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Blogay

A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

Perfil Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo

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Militantes pressionam órgãos LGBT na esfera estadual e municipal

Por Vitor Angelo
12/02/15 12:00

Militância em movimento! O diálogo entre poder público e militância nunca é fácil, muito pelo poder de cooptação que o primeiro pode exercer sobre o segundo e também pelo quesito independência que militantes mais sérios tentam fazer prevalecer no embate. Neste momento, tanto na esfera estadual de São Paulo, comandada pelo PSDB, como na municipal, liderada pelo PT, existem pressões que mostram como esta relação é tensa, independente da coloração ideológica, porque, trata-se. no fundo, da relação de poder.

Entidades importantes ligadas aos movimentos gay e dos direitos humanos pedem a permanência da Heloísa Alves na coordenação estadual LGBT. O Blogay conversou com estes grupos que nos enviaram o seguinte documento:

“Ilustre Senhor Doutor Secretário de Justiça e da Defesa da Cidadania,

Vimos, por meio deste, cumprimenta-lo pela posse no cargo de Secretário de importante pasta de nosso estado. Temos certeza que Vossa Excelência conduzirá os rumos das políticas públicas voltadas para os cidadãos paulistas, norteadas com justiça, cidadania e igualdade.

Temos acompanhado o comprometimento da pasta no que se refere às questões voltadas à diversidade sexual por meio da Coordenação de Políticas Públicas para a Diversidade Sexual, e somos testemunhas de que os avanços foram muitos.

A criação do Comitê Intersecretarial de Defesa da Diversidade Sexual, composto pelas 11 Secretarias de Estado que tiveram demandas advindas da 2ª Conferência Estadual de Políticas Públicas e Direitos Humanos de LGBT de São Paulo, Gestão Pública, Esporte, Desenvolvimento Social, Turismo, Adm. Penitenciária, Cultura, Saúde, Educação, Segurança Pública, Emprego e Trabalho e Justiça, coordenado pela Coordenadoria citada, acenou para um novo caminho de perspectivas e de respeito a uma população tão discriminada em nosso país.

Outra importante articulação das Comissões da Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de São Paulo, juntamente com a Defensoria Pública, Conselho Estadual LGBT e a Coordenação Estadual de vossa pasta, junto ao Conselho Estadual da Educação, culminou na inclusão de nome social nos registros escolares das instituições públicas e privadas no Sistema de Ensino do Estado -– Deliberação CEE 125, avançando no respeito e à dignidade de travestis e transexuais junto à educação de nosso Estado.

Atuação relevante foi a assinatura do Termo de Convênio firmado entre a Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania e a Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo, com a realização de oficinas de capacitação de advogados nas subseções no sentido de que as Casas dos Advogados recebessem denúncias amparadas nos termos da Lei 10.948/01, que pune práticas discriminatórias em face da homotransobia.

Nesse sentido, Senhor Secretário, queremos desejar uma gestão profícua à Vossa Excelência, e ao mesmo tempo manifestar nosso apoio à manutenção da Dra. Heloisa Cidrin Gama Alves à frente da Coordenação de Políticas Públicas da Diversidade Sexual, reafirmando  nosso desejo que essa parceria se mantenha e se consolide ainda mais nos próximos anos, pois que o combate ao preconceito e a discriminação com a população LGBT de nosso Estado é nosso primeiro compromