desmente que exista a proposta de voto indireto e enxerga má fé.

Felipe Oliva explica em depoimento para o Blogay: “Diferentemente de outros conselhos, que chegam a definir o destino de recursos públicos, o Conselho LGBT de São Paulo foi criado para fiscalizar a política LGBT da cidade, planejada principalmente pela órgão ligado à Secretaria de Direitos Humanos. Hoje, o Conselho é composto de representantes do governo e da sociedade civil, estes eleitos diretamente pela população, e se reúne mensalmente para discutir medidas que afetem as LGBT.

As pessoas que atualmente compõem o conselho foram eleitas em fins de 2012 e puderam acompanhar desde o começo a política LGBT de Haddad. Apesar de ter lançado ideias interessantes, como o plano de saúde integral LGBT e o Transcidadania (nenhum dos dois implementado), o governo Haddad foi responsável por graves retrocessos, especialmente o fechamento do Autorama [local de encontro gay no estacionamento do Parque Ibirapuera] (nem o Serra e o Kassab tinham conseguido a façanha) e o encerramento do Programa Operação Trabalho, que garantia um benefício para algumas LGBT em situação de vulnerabilidade, a maioria transexuais e travestis. Houve também omissões graves, como quando o ex-coordenador Julian Rodrigues não fez nada para impedir o fechamento do Lar Somando Forças, dedicado a travestis e transexuais com HIV, e intromissões indevidas, como a realizada na parada deste ano.

O Conselho LGBT tem criticado esses abusos e desmandos da Coordenação e certamente essas críticas não são bem vindas pelo governo do PT, partido que, embora tenha ligação histórica com as LGBT, há mais de uma década não atende nossas reivindicações – antes, vai frontalmente contra elas. Haddad, o ex-ministro da Educação responsável pela não distribuição do kit escola sem homofobia, tem uma dívida com as LGBT, e apenas a aprofundou nesse último ano e meio.

Este ano haverá nova eleição de representantes da sociedade civil para o Conselho. Acredito que, para evitar que o Conselho continue a ser crítico, a prefeitura tenha tirado do baú uma promessa vagamente descrita no programa de governo de Haddad de eleger os representantes da sociedade civil indiretamente.

Assim, em vez de a população afetada eleger seus representantes por voto direto, o próprio governo cuidaria de eleger os representantes da sociedade civil. Mas quais critérios informariam essa escolha? O pluralismo político ou a identidade de ideias? Não tenho dúvidas de que a prefeitura preferiria os representantes de grupos e ONGs com os quais partilhasse afinidades, em detrimento daqueles mais críticos.

A justificativa formal do governo para as eleições indiretas tem sido “qualificar” as discussões, como se as pessoas eleitas diretamente não contribuíssem da sua própria forma, com suas diferentes origens. Se eleição direta não é uma boa fórmula, por que o governo Haddad a adotou para todos os conselhos participativos criados recentemente? O que torna o Conselho LGBT tão diferente dos demais?

De fato, hoje o Conselho tem reuniões bastante esvaziadas, com ausência de muitos representantes da sociedade civil (não menos do que representantes do governo). Mas acredito que esse esvaziamento não seja consequência da falta de qualidade dos representantes da sociedade civil, mas principalmente da forma como o governo vem desprestigiando o Conselho, seja com vários representantes do governo faltando, seja com a Coordenação apresentando as políticas apenas depois de desenhá-las, ou então fazendo consultas com pouca antecedência e divulgação.

De qualquer forma, nada impede que as pessoas que compõem ONGs, coletivos e as famílias LGBT se organizem e elejam seus representantes diretamente. Nada impede tampouco que especialistas sejam trazidos para dar sua opinião sobre sua área de atuação – cabendo o voto aos representantes eleitos diretamente pela população afetada.

Enfim, entendo que a eleição indireta dos representantes da sociedade civil do Conselho apenas mascare uma tentativa de castrar o conselho de seu potencial crítico, enchendo-o de pessoas próximas e afins do próprio governo. Essa proposta, além de destoar do restante da política de conselhos participativos de Haddad, representará mais um retrocesso dentre os vários de que este governo é responsável”.

O outro lado

Alessandro, em contato por e-mail com o Blogay, desmente qualquer iniciativa de mudança de status do voto direto para o indireto. “Na verdade, há uma grande desinformação e má fé em relação ao processo de reestruturação do Conselho. Má fé motivada por disputas eleitorais. Não defendemos eleição indireta, muito menos indicação pelo Governo dos membros da sociedade civil, como tem sido divulgado levianamente. Envio anexo um texto de explicação que fizemos sobre o processo, apontando exatamente as mudanças sugeridas pela Comissão indicada pelo conselho com esse fim, Comissão que tem ainda maioria da sociedade civil na sua composição”.

No texto, enviado para o blog, aparece em negrito: “A eleição direta permanece! Cada eleitor votará em 1 candidata (o) de cada um dos segmentos que serão eleitos ( 1 conselho de classe, 1 coletivo, 1 representante do segmento LGBT e 1 entidade)”

O primeiro casamento gay da TV brasileira: a ficção segue a realidade

Por Vitor Angelo
17/07/14 11:30

A TV Globo sempre teve como postura imagética, muito mais do que lançar novidades (o cinema ainda continua com este papel), de acompanhar de perto os últimos acontecimentos sociais e comportamentais. Não existe nenhuma aleatoriedade no fato do mais importante noticiário da emissora, o “Jornal Nacional”, vir antes de sua principal atração no campo da ficção, a novela das 21h (antiga “novela das 8”).

E sempre foi assim:  a novela “Dancin’ Days” veio na rasteira da febre da disco music internacional. O seriado “Malu Mulher”, de 1979, veio no encalço do divórcio, que tinha sido aprovado no país em 1977. E não foi diferente com as cenas do casamento de Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Müller), na novela “Em Família”, que foi ao ar nesta quarta-feira, 16.  Elas seguem a conquista dos homossexuais pelo direito de se casarem que começou, em 2011, com o reconhecimento da união homoafetiva pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

Com esta decisão, foi abrindo juridicamente espaços para o chamado casamento gay. Desde então, o Jornal Nacional já fez várias matérias tanto sobre cerimônias de união entre homossexuais como sobre a vida de casais do mesmo sexo. Até que foi noticiado o casamento de Daniela Mercury e Malu Verçosa, em 2013. A representação do casamento de Clara e Marina, com certeza, foi inspirada nas fotos da união da cantora baiana com a jornalista: as duas com vestidos parecidos, o modo como entraram juntas na cerimônia e a aprovação da família e amigos.

As cenas, muito bem delicadas e em tom afirmativo, com apoio de familiares, inclusive do filho de Clara, demonstram ali que está sendo feita uma projeção de uma realidade possível e já noticiada (é claro que existem outras situações em que  a reação aos casais homoafetivos podem fazer a homofobia gritar mais alto, mas hoje já não é a única nem a mais importante, como sinaliza a novela e também as matérias jornalísticas que a antecederam)

“Se todos tem os mesmo deveres porque não ter o mesmo direitos”, diz Helena (Julia Lemmertz) explicando porque na sociedade laica, os gays também podem se casar. O tapa na cara dos fundamentalistas vem com a frase da juíza: “A partir de agora, vocês formam uma família legítima perante à nossa sociedade e à nossa lei civil”.

Família legítima… Neste momento, a ficção explica melhor o que os noticiários não conseguem e os fundamentalistas querem negar.

E o beijo entre Clara e Marina, hein? Mais apaixonado e de longa duração. Mais avanços... (Reprodução/TV Globo)

E o beijo entre Clara e Marina, hein? Mais apaixonado e de longa duração. Mais avanços… (Reprodução/TV Globo)

A atitude de Daniela Mercury não existiria sem Vange Leonel

Por Vitor Angelo
14/07/14 23:45

Vange Leonel morreu, aos 51 anos de idade, na tarde desta segunda-feira, 14,  vítima de câncer nos ovários. A cantora e escritora ficou nacionalmente conhecida pelo hit “Noite Preta” , que era simplesmente a trilha da abertura de uma novela de grande sucesso, “Vamp”, em 1991, na TV Globo.

Além de cantora e escritora, Leonel era feminista e ativista LGBT. Escreveu durante nove anos, na Folha, quinzenalmente na “Revista da Folha”, a coluna GLS.  Seu papel na história dos direitos gays passa pelo de sua vida. Quando seu grande sucesso comercial “Noite Preta” ainda ecoava nos ouvidos de muitos, ela, diferente de boa parte das cantoras de MPB (lésbicas) que se escondem em armários ou em discursos que a sexualidade pouco importa, resolveu escancarar e assumir sua lesbianidade, em 1995. E com ela, o grande amor de sua vida, a jornalista Cilmara Bedaque, que esteve junto da cantora até os últimos instantes de sua vida.

Se Angela Ro Ro foi pioneira ao assumir-se lésbica de forma orgânica, maravilhosamente escandalosa, em um ambiente tão auto-repressor como o vivido por algumas cantoras brasileiras, Vange veio dar um segundo passo, ao declarar-se que também amava as mulheres (ou melhor, a mulher Cilmara), agora mais consciente, militante, mas não menos apaixonada. A atitude de Daniela Mercury de assumir seu amor por outra mulher parte, dentro de uma perspectiva histórica, de um caminho aberto por Vange.

Seu corpo será cremado no  Horto da Paz, das 10h as 14h em Itapecerica da Serra, São Paulo.  E esta coluna encerra com um antigo texto de Vange, na coluna GLS, que cabe muito para este momento: “Não gosto de despedidas. Ainda que me alivie pensar que os ciclos se fecham, e realmente desejo e espero que seja assim, despedidas formais me deixam constrangida. Adoraria escrever um texto de encerramento como se fosse uma simples coluna de meio de temporada. Mas é impossível: tenho que fechar o ciclo”. Pensemos a vida como um ciclo!

Vange Leonel (1963-2014) (Divulgação)

Vange Leonel (1963-2014) (Divulgação)

Denunciar sempre: o caso do supermercado Extra e o de Curitiba

Por Vitor Angelo
11/07/14 21:00

Assim como os gays e a homofobia saíram do armário, a denúncia também tem que mostrar sua cara. Dois exemplos recentes: o grupo que gravou um funcionário da supermercado Extra em um ato homofóbico e um casal em Curitiba que foram ameaçados à faca e deram queixa na delegacia.

O primeiro ato aconteceu no dia do fatídico jogo do Brasil contra a Alemanha, na terça-feira, 8, na supermercado Extra do Shopping Aricanduva, em São Paulo, e foi todo gravado em vídeo. Segundo um dos que participou do evento, Tiago Freire Galharde, 27, contou para o Blogay por telefone: “era um grupo de umas 15 pessoas, uns entraram para comprar cerveja para uma outra festa e outros ficaram esperando. Um casal de amigos se abraçou e deu um selinho, quando o funcionário que aparece no vídeo veio e falou: ‘vocês podem ficar aqui, só não podem fazer baixaria’”.

Todos entenderam que a baixaria era ser homossexual e dar um selinho.  Tiago disse que eles não estavam fazendo nenhuma baixaria. O funcionário falou que um casal hétero poderia se beijar, mas um casal gay não. Como pode ser conferido no vídeo que foi compartilhado nas redes sociais.

Tiago contou que recebeu, depois do vídeo, recados de um homossexual e um casal de lésbicas que já foram acuados pelo mesmo funcionário. Eles mesmo ficaram apreensivos pois  ele disse que funcionário ameaçou que, “depois de bater o cartão, ia dar sua opinião do lado de fora”. Além do funcionário, no vídeo aparece também um senhor de azul que disseram para o grupo que era gerente e que, no final, eles chamaram os seguranças para encerrar a discussão.

O grupo vai se reunir na noite desta sexta-feira, 11, para decidir o que fazere como proceder em relação ao ocorrido e já receberam apoio de advogados e ativistas LGBTs para denunciarem o ato no Decradi, a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância,  dentro da lei estadual anti-homofobia 10.948/01, que pode gerar multa, e até cassação da licença de funcionamento.

A assessoria de imprensa do grupo Pão de Açúcar, ao qual pertence o Extra, mandou comunicado condenando a atitude do funcionário ao Blogay (leia no final da matéria).

Já em Curitiba, no dia 22 de junho, o repórter do Uol, James Cimino, 38, e seu namorado Vinicius Ribeiro, 25, estudante, estavam andando de mãos dadas pelo centro da cidade quando sofreram agressões verbais, revidaram e foram ameaçados à faca.

O próprio Cimino conta: “Estávamos eu e meu namorado andando de mãos dadas pelo centro. Fomos até a praça Tiradentes para que mostrar pra ele a Catedral e o Marco Zero quando um cara bêbado, com cerca de 40 anos (ou mais) começou a gritar que era muita coragem nossa passar ali. Em seguida começou a gritar perguntando quem era o homem e quem era a mulher. Retrucamos perguntando se ele queria apanhar de dois caras, aí veio um amigo dele, outro desses velhotes de cabelo grisalho de raiz amarelada, com dentes igualmente amarelados de cigarro e café e puxou um canivete pra gente. ‘Deixa vir!’, disse ele. Aí eu gritei pela polícia”.

E  prosseguiu: “Como estamos em Copa, o policiamento na região está ostensivo. Imediatamente se apresentaram cerca de dez policiais, que nos trataram como todo policial deveria tratar todo mundo todos os dias do ano: com educação e respeito. Recomendaram que fôssemos prestar queixa e fomos. Os caras foram pegos, mas entre eu gritar pela polícia e eles os pegarem, eles já tinham se livrado do canivete. Provavelmente passou para algum comparsa que estava ali, porque antes de ser pego, ele se escondeu na banquinha de jornal do local, onde também guardava suas coisas. Os caras provavelmente o acobertaram. Como ia demorar muito para conseguirmos dar depoimento, e nosso ônibus era por volta de meia-noite, deixamos nossas fichas de identificação e assinamos que decidiríamos posteriormente o que faríamos a respeito. Os dois caras foram fichados e um deles ficou nos provocando o tempo todo dentro da delegacia, mesmo perante os policiais, que uma hora mandaram ele calar a boca”.

De qualquer forma, mesmo com eles sendo soltos depois, os dois homofóbicos tiveram um certo trabalho e ficaram numa situação desagradável, foram fichados e pensarão duas vezes na próxima vez se querem ter sua tarde interrompida pelo direito de ostentar sua homofobia. Por isto, denunciar sempre.

Outro lado

A assessoria do supermercado extra enviou ao Blogay o seguinte comunicado: “O Extra esclarece que repudia qualquer ato discriminatório e pauta suas ações no respeito à diversidade. A rede ressalta que qualquer ação contrária a essa política, se realizada, está em total desacordo com o Código de Conduta da Companhia, documento que orienta o padrão de comportamento dos colaboradores da rede. A empresa informa que o assunto está sendo avaliado com todo cuidado para que sejam tomadas as medidas devidas e até que se apurem as responsabilidades, o funcionário será mantido afastado”.

Rumo à normalidade: o beijo de Clara e Marina na novela ‘Em Família’

Por Vitor Angelo
30/06/14 23:55

Um casal apaixonado troca alianças, um pede o outro em casamento e se beijam. Existe cena mais clichê, mais romântica e mais comum que esta na vida e na literatura? Não, mas quando se trata de casais do mesmo sexo, a mis-en-scène muda de figura, ganha destaque em jornais, sites e redes sociais, gera polêmicas, protestos e elogios. Na noite de segunda-feira, 30, mais um beijo entre duas mulheres aconteceu na teledramaturgia brasileira. A fotógrafa Marina (Tainá Müller) pede Clara (Giovanna Antonelli) em casamento exatamente como citado no primeiro parágrafo deste texto.

A cena marca o primeiro beijo lésbico na TV Globo, a emissora mais importante do país em audiência e que ainda dita alguns comportamentos para boa parte da sociedade brasileira que não tem outros acessos culturais, educacionais e de lazer que não a televisão.

Mas é bom notar que não é o primeiro beijo lésbico da TV.  Entre mulheres já tinha acontecido na década de 60, entre Vida Alves e Geórgia Gomide ,no teleteatro “Calúnia”, na extinta TV Tupi, e na novela “Amor e Revolução”, no SBT, em 2011, entre as personagens de Luciana Vendramini e Gisele Tigre.

Entre homens,  teve o quase esquecido beijo da minissérie da extinta TV Manchete, “Mãe de Santo”, exibida pela extinta TV Manchete, em 1990, entre os personagens dos atores Raí Bastos e Daniel Barcelos, e o bombado beijo de Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) que encerrou a novela “Amor a Vida”,  este ano.

O beijo de Clara e Marina não aconteceu no fim da novela, mas não foi menos importante no caminho de uma visão de certa normalidade por parte da audiência brasileira diante do afeto entre pessoas do mesmo sexo. Ao construir uma cena tão comum e batida na teledramaturgia: o pedido de casamento, o telespectador pode perceber que não existe diferenças básicas entre as convenções do amor hétero e do amor homossexual.  A surpresa de receber o anel de noivado, a felicidade pelo pedido e o beijo final são exatamente as mesmas vividas tanto para casais formados por um homem e uma mulher, como para os do mesmo sexo.

Colocado assim, na forma de assemelhamento e espelho aos relacionamentos heterossexuais, o autor Manoel Carlos faz a questão avançar em relação ao casamento gay e todo o preconceito que existe em relação a ele e sua crítica de que não é algo natural.

Cada vez mais, com o passar do tempo, o público de TV, considerado bem conservador, verá o afeto homossexual (que deverá perder esta segunda palavra e, assim como beijo gay, será apenas afeto e beijo) como algo natural e até banal.  O beijo entre dois homens ou duas mulheres tende a se tornar corriqueiro com o passar dos anos. E gerações futuras acharão bem estranho tal tabu, assim como hoje achamos, olhando para trás, que menos de um século as mulheres não podiam votar ou os negros tinham que sentar no banco de trás de um ônibus e não podiam entrar em certos lugares reservados só para brancos. Avançamos!

O beijo entre Marina (Tainá Müller) e Clara (Giovanna Antonelli), na novela "Em Família" (Divulgação/TV Globo)

O beijo entre Marina (Tainá Müller) e Clara (Giovanna Antonelli), na novela “Em Família” (Divulgação/TV Globo)

Stonewall, 45 anos, e os homossexuais no jogo do Brasil X Chile

Por Vitor Angelo
28/06/14 21:30

Exatamente há 45 anos, os direitos LGBT eclodiam com a chamada rebelião de Stonewall, um bar gay, em Nova York, que os policiais constantemente faziam batidas, extorquiam dinheiro dos frequentadores, prendiam e humilhavam os homossexuais. Capitaneado pelas travestis, no dia 28 de junho de 1969, seus frequentadores resolveram dar um basta durante mais uma blitz policial e as ruas do Village tiveram seus dias e noites de guerrilha, provando que, sim, podemos ser delicados (ou não), femininos (ou não), mas também somos combativos e guerreiros, diferente do discurso que tentam nos imprimir. Para comemorar a data, não poderia assistir o jogo entre Brasil e Chile, nas oitavas de final da Copa do Mundo, em outro lugar que não em um bar gay, aliás, em vários da região da Frei Caneca, uma das áreas LGBT de São Paulo mais famosa. Cada tempo em um, foram cinco, contando com os pênaltis, e o que eu vi foi que podemos, sim, ser despachados (ou não), iconoclastas (ou não), mas também entendemos do jogo e torcemos muito, muito diferente do discurso que quer separar homossexuais e futebol como se fossem coisas opostas.

Durante as horas que passei pelos bares, escutei reclamação do meio de campo, da atuação de Daniel Alves, Fred, William e Jô. Pedidos para Felipão mexer no time foram inúmeros. E quando Hulk fez o gol, depois anulado pelo juiz, a discussão que se sucedeu foi digna de comentaristas esportivos.

Gays se reúnem na região da Frei Caneca, em São Paulo, para torcer pela seleção brasileira (Vitor Angelo)

Gays se reúnem na região da Frei Caneca, em São Paulo, para torcer pela seleção brasileira (Vitor Angelo)

Apesar disto, e ainda mais legal e divertido, é que o humor gay esteve muito presente, o que impediu deste blogueiro não enfartar neste jogo que foi um super drama queen. Hulk, que é disparado o preferido dos gays, quando marcou o gol anulado, ao invés, do tradicional grito, uma turma fervida comemorou em coro: “Gostoso”. E quando o juiz anulou o tento, uma trans, ao meu lado, disse furiosa: “Vou unhar a cara dessa juíza”.

Os xingamentos típicos de quem assiste as partidas estavam todos lá presentes. A cada passe errado, chute para o gol chileno que não entrava, ouvia-se: um “fdp”, um “porra”, um “cara***”. Entretanto, o humor continuava presente, quando um marmanjo barbudo soltou um “porra”, uma bee musculosa respondeu alto, limpando a boca: “Onde? Achei que tinha limpado”.

Humor e conhecimento de futebol por boa parte dos torcedores (Vitor Angelo)

Humor e conhecimento de futebol por boa parte dos torcedores (Vitor Angelo)

“Vai, Neymara” já é um grito clássico dos frequentadores dos bares da região. Mas na hora mais dramática, os pênaltis, foi o humor que fez ninguém ficar com a pressão de 22 por 16 . “Afeminada, afeminada” gritou um grupo na hora que Neymar foi cobrar seu pênalti. “Neymaravilhosa” comemorou uma lésbica quando o craque marcou. “Neca odara” (pênis grande na gíria gay) foi o grito para Marcelo que também fez gol. Hulk ganhou o coro de “bundão”, ao que alguns protestaram pois achavam que bundão ia parecer covarde. E o gol não rolou. Mas, mesmo assim, fomos campeões. E a alegria, um estigma muito ligado os LGB T e que acho positivo, mesmo que redutor, pletorou todos os bares e cantos da Frei Caneca.

Muitos acreditam (e eu não discordo) que com o casamento gay, o pink money, os gays estão sendo adestrados para uma certa normatividade, sua rebeldia e liberdade sexual estão sendo amainadas, diferente do que propunha os primeiros anos pós-Stonewall. Porém, acredito que a subversão continua presente, de uma outra forma, mesmo que nas pequenas coisas e atos como esta de torcer com conhecimento e humor pela seleção e por um esporte com um histórico de homofobia tão entranhado que muitos tentam sempre nos dar cartão vermelho. Entretanto, espero que como fizemos em Stonewall, vamos cada vez mais ser escalados para titulares.

"Vai, Neymara!" É do Brasil (Vitor Angelo)

“Vai, Neymara!” É do Brasil (Vitor Angelo)

O homem que deu cria faz 70 anos: João Silvério Trevisan

Por Vitor Angelo
23/06/14 14:30

Quem conhece bem este blog sabe que deitamos o cabelo para João Silvério Trevisan. O escritor, cineasta, ativista, pesquisador completa 70 anos, nesta segunda-feira, 23. E, apesar de seu valor não ser reconhecido como merece (algo típico do espírito brasileiro), sua contribuição para a cultura e o pensamento em nosso país, e além dele, é inegável.

João Silvério Trevisan com seu livro sobre a história da homossexualidade no Brasil, "Devassos no Paraíso" (Divulgação)

João Silvério Trevisan com seu livro sobre a história da homossexualidade no Brasil, “Devassos no Paraíso” (Divulgação)

É o homem que deu cria ao movimento gay no Brasil. É o homem que deu cria à consciência que este movimento nunca deve estar atrelado a nenhum partido político. É o homem que ajudou a dar cria ao cinema marginal. É o homem que ajudou a dar cria ao importante jornal “Lampião da Esquina”. É o homem que nos ajudou a dar cria às nossas liberdades individuais e sexuais.

Em nome do desejo, ele acreditou profundamente em sua liberdade e paga o preço desta sua opção até hoje. Em nome do desejo, ele mergulhou seu talento na literatura e fez emergir pérolas como “Ana em Veneza” e “Rei do Cheiro”.  Em nome do desejo, ele expressa sua ideias sem medo de agradar, aliás, muitas vezes desagradando muitos dos seus pares, mas isto chama-se integridade.

Denso, apaixonado, nada é simples quando se está ao lado de Trevisan. Lembro de quando, ainda estudante de cinema da ECA-USP, fui pegar pessoalmente a cópia de “Orgia”, em sua casa para uma exibição para os estudantes. Depois de exibida a película, ao devolver o filme em sua casa, ele apenas me perguntou: “Envelheceu”. Minha resposta foi que nós, estudantes, nos sentimos velhos diante do filme.

Trevisan, 70, continua jovem e atual, basta ler seu clássico “Devassos no Paraíso”, o farol e bússola deste blog para comprovar o que escrevo. O livro narra a história da homossexualidade no Brasil, este país que todos consideram um paraíso dentro de um certo imaginário. “O grande portal da fantasia desandou. Em compensação, encontramos a porta traseira. E sua chave. O fruto já provado antes nos ensinou: assim como o espetáculo da vida, o espetáculo do desejo é generoso na proporção direta de sua fragilidade, enquanto ecossistema no interior do Eu. Ou seja, é preciso estar sempre aberto à eventualidade de sua perda, como condição mesma para mergulhar em sua multiplicidade barroca. De resto, só a linguagem da exuberância detém a chave deste concretíssimo paraíso, do qual somos os (muito humanos)  querubins. Quem sabe possamos abrir a porta de trás, entrar e , desta vez, usufruir”.

Salve, João!

Um abraço para João Silvério. Laerte faz o gesto que todo deveríamos fazer hoje para ele: abraçá-lo (Reprodução/Facebook)

Um abraço para João Silvério. Laerte faz o gesto que todo deveríamos fazer hoje para ele: abraçá-lo (Reprodução/Facebook)

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A homofobia silenciosa

Por Vitor Angelo
22/06/14 09:30

Claro que agressões físicas contra LGBTs são a marca visível da homofobia, assim como os gritos de “puto” (viado, em uma gíria do espanhol falado no México e em outros países latino-americanos) escutado nos estádios nesta Copa do Mundo, mas ela só é a expressão em exagero de uma outra mais silenciosa, comedida e “educada”, aquela que se faz no silêncio e no constrangimento de uma minoria. Foi assim que entendeu Júlia Esmanhoto, 33, que trabalha com  políticas públicas e relações governamentais,  a atitude da gerente do restaurante Santinho do Museu da Casa Brasileira ao pedir para que um casal gay amigos dela “maneirasse” na demonstração de afeto.

O fato aconteceu há duas semanas durante uma festa junina que acontecia no museu. Ela, mesmo passado este tempo, resolveu procurar o Blogay pois achou que a situação não poderia morrer ali. Esmanhoto foi com o marido, uma amiga francesa e um casal de amigos, um catarinense e outro inglês, ao restaurante pois, além de ser um espaço aberto, raro na cidade, ela poderia mostrar a culinária brasileira. “Eles acabaram conhecendo outra faceta de uma parte do país”.

Segundo ela, “meu amigo e o namorado dele inglês deram um selinho e um estava com a mão na perna do outro, até que uma senhora de 50 anos se aproximou e, de forma muito educada, pediu para que os dois tivessem descrição”. Júlia relata: “eu não acreditei que aquilo estava acontecendo ali e disse que aquilo era preconceito e discriminação”.

Ao saber que era gerente do restaurante (ela disse que não conseguiu o nome da senhora, pois logo depois, ela desapareceu de cena), Júlia ficou mais indignada. “Meu padrasto é negro, eu sou mulher, eu conheço muito bem este tipo de discriminação e preconceito, que vem de forma sutil e silenciosa”. Júlia percebe esta forma de intimidação também uma violência, diferente da que tira sangue dos LGBTs, mas mesmo assim uma violência contra as minorias. Tanto que ela, mais tarde no mesmo dia, em outro restaurante, viu um casal de héteros se beijando efusivamente e ninguém os chamou a atenção.

Outro lado 

Blogay procurou o grupo Capim Santo no qual o restaurante Santinho faz parte e obteve a seguinte resposta: “Todos no Capim Santo estão muito tristes com o ocorrido. É totalmente contrária à nossa filosofia a discriminação, de qualquer ordem. Quem já esteve em nosso restaurante conhece nossa conduta. Além dos muitos clientes homossexuais, temos também muitos funcionários homossexuais, respeitados e felizes. O ocorrido certamente foi uma exceção motivada por uma interpretação pessoal de um comportamento que não nos convém julgar. Gostaríamos de nos desculpar com o casal e convidá-los a nos visitar novamente.  O fato só nos fez reafirmar com o nosso staff a missão do Capim Santo:  Fazer as pessoas felizes, com comida que conforta, em um ambiente amigável e feliz, para todos.”

Museu abre exposição sobre LGBTs e futebol

Por Vitor Angelo
11/06/14 20:00

Durante anos, drags se reúnem para jogar uma pelada nas ruas da Barra Funda, os moradores se apinham para ver o jogo, a risada corre solta, afinal, nada mais divertido e democrático que o futebol praticado por elas. Ali está a tolerância, o respeito e, mais ainda, o sentido lúdico e mágico que nunca deve ser esquecido no futebol, o esporte enquanto jogo (play).

Jogador heterossexual dá selinho em amigo, publica em seu Instagram e pergunta se a homofobia anda em alta. A resposta vem nervosa, intolerante, radical. O autor do post é obrigado a pedir desculpas para uma torcida organizada mostrando, de forma rude, o quanto ainda precisamos evoluir em termos de respeito. O futebol esquece o seu campo lúdico e entra no do pesadelo de uma sociedade fechada em estigmas rígidos.

Em tempos de Copa no Brasil, o Museu da Diversidade Sexual, em São Palo, abre, nesta quarta-feira , 11, a exposição “Diversidade Futebol Clube: no nosso time joga todo mundo”, com fotos de Roberto Setton sobre a partida de futebol das drags que acontece nas ruas da Barra Funda em frente da boate gay Blue Space. A curadoria de Diógenes Moura, 57, mostra 34 imagens que captam a interatividade entre os moradores do bairro e as drags em um movimento diametralmente oposto do jogador que deu o selinho no amigo e a torcida organizada.

Assim como existe a integração do Museu da Diversidade com o Museu do Futebol, que segundo Diógenes disse ao Blogay por telefone, “colaborou com a trilha da exposição que serão os barulhos das torcidas”.

No texto sobre as fotos captadas por Setton de 2008 a 2012. Diógenes escreve: “Ali, entre a fantasia pública e privada, times e torcida fizeram a festa. Cada imagem apresenta  uma espécie de libertação. Não se trata de uma caricatura. É um desafio. Há quem jogue com um bolo de aniversário na cabeça, de saltos altos ou com a inscrição que dá continuidade àquela noite em que Ronaldo, o Fenômeno, foi parar em um motel com travestis e depois apareceu na tv dizendo que estava ‘muito triste, até chorei’. Na camiseta de uma das jogadoras está escrito: ‘Ronaldo, me pega’. Nada mais sutil”.

O grande gol da exposição é este, mostrar sutilezas e cores variadas  em um mundo que insiste ser em preto e branco.

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Rapaz é agredido na rua Augusta, em São Paulo; suspeita-se de homofobia

Por Vitor Angelo
31/05/14 19:00

Era para ser uma noite com amigos, diversão e risadas, mas a madrugada de quinta-feira, 29, acabou se tornando um pesadelo para o designer gráfico Danilo Pimentel, 31. Ele levou uma pedrada na cara em plena rua Augusta, foi parar no hospital, teve que fazer uma cirurgia no nariz, fraturou o maxilar e está com escoriações pelo corpo. “Ainda sinto muita dor”, disse para o Blogay por telefone neste sábado, 31. Além disto, ele – e os amigos que o acompanharam na noite da agressão – tem forte certeza que o ataque foi de origem homofóbica.

“Estávamos no Caos (bar que fica na rua Augusta entre as ruas Antônia de Queirós e Marquês de Paranaguá) quando resolvemos ir para um outro bar mais abaixo. Um rapaz de cabeça raspada e tatuagem no pescoço implicou de forma homofóbica com um amigo meu, o Marcelo, os dois brigaram. Ele deu três socos no Marcelo que revidou com um e a gente separou a briga”, relata.

Eles resolveram seguir adiante deixando o agressor de lado, era um grupo de mais ou menos dez pessoas e que tinha meninas também. Todos colocaram o agredido no meio da turma, meio que para protegê-lo. Danilo ficou para trás com outro amigo que o abraçou. E este gesto terno acabou surtindo o efeito contrário do que se espera dele.

“A partir daí, eu não lembro de mais nada. Só os relatos dos amigos, pois eu desacordei. O cara veio com um paralelepípedo e acertou na minha cara. Desmaiei na horae fui de cara no chão. E ele continuou me agredido, chutando. Meu amigo tentou  ajudar, mas acabou sendo agredido, aí vieram os outros para separar a briga. Se estivesse sozinho, tenho certeza que estaria morto a esta hora”, conta.

Danilo acredita que o fato do amigo ter o abraçado provocou a ira do agressor. Ele gritava apontando para Danilo desmaiado e o amigo: “você acha que eles não estão fazendo nada?”

Ele também crê que a agressão homofóbica aconteceu pelo fato do rapaz ser skinhead de vertente de extrema-direita (grupo neonazista que prega o extermínio das minorias) (ler P.S.). “E não é apenas pelo o fato dele ser careca e ter a tatuagem no pescoço. Uma amiga, que estava no grupo e que é DJ na Augusta, conversou, depois do ocorrido, com os seguranças dos bares e boates próximos que garantiram que o rapaz é skinhead e frequenta um bar do grupo que fica ali perto”, disse.

O Blogay tem recebido alguns relatos de agressões a homossexuais exatamente na rua Augusta, na área conhecida como Baixo Augusta, mas sempre muito vagas e esparsas, porque o agredido acaba tendo medo de denunciar. Danilo, ao contrário, fez, neste sábado, B.O., exame de corpo delito e pretende tomar medidas judiciais cabíveis contra o que ocorreu com ele.

“Agressão a homossexuais não deveria acontecer em lugar nenhum, ainda mais na Augusta que é super gay friendly. Não quero ficar com medo de andar na rua, por isto estou denunciando o que aconteceu comigo. E muito menos quero ter medo de abraçar um amigo em um ato de carinho”, finaliza.

A atitude de Danilo é muito importante: denunciar, pois sempre querem calar o agredido através da humilhação da violência física. Agora, também é essencial que a polícia, que tem uma DP na mesma quadra do ocorrido, seja ainda mais presente e investigue a fundo este possível skinhead de vertente neonazista ou possíveis grupos de skinheads com a mesma ideologia que se reúnem na Augusta para vandalizar fisicamente com as pessoas. Esta é a primeira denúncia formal, espero que agredidos por estes grupos na Augusta se manifestem para além do buchicho que acaba chegando até mim.

Danilo Pimental com o rosto inchado, o maxilar fraturado, o nariz quebrado e a boca inchada depois de agressão na rua Augusta, em São Paulo ( Arquivo Pessoal)

Danilo Pimentel com o rosto inchado, o maxilar fraturado, o nariz quebrado e a boca inchada depois de agressão na rua Augusta, em São Paulo ( Arquivo Pessoal)

P.S. : O leitor deste blog Johnny Bigode alertou que nem todo skinhead é neonazista, existe grupos de vertentes bem tolerantes como o RASH ou o SHARP. Alberto Lopes também chamou a atenção para este detalhe importante.

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