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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

Perfil Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo

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Você já sofreu alguma violência por ser hétero?

Por Vitor Angelo
21/11/14 20:00

O que mais me espantou depois da divulgação dos dados do Disque 100, da SDHPR (Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República), levantados pelo jornal “O Estado de São Paulo”, nesta sexta-feira, 21, que indica que a cada hora, um LGBT sofre um ato de violência no Brasil, foram os comentários insensíveis, desumanos e, convenhamos, sem lógica.

“Um por hora é muito inferior do que entre crianças e, entre heterossexuais, o número é bem superior”. Ou “quem mata os gays são os próprios gays”. Ou ainda: “Cada um tem o direito de ser o que quiser, mas ter privilégios em detrimentos de outros muitos não está certo”.

A diferença é que o fato de uma pessoa ser hétero nunca é o motivo essencial da violência contra ela cometida. Você nunca escuta: “Vamos quebrar a cara daquele hétero, a heterossexualidade dele me enoja”. Já em relação aos homossexuais…  O princípio da violência contra os gays parte do fato deles serem o que são. E, dentro desta ideia, podemos colocar a violência contra os negros e as mulheres no mesmo patamar.

A tese que os gays que matam os próprios gays pode até ter um pouquinho de lógica (tendo muita complacência), já que muitos homofóbicos são homossexuais mal resolvidos, mas nem todo homofóbico é gay. Entretanto, essa tese é um deslocamento de outra, a dos racistas: que dizem que os negros que escravizaram os próprios negros. É uma análise superficial e, pra não dizer, mesquinha. Mesmo se fossem só gays que matassem outros homossexuais, a causa de fundo ainda seria o machismo e o preconceito contra os gays. Uma tática do opressor é sempre culpar a vítima e, neste caso, culpar os gays pela própria violência sofrida. De qualquer forma, isto não invalida o problema de LGBTs sofrendo violência a cada uma hora no país.

Por fim, a questão ilógica dos privilégios (que os gays têm e os héteros não, segundo certos comentaristas), e encerro com uma pergunta, que privilégio existe em ser humilhado, sofrer preconceito ou aparecer morto só porque você tem trejeitos, é afeminado ou beijou uma pessoa do mesmo sexo por amor ou desejo? Não vejo o mesmo acontecendo para quem coça o saco, se esfrega com sua namorada ou fala grosso.

Enfim, o que mais me choca é que a violência, esta sim que deve ser combatida (seja ela pra quem se endereçar), é justificada e não condenada como deveria naturalmente, em uma civilização, ser. Tristes trópicos!

Uma lâmpada se acendeu no movimento gay e dos direitos humanos

Por Vitor Angelo
20/11/14 16:30

A lâmpada, no nosso imaginário, é um símbolo ligado à racionalidade, inteligência e civilização. Porém, no dia 14 de novembro de 2010, quatro adolescentes e o jovem Jonathan Lauton Domingues, na época com 19 anos, obscureceram este sentido, usando duas lâmpadas fluorescentes para atacar pessoas que eles consideravam homossexuais, em plena avenida Paulista, em São Paulo, considerada um local da diversidade e da tolerância no país. A barbárie explodiu em cacos de violência pela calçada. O segurança, que interviu em um dos ataques, escutou de um dos agressores: “Viado tem que morrer”. Passado quatro anos, assim como os gays americanos subverteram o conceito “queer” da conotação negativa para algo afirmativo, militantes LGBTs, feministas e o movimento negro mudaram o sentido agressivo que as palavras relacionadas com lâmpada estavam tendo (o que teve de homofóbico escrevendo aqui no blog que gay devia mesmo levar uma lampadada na cara…).

"Revolta da Lâmpada", ato pela liberação de todos os corpos (Vitor Angelo)

“A Revolta da Lâmpada”, ato pela liberação de todos os corpos (Vitor Angelo)

Com o nome  de “A Revolta da Lâmpada”, um grupo de 150 pessoas, segundo a Polícia Militar, 600 participantes, para os organizadores, tomou as ruas de São Paulo, no final de tarde ensolarado de domingo,16. Logo, no início do ato, chegou a notícia que mais um homossexual tinha sido assassinado por suposto crime de homofobia (as causas ainda estão sendo investigadas), naquela madrugada, no Parque do Ibirapuera. Marcos Vinicius Macedo Souza, de 19 anos, foi morto a facadas.

Apesar da notícia “faca na bota”, o núcleo duro da manifestação pretendia  mesclar afirmatividades e novidades. A primeira estava no lema: “Fervo também é luta”. Nele, iria ocorrer uma resposta àqueles que condenam o hedonismo ou a carnavalização como forma política, ou a enxergam como algo menor. Entender a festa como ato político é fundamental para os rebeldes da lâmpada, mas mais que isso, fazer política com fervo e vice-versa. Entre os discursos (um deles, emocionante e emocionado de Raphael Martins, 20, que foi agredido junto com o namorado Danilo Putinato, 21, por um grupo de 15 homens no metrô de São Paulo no último dia 9 de novembro) e os gritos de guerra tinha muita música (e música boa, que fazia tempo que não se escutava em manifestações gays). E mais que isso, aconteceu um “catwalk protesto” pra lá de babadeiro, em frente ao restaurante Sukiya, que teve um recente caso de homofobia dentro de seu estabelecimento na rua Augusta. Todo mundo dando pinta contra a homofobia com direito a beijaços também.

Outra novidade foi a ampliação e a união dos movimentos sociais. A entrada como presidente da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias, em 2013, do pastor Marco Feliciano, considerado homofóbico e racista pelos movimentos LGBT e negro, fez que estas duas importantes militâncias unissem forças, mas faltava as feministas. Na “Revolta da Lâmpada”, elas participaram com maior afinco e voz, inclusive nas pautas de reivindicações.

A manifestação também surgiu, além de lembrar das agressões do fatídico dia 14 de novembro de 2010, para pressionar o governo hoje com pautas progressistas. Elas são reivindicações das minorias faz muito tempo como, entre elas, a criação de uma campanha nacional contra o assédio sexual e intimidação da mulher, a legalização do aborto (até porque as verdadeiramente afetadas são as mulheres pobres e uma fração das negras que não têm condições econômicas para pagar uma clínica particular de aborto), a legalização do consumo recreativo e medicinal da maconha (já que, na guerra das drogas, os que acabam presos, em sua maioria, são os jovens pobres e negros da periferia) e se posicionar contra ações políticas que criminalizem os movimentos sociais.

Claro que, o casamento igualitário, a criminalização da homofobia e o pedido de aprovação da Lei Nacional de Identidade de Gênero, também estão ali, mas agora de forma mais amplificadas, como que irmanadas a outras questões de outros movimentos. “A Revolta da Lâmpada” é o momento que o autocentrismo dos movimentos sociais começa a perder voz, deixa-se de olhar ou priorizar seu próprio umbigo para abrir-se à generosidade, ao outro, neste momento não como inimigo (como assistimos nas dramáticas polarizações imbecilizantes de ambos os lados no segundo turno destas eleições presidenciais em todo o Brasil). Agora o outro é companheiro, amigo, irmão, mesmo que diferente.

Sim, polarizações ainda existem, estamos no lado oposto do homofóbico, do racista, do machista, mas com muito cuidado porque também podemos escorregar, sem querer, em discursos da cultura homofóbica, racista ou machista. Não estamos impunes, nem ilesos. A velha presunção militante de pairar com um ar de certa superioridade sobre estes valores é engodo e atraso (resultado de toda e qualquer polarização que não deixa espaço para dúvidas ou áreas cinzas). Existe um paradoxo dentro de uma parte da militância das minorias, como pedir tolerância sendo intolerante contra os intolerantes? Uma possível resposta foi dada pelos rebeldes: não colocando os intolerantes como foco principal ou importante da luta, diminuindo a questão “nós contra eles”. Enfim, a polarização se coloca, mas, neste caso, quando o outro não é inimigo, não se impõe nem tem importância significativa.

Feminista "toda viada" na "Revolta da Lâmpada". A generosidade do outro (Vitor Angelo)

Feminista “toda viada” na “Revolta da Lâmpada”. A generosidade do outro (Vitor Angelo)

Ao chegar na questão do outro desta forma, não como repulsa ou o diferente inconciliável exatamente por ser diferente, também passamos a nos enxergar melhor com todas as nossas imperfeições, pois não estamos mais no campo das polarizações e sim no da compreensão. Ao nos enxergarmos, o corpo se impõe como “primeiro eu”, o primeiro sinal e signo do eu. E é nele que está a matriz da liberdade individual. Se compreendemos o corpo do outro, podemos nos compreender. Não à toa, o subtítulo da manifestação diz: “ato pela liberação de todos os corpos”.

O corpo livre reflete a liberdade individual. Quando os manifestantes se deitaram no asfalto por Letícia Sabatella, acusada, recentemente, por “haters” de “dar vexame”, ao beber um pouco a mais e deitar na calçada em frente a um bar, os rebeldes estavam dando um recado que não queriam vigilância, aquela que condena o outro (por beber demais, por não seguir as regras, por não ter o corpo adequado, etc). Eles deitavam e estavam firmes na ideia que o corpo deve ser livre e respeitado seja pelo outro, seja por eles mesmos, sem vigilâncias ou polarizações. Uma nova luz se acendeu naquele dia 16 de novembro.

Apenas "Revolta da Lâmpada"(Vitor Angelo)

Apenas “Revolta da Lâmpada”(Vitor Angelo)

‘Gazelle  – The Love Issue’ exibe o quão profunda é a superficialidade

Por Vitor Angelo
14/11/14 17:00

Com première mundial marcada para esta sexta-feira, 14, no CineSesc, às 19h, dentro da programação do 22º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, em São Paulo, “Gazelle –  The Love Issue” leva a máxima de um dos maiores artistas de todos os tempos, Andy Warhol,  ao pé (ou seria salto 15?) da letra: desvendar a profundidade da contemporaneidade através do que é considerado menor, leviano, popular, superficial, isto é, mergulhar na essência da cultura pop. E, para isso, a questão da imagem é essencial e, no documentário de 93 minutos, dirigido por Cesar Terranova, 33, a persona de Gazelle é o corpo-imagem do filme que desvenda a alma de Paulo. O filme será reapresentado no domingo, 16, no Espaço Itaú, às 22h.

Mas quem é Gazelle? Paulo, 45, o mentor e criador, descreveu a criatura ao Blogay: “Gazelle, na minha vida, representa uma heroína pessoal, cujos poderes invocam emoções e reações nas pessoas partindo do meu ponto de vista sobre a beleza e visões do mundo. Paulo e Gazelle compartilham a mesma jornada, se complementam. Eu me sinto Paulo em todos os momentos da vida, desde muito pequeno, eu entendi quem eu era como pessoa e qual o meu papel na sociedade. Gazelle apenas leva certos sentimentos do Paulo para o plano ilimitado da fantasia com a ajuda de ferramentas como a moda e o bom humor. Gazelle existe, para além da montação, na cabeça de algumas pessoas que nem me chamam mais de Paulo. Porém, para mim, Gazelle só existe com a minha permissão.”

Gazelle é uma figura conhecida da cena noturna de Nova York, Londres e São Paulo. Ele (Paulo)/ela (Gazelle) tinha um fotolog (nos idos tempos que essa rede social era “hype”) e postava fotos com seus looks pra lá de absurdo. Além disso, tinha também uma revista, a “Gazelland”, que seu último número, a “Love Issue”, ele acabou não imprimindo, até o começo das filmagens do documentário.  O verbo ter, conjugado no pretérito imperfeito, é fundamental para a primeira parte do filme. Paulo Gazelle tinha um namorado que morreu. Tinha um tesão por uma revista que acabou antes da última publicação. Tinha uma casa de família em Teresina, Piauí, sua terra natal, que não existe mais. Tinha saúde.

(Divulgação/Mark Anthony)

(Divulgação/Mark Anthony)

Aliás, a cena em que Paulo visita o médico, logo no começo do filme, e descobre que, mesmo sendo HIV positivo e até então com cargas virais boas, ele precisará tomar medicamentos, pois sua saúde debilitou-se, é impactante. Primeiro porque rompe com a questão de uma primeira glamourização da personagem (não existe glamour na doença, apesar de todo “trendismo” que gays americanos e europeus tentaram fazer no caso da Aids) como também mostra o fio da navalha que o documentário andará para captar a essência de Paulo Gazelle. Como não invadir de forma brutal a privacidade do outro é um ponto delicado no filme e Cesar explica ao Blogay a técnica que ele usou para que o registro não ficasse extremamente invasivo: “Meu desejo maior era traçar um retrato verdadeiro e pessoal do Paulo e da Gazelle, que não perpetuasse equívocos ou preconceitos em relação a temas como: noite, vida gay e também o HIV, mostrando que tudo isso geralmente é apenas uma pequena parte do trabalho árduo que é ser humano e lutar contra a corrente que o destino reserva para cada um nós. O curso de Documentary  Filmmaking da New York Film Academy [que Cesar frequentou] é muito bom. Muitas aulas são voltadas ao processo de registro da vida pessoal alheia, levantando questões importantes e ensinando o processo ‘fly on the wall’ [em português, mosca na parede, e é um estilo de documentário que a equipe tenta ficar o mais invisível ao registrar os sujeitos do filme] interferindo o mínimo possível na narrativa da personagem e amplificando na edição a história principal.”

A persona Gazelle, que nunca repete um look, que está em inúmeros eventos sociais, que frequenta a noite com desenvoltura, se apresenta de forma categórica, mas a cada camada de roupa ou make, desvenda-se o eu profundo de Paulo, um ser apaixonado, sensível, frágil. O vestuário e sua troca constante desnuda um ser sólido e constante. Neste momento, o verbo ter muda sua forma verbal e vai para o presente do indicativo. Paulo tem um novo namorado. Tem a última edição de sua revista impressa. Tem saúde.

É muito interessante como ele tem domínio da imagem, ele próprio adora fotografar e vive rodeado com artistas, ilustradores, fotógrafos. Ele tem a imagem a seu favor. Ele tem Gazelle a seu favor. Uma morte do cisne pronta para ser ressuscitada. E neste momento o verbo ter sai de cena e surge o verbo ser com a mesma intensidade de um novo look sendo criado.

(Divulgação/Cesar Terranova)

(Divulgação/Cesar Terranova)

E para quem acredita que a tal montação é algo fútil, Paulo revela: “É uma linguagem muito pessoal, que me deixa em sintonia com a existência entre o belo e o grotesco… Onde a imperfeição torna-se perfeita”. Bem que Andy Warhol já tinha nos avisado que a tal superficialidade (ou aquilo que julgamos como superficial) é muito mais complexa do que visualizamos …

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'Nossos Ossos' e as carcaças da alma

Por Vitor Angelo
10/11/14 18:30

O primeiro romance de Marcelino Freire, “Nossos Ossos” (2013) é um dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2014, que acontece nesta segunda-feira, 10, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, a partir das 20h. O livro conta a estória do dramaturgo premiado Heleno que recebe a notícia de um michê que, ele, às vezes, pagava, foi brutalmente assassinado.  Sua via-crúcis é levar o corpo do “boy” até o interior do Nordeste e entregá-lo à família do rapaz.

Narrado com muita fluidez na primeira pessoa, a língua do eu e de toda a subjetividade deste eu particular, a maestria do romance está na arte do deslocamento. Seja o deslocamento que este eu, às vezes, dá em sua narrativa, ao incorporar discursos na terceira pessoa dentro de sua própria fala. Seja o deslocamento geográfico do Nordeste para São Paulo e de novo para o Nordeste. Seja o deslocamento da figura amorosa, ele vem para a capital paulista para encontrar seu grande amor, Carlos, que partiu antes dele para São Paulo e depois o despreza fazendo Heleno substituí-lo, nem que fosse apenas no campo das imagens, pela figura do michê que depois seria assassinado.

Enfim, a operação feita pelo deslocamento é a antítese da polarização onde existe o eu e o outro como inferno e oposto. Quando o eu se desloca para o outro, como no livro que é dividido em “Parte um” e “Parte outro”, existe o esforço de se conhecer a partir da relação de aproximação com o outro e não por oposição. E este exercício é levado na sua experiência mais radical, quando o eu e o outro se encontram na morte. Exatamente por isso, não é meu, não é seu, é nosso.

Curto e ágil, “Nossos Ossos” não deixa de ser denso por causa dos primeiros adjetivos por mim descritos neste parágrafo.  Através do corpo, da fisicalidade deste, chegamos às carcaças da alma. Assim como o enigma “rosebud” do Cidadão Kane, a chave do corpo (e também da alma) de Heleno está em algum lugar no passado, no sertão, quando criança representava um guerreiro sertanejo. Aliás, em alguns campos da ciência e da psicanálise acredita-se que é na infância que o eu e a individualidade são formados.

Talvez o que de mais belo parece nos sussurrar “Nossos Ossos” é que nosso eu é feito de outros. E, em tempos de polarização e radicalismo, onde o outro como alteridade, como diferente, é sempre inimigo, é uma valiosa e poética lição.

Capa do livro "Nossos Ossos", de Marcelino Freire ( Divulgação)

Capa do livro “Nossos Ossos”, de Marcelino Freire ( Divulgação)

As eleições e a intolerância

Por Vitor Angelo
27/10/14 18:30

Não foram meses fáceis, acirrados por discussões e brigas que pareciam se encerrar neste domingo, 26, com o término do segundo turno das eleições presidenciais, mas não, elas ainda espirram ódios e intolerâncias, mesmo passada a chamada tal “festa da democracia”. Para as minorias, a palavra-chave chama-se tolerância, é esta a razão de todas as lutas travadas por negros, mulheres, LGBTs, pessoas com deficiência,… O que se leu e se ouviu foi o seu oposto, principalmente quando a disputa ficou entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). A intolerância ganhou corpo de forma que ainda é extremamente preocupante, mesmo passada a eleição.

Os primeiros passos foram dados na rede social e um sinal que a coisa não estava indo bem foi quando uma amiga feminista postou algo criticando Marina Silva (PSB) por ela ser religiosa. Depois de criticada, ela usou o termo da liberdade de expressão para justificar os seus atos, a mesma desculpa usada pelos humoristas machistas que ela mesma critica. Algo muito errado estava começando a se desenhar.

Depois vieram o ódio e a eliminação do diferente também nas redes sociais. Tudo bem dar  “block” no Twitter ou no Facebook para quem está fazendo bullying ou mesmo em quem você está achando um chato de galocha, mas é muito estranho anunciar isto como foi feito em centenas de post. “Agora sim, minha timeline está limpa, tirei todos que discordavam de mim”, muita gente escrevia com orgulho e como prova de poder.  O exibicionismo egoico só prova uma coisa: a dificuldade com a alteridade, com a diferença, e isto é um traço, mesmo que distante, usado em sua radicalidade pelas ideologias fascistas.

Ao ver amigos brigando por ter opiniões divergentes, cheguei a escrever no Facebook: “Em 1989, eu era petista desses de vender estrelinha e estava apaixonado pelo sonho de um Brasil possível desenhado pelo PT (não nego que tenho saudades daqueles tempos utópicos). Fiz campanha, boca de urna pro Lula contra o Collor e vi estarrecido o debate na Globo, o sequestro de Abílio Diniz e a derrota. Quando soube que um amigo querido tinha votado no Collor, virei a cara pra ele. Simplesmente o odiei, e isso foi por anos, não dirigia a palavra a ele e fazia questão de virar o rosto. Bom, o tempo passou e numa época que estava na pior, uma das pessoas que me deu a mão foi ele, aquele que escrotizei pela opinião ‘política’ (fanatismo pior que o do futebol, eu diria). Elegante, e muito distante da imagem que tinha de quem votasse no Collor, nunca comentou nada de minha indiferença a ele durante anos. Aliás, demorei pra voltar a falar com ele muito mais tempo do que o Lula demorou para fazer aliança com Collor. [...] Hoje acredito em áreas cinzas e na complexidade do ser humano, não consigo acreditar que alguém é mau ou bom porque vota em tal candidato, acho isto balela das grossas”.

Além das brigas sinalizando a intolerância, outro dado muito semelhante aos estados totalitários foi a vigilância. Vigiar e punir (no mínimo com um “block”) toda a diferença virou lei e orgulho nas redes sociais. Os eleitores que preferiram não preferir, isto é, anulando o voto ou se abstendo das eleições foram constantemente bombardeados. Muito menos pela minha colega colunista da Folha, Mariliz Pereira Jorge, que declarou que “nulo e branco é para os fracos” e muito mais por acusações como “irresponsáveis e alienados” vociferados com constância nas redes contra aqueles que se declaravam nesta posição.

Assim, o autoritarismo que gritava nas redes sociais se esparramou para a vida. “Eu observei uma leviandade das lideranças políticas neste momento que contribuíram para este fomento de um clima de guerra ou a eclosão de um padrão fascista na internet. Eu acredito que as lideranças têm muita responsabilidade nisto também. Pelo nosso próprio fascismo latente individual, mas as lideranças potencializam e favorecem a eclosão disto de uma forma mais evidente”, declarou, para o site “Uol”, Rodrigo Leite, o psiquiatra da Hospital das Clínicas da USP, analisando as eleições. Sua declaração foi completada pelo blogueiro Leonardo Sakamoto: “O PT, para agregar o sentimento antitucano, e o PSDB, para agregar o sentimento antipetista, trouxeram para perto de si o que há de pior nos extremismos. Trouxe todo o lixo para perto”. Acredito que o termo lixo para Sakamoto é sinônimo de intolerância e autoritarismo.

Independente de quem venceu as eleições, existe um sentimento de perda como Gregório Duvivier escreveu na Folha. Fomos derrotados pela intransigência e o fanatismo. Foi a eleição que o pensamento político perdeu de lavada para a publicidade e o marketing. O emocional na política, importante ingrediente para o fascismo, mostrou sua cara e suas unhas. E elas não foram aparadas depois do voto.

Já era, infelizmente, esperado o discurso de ódio contra os nordestinos (será que querem fazer deles os novos judeus?). Entretanto, diferente de 2010, quando uma estudante de direito de São Paulo atacou os nordestinos, teve uma resposta firme e acabou até perdendo emprego por causa de seu preconceito, desta vez, ele vem embalado de vozes mais oficiais, como do vereador que se elegeu deputado estadual paulista que sugere uma separação em Norte e Sul do país e de um comentarista de televisão que referiu aos nordestinos como “bovinos”. O grande problema é o discurso se sedimentar cada vez mais e se tornar uma “verdade” para uma grande parcela da população. Contra isto, deve-se acontecer respostas rápidas desautorizando a intolerância e o preconceito ( e não incitando ainda mais o separatismo como muitos que dizem se opor contra o ódio dos nordestinos e devolvendo insultos ao Sul do país como se tudo fosse uma grande massa que pensasse de uma mesma forma = repetição de grande parte dos discursos de ambos os eleitores dos dois candidatos na rede).

Em contrapartida, uma jovem fez um vídeo declarando que com a vitória de Dilma Rousseff, ela queria mudar de país, acabou tendo seu Twitter e Facebook divulgado por dilmistas para receber bullying e ofensas.  O radicalismo e o autoritarismo foram alimentados como nunca nestas eleições e agora estão em todas as instâncias, em menor ou maior grau. E isto é extremamente nocivo para as minorias que veem o espírito intolerante do brasileiro se aflorar com bastante ferocidade.

Que imagens tolerantes (raras, diga-se) como estas sejam mais cultivadas como antídoto a algo muito perigoso que se aflorou nestas eleições.

O casal  Ian Felipe Barbosa e Camila Isabela Ramos (Reprodução)

O casal Ian Felipe Barbosa e Camila Isabela Ramos (Reprodução)

 

Revista reflete sobre o porquê dos avanços de direitos gays em alguns países sinaliza retrocesso em outros

Por Vitor Angelo
24/10/14 17:00

No dia 11 de outubro, no meio da convulsão e comoção causada pela Suprema Corte dos Estados Unidos ter elevado para 24, mais o Distrito Federal, os estados americanos que o casamento igualitário é permitido, a revista inglesa “The Economist” fez uma capa sobre como o avanço dos direitos dos homossexuais em alguns lugares acaba também causando o retrocesso em outros. Com título de “The Gay Divide” (algo em português como “a divisão gay” [no mundo e em relação aos seus direitos]), a publicação faz uma longa reflexão sobre a contraposição de ao menos 113 países onde as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo são legalizadas e de outros 78 lugares no mundo que a homossexualidade é considerada crime. Aliás, alguns deles, recentemente, aprovaram leis severas, incluindo a pena de morte para gays e lésbicas.

A história de tolerância começa pela própria revista. Em 1996, com uma capa com dois bonequinhos vestidos de noivos, em cima de um bolo de casamento e com a manchete “os deixem se casar”, a “Economist” recebeu o recorde de cartas hostis à posição da publicação. O tempo passou e, com certeza, os protestos homofóbicos também. A revista não recebeu nenhuma carta queixosa da atual capa que são as mãos de dois homens juntas.

Capa da revista inglesa "The Economist" (Divulgação)

Capa da revista inglesa “The Economist” (Divulgação)

Esta perspectiva mais tolerante pode ser comprovada se pensarmos que, em 1985, apenas 24% dos americanos declararam que tinham algum amigo ou parente homossexual, e hoje, são mais de 75%, segundo dados da revista. No Brasil, 60% da população acreditam que a homossexualidade deve ser aceita e na Argentina, 74%. Além disso, é uma questão muito  tranquila para os mais jovens. Outro dado da publicação aponta que apenas 16% dos sul-coreanos acima dos 50 anos pensam que os gays deveriam ser aceitos contra 71% dos jovens adultos de 18 a 29 anos de idade.

Por outro lado, países muçulmanos e na África endurecem suas ações contra os homossexuais. Nigéria e Uganda aprovaram leis bem duras contra os gays e o estupro corretivo de gangues africanas contra lésbicas é uma realidade muito mais perversa do que gostaríamos de acreditar. Neonazistas russos também fazem suas caçadas contra homossexuais, os espancando e fazendo humilhações públicas, com o silêncio ou consentimento da polícia. O russo Vladimir Putin, para agradar homofóbicos e uma boa parte da Igreja Ortodoxa, promulgou uma lei que é proibida qualquer “propaganda” da homossexualidade, isto inclui declarar-se gay. Os presidentes de países africanos seguem a mesma linha, usam os gays e leis que os demonizam para encobrir casos de corrupções e outros escândalos, além de estes atos fazerem uma média com seus eleitores mais conservadores.

A tese da revista é muito interessante, mas faltou analisar mais a fundo o que está atrás deste jogo de chamados retrocessos. Na verdade, estes países que agora baixam leis anti-gays nunca foram tolerantes com os homossexuais, muito pelo contrário, as perseguições sempre existiram (não esqueçam que LGBTs eram presos e levados para os gulags, os campos de concentração e trabalho forçado do antigo regime soviético, de onde emergiu a Rússia atual) , mas agora a intolerância entra de forma ainda mais legalizada, isto é, o Estado ratifica uma situação que já existia de forma orgânica no meio destas sociedades.

Outro ponto importante, e que apesar de tocada nas reportagens e artigos da “Economist”, poderia estar de maneira mais explícita  é a questão do Ocidente e do multiculturalismo. Para se opor aos chamados valores ocidentais (explícitos principalmente na globalização), tanto a Rússia, países muçulmanos e alguns africanos escolheram um item que conseguiriam apoio massivo para suas políticas ultranacionalistas e/ou religiosas: os direitos LGBTs. Bandeira de países progressistas, como o de boa parte que integra a União Europeia, as questões dos direitos de igualdade para gays, lésbicas e transgêneros servem na medida para países com forte presença do patriarcalismo discursarem que os homossexuais são uma praga do Ocidente e que devem ser combatidos pois maculam a identidade nacional. Os gays, na verdade, são um bode expiatório ou  vanguarda de um exército, se preferir, para uma guerra muito maior que é o da globalização ocidental e seu multiculturalismo contra o nacionalismo radical.

Eu, João Henrique Custódio, gay, vítima de racismo

Por Vitor Angelo
17/10/14 17:00

Recentemente, conversava com um amigo jurista e comentávamos que preconceito é sempre preconceito, mas quanto mais visível o objeto da intolerância, mais vulnerável é a vítima. No caso dos negros existe muito pouca escapatória. A questão da cor se mostra evidente, está literalmente na pele, muito mais do que ódios contra certas religiões ou contra orientação sexual. Iguala-se somente à questão de gênero, no quesito visibilidade. Mesmo estampado nas nossas caras, o racismo ainda é dissimulado por alguns como “brincadeirinha”, liberdade de expressão ou o motivo da violência ser sempre outro. No final da semana passada, o estudante de Ciências Sociais, João Henrique Custódio, 29, alegou ter sido agredido por seguranças da festa Cervejada do Peru, organizada pelo Centro Acadêmico 11 de Agosto, no Largo São Francisco, no centro de São Paulo. Para ele, que é abertamente gay, foram proferidas palavras racistas e a violência que o massacrou (diferente da dada aos amigos que estavam com eles, todos brancos) também passou por esta chave.

Ele descreve em sua página do Facebook: “Caminhamos poucas quadras e ao chegarmos (numa festa que tinha música e banda de metal) havia grades fechando a passagem nas calçadas e na rua, com um único local de passagem aberto para pedestre [...] Entrei e, então, me virei e vi um dos meus amigos com o braço levantado e com uma pulseira verde sinalizando que eu devia voltar, provavelmente para pegar a pulseira imaginei. Caminhei poucos passos, por trás levei uma chave de braço, tentei me soltar e comecei a levar vários socos próximos da minha bacia e nas costelas, e chutes nas pernas. [...] Lembrei dos skinheads e imaginei que poderiam ser eles, pois sou gay, tenho parceiro, ele estava ali tentando me ajudar. Eu ouvia várias vozes de pessoas, e não conseguia identificar. ‘Não bata nele!’ ‘Largue o menino!’ Fui arrastado e golpeado várias vezes até a grade que dividia a rua. Largaram-me lá, ergui meu corpo para ver meus algozes, vi o rosto deles mesmo sem óculos e, eles não eram skinheads, eram três seguranças, três homens grandes, muito grandes comparados aos meus 58 quilos”.

Ele e os amigos então ligaram para a polícia. “Meus amigos conversaram com várias pessoas e elas os alertavam sobre o risco de chamar a polícia, pois um dos meus agressores era um policial fazendo ‘um extra’, como segurança da festa. Os meus amigos se dividiram diante da ameaça, eu vi nos olhos deles o medo, eu me perguntava por que eles estão com medo? Eu não posso ter medo! Quanto mais a policia demorava a chegar mais meus amigos se desesperavam, o agressor ‘policial’ procurou meus amigos e ameaçou-os dizendo: ‘se chamar a polícia coisas graves acontecerão’”.

Quando a polícia finalmente chegou, o segurança, que as pessoas diziam se tratar de um policial, começou as ofensas racistas: “Ele tentou me intimidar diante do policial me chamando de ‘neguinho você é um merda’, outros policiais surgiram e ele se escondeu atrás da grade”.

João fez B.O., mas não conseguiu incluir racismo. Também fez exame de corpo delito e deve abrir um processo. Para o estudante, os amigos que estava com ele, todos brancos, foram tratados de forma agressiva pelos seguranças, mas sem violência física desproporcional, e ele foi o único que apanhou, o que o fez crer que isto aconteceu devido à sua cor de pele.

Outro lado

O Blogay tentou contato telefônico e por e-mail com o Centro Acadêmico 11 de Agosto e não obteve nenhuma resposta, muito menos informaram a empresa que fez a segurança na festa. Entretanto, eles publicaram, na rede social, uma nota de esclarecimento que diz que João queria entrar na festa sem pagar. “A organização (diretoria do 11) explicou calmamente a ele que o espaço público era da prefeitura e que ela havia nos dado permissão de uso, inclusive mostrando o alvará que nos autorizava a realizar o evento. Quando ele viu o alvará, tentou rasgá-lo, alegando que aquilo não o convencia. Devido à recusa ao diálogo, pedimos gentilmente que ele se retirasse pela última vez. Negado por ele a sua própria retirada, pedimos que os seguranças o acompanhassem para fora da cervejada. Quando os seguranças encostaram as mãos em seus ombros, partiu para a agressão física aos funcionários, que reagiram adequadamente imobilizando-o e nunca batendo-no”.

João contesta e diz que “tem testemunhas que existem de carne e osso, e não são forjadas: Felipe Policisse, Thiago Clemente do Amaral, Maira Gebs e Guilherme Zambelli”. Depois questionou: “eu tendo 1m77 e repito 58 quilos, sem experiência em artes marciais, como pude conseguir agredir várias pessoas – seguranças e possivelmente a comissão de organização? Já que no texto não está claro quais foram os agredidos”. E conclui: “Faz parte da lógica do racismo brasileiro fazer exatamente o que essa nota (do centro acadêmico) faz, culpar à vitima de racismo pelo abusos e agressões que sofrera, a vitima se torna culpada, para exorcizar os sentimentos de repulsa e a discriminação naquele que perturba, que polui a nossa democracia racial”.

Levy Fidelix, a liberdade de expressão e o discurso de ódio

Por Vitor Angelo
30/09/14 14:30

Estava no voo de Londres para Zurique, estava de férias, estava lendo o “The Guardian”, um importante jornal inglês, quando, o Brasil, que raramente aparece no noticiário, é citado com a manchete que diz: “Brazil presidential candidate airs homophobic rant during TV debate” (algo como em uma tradução livre: “Candidato à presidência do Brasil faz discurso homofóbico durante debate de TV”). Fiquei bastante perplexo, como o nosso 7 a 1 (que é motivo de risadas e piadinhas aqui na Europa, pensei se não era novamente mais uma goleada contra nós mesmos, ou uma reafirmação de um país que não consegue ser sério nunca). E, apesar de todo o escapismo, parece que fui fortemente tragado à confusão, desonestidade e intolerância que exatamente estava fugindo neste período do ano, com as eleições e suas paixões medonhas. Atordoado, vejo as declarações do político do PRTB (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro), nos portais nacionais, e me deparo com algo que custo acreditar: ele incita a perseguição aos gays. Neste momento, o Blogay, que estava de férias, voltou, pois não existe férias quando o assunto grita por racionalidade, cidadania e civilidade.

De todo o discurso infeliz de Fidelix, pode-se tirar o trecho final como o mais hediondo: “É… Vai para a [avenida] Paulista e anda lá e vê [os gays]. É feio o negócio, né? Então, gente, vamos ter coragem somos maioria. Vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los, não ter medo. Dizer que sou pai, mamãe, vovô. E o mais importante é que esses que têm esses problemas realmente seja atendidos no plano psicológico e afetivo, mas bem longe da gente. Bem longe, mesmo, porque aqui não dá”.

Nele existe a incitação de enfrentamento e banimento, o mesmo discurso usado pelo apartheid na África do Sul contra os negros e pelos nazistas alemães contra os judeus. Enfrentar e extirpar, agora, a bola da vez: os gays. Apesar das correlações óbvias com o autoritarismo mais radical, muita gente comentou que era liberdade de expressão, que ele estava dando “apenas” sua opinião.

Se pensarmos como o linguista americano Noam Chomsky, podemos até considerar que é liberdade de expressão. Ele mesmo levou a fundo a frase do filósofo iluminista francês Voltaire: “Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”. Assim, nos anos 80, ele, que criticou o nazismo de forma contundente, fez o prefácio de um livro do historiador francês Robert Faurisson que defendia a negação do Holocausto. Mas, seguindo este caminho, percebemos que a tal liberdade de expressão é uma rua de mão dupla, existe um interlocutor, uma resposta, o outro que também tem a liberdade de responder, principalmente se sentiu na tal “opinião” um sentimento de ofensa, como os judeus, no caso de Chomsky, ou os gays, no caso de Fidelix. Pois bem, tanto a reputação de Faurisson como, principalmente, a de Chomsky foram intelectualmente desmoralizadas depois deste ato por boa parte da inteligência francesa, que também emitiu sua opinião sobre a opinião deles. Até porque aí entra uma outra definição de liberdade de expressão que diz que ela termina onde começa a do outro.

O que é importante notar que a liberdade de expressão não é um bem em si, por exemplo, não existe nenhum ato de bravura ou nobreza em dizer: “eu te odeio e vou te matar”, ou “a maioria irá esmagar a minoria e baní-la para bem longe”. Exatamente por isto, também é tolo quem acredita que Fidelix foi corajoso. Ele fez o discurso da exaltação de uma “maioria” contra um grupo, como fizeram e fazem os piores ditadores, e os risinhos da plateia presente no debate não o negam. Discurso corajoso é jogador de futebol declarar-se transexual, galã de novela assumir-se gay, Daniela Mercury afirmar que ama outra mulher. A coragem de sair do consenso! A fala de Fidelix é de fundo covarde e mesquinha.

Outra agravante da chamada liberdade de expressão na democracia é o seu próprio paradoxo. É o único sistema que o discurso contra a própria democracia ou a própria liberdade de expressão podem ser feitos sem acarretar opressões pesadas como nos regimes totalitários. Usa-se a liberdade de expressão para ir contra a sua própria essência, estimulando fobias e preconceitos como no caso da fala de Fidelix. Por isto é vital ter a vigília pelo que chamamos de liberdade de expressão, para que seus excessos usados de forma leviana como fez Levy, em última instância, não acabem exterminando-a.

Enfim, tudo isto porque usa-se a liberdade de expressão para esconder algo tenebroso: o discurso de ódio. Fingindo-se ser libertário, você aniquila, prende e persegue uma minoria como diz o próprio Fidelix: “gente, vamos ter coragem somos maioria. Vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los, não ter medo”. Ele incita o pior no ser humano, o ódio ao outro. Um ódio em pacto com uma plateia complacente, moderadores despreparados e os outros candidatos silenciosos diante tanta barbárie. A sorte que contra a barbárie, existe a civilização e ela está se mobilizando, em forma de protestos, processos e denúncias contra Fidelix, o homem que trouxe as trevas ao debate político.

Literatura gay em três livros

Por Vitor Angelo
31/08/14 23:45

Existe uma grande discussão se existe ou não literatura gay ou queer. Precisamente, ela nasce junto com o movimento dos direitos dos homossexuais no final da década de 1960.  Claro que a abordagem da homossexualidade já está na literatura desde as poesias de Safo, assim como no “Banquete” de Platão, na Grécia antiga. Entretanto, para alguns pesquisadores, ela se faz de forma consciente e abertamente militante a partir do evento de Stonewall, em Nova York, em 1969 (talvez tenhamos a exceção de André Gide e seu  “Corydon”, de 1924). Há outras vozes que são contra esta nomenclatura (literatura gay) e, para esses, existe apenas literatura boa e literatura ruim, por isto o debate colocado na primeira sentença deste parágrafo.

Porém, editores que acreditam na literatura gay tentaram este ano através de abaixo-assinado colocar o tema na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) mas a atitude foi em vão, o evento literário está em consonância, ao que parece, com a ideia de boa e má literatura e não na fragmentação da literatura em seções como feminina ou gay.

O que é mais complicado quando partimos da existência de uma literatura gay é achar um corpo sólido estético para ela. Todos os gêneros e formas são permitidas. Talvez este seja o trabalho mais difícil para quando nos debruçamos sobre esta tal literatura. Darei o exemplo de três livros que podem sim estar na chamada literatura gay mas são muito díspares entre si.

O primeiro é “Águas Turvas”, de Helder Caldeira (Editora Faces). O romance é a história de amor entre o médico brasileiro Gabriel Campos que se muda para os Estados Unidos depois de sofrer um abuso sexual e se apaixona pelo financista Justin Thompson. O livro acaba sendo também sobre a saga da família Thompson.  Escrito de forma ágil, apesar da história às vezes ficar um pouco açucarada. Tem o grande mérito do autor ter um excelente domínio da narrativa.

“Ascenção”, de Silvano Tolentino Leite (ABR Editora), são contos que expõem ora de forma raivosa ora de forma poética a homofobia e o preconceito (incluindo o preconceito contra os infectados por HIV). Silvano trabalha, através de cada conto, uma forma de expor a homofobia e, de forma pioneira, também retrata o fundamentalismo religioso. O trabalho é interessante pois ele consegue, sem escorregar, ficar na linha tênue que divide a literatura e a militância.

Por fim, “Digerindo Penas”, de Flávio Aquistapace (Editora Patuá), vai para a linha mais experimental. Ele tem polivozes, mas a principal tem o nome de Bruno Mantegão, um gay de 33 anos que imagina um reencontro com sua mãe. O livro mixa diversas formas literárias. A fragmentação do personagem é sintetizada da forma que o romance também é construído: em fragmentos. É inspirador um romance de estreia se propor a tantos desafios e conseguir ótimos resultados.

Os três livros podem ser considerados literatura gay, pois a homossexualidade tem uma voz preponderante em cada um deles e, apesar de extremamente distintos entre si, trazem em seu cerne a palavra chave contra a intolerância: diversidade.

"O Banquete de Platão" (1874), de Anselm Feuerbach

“O Banquete de Platão” (1874), de Anselm Feuerbach

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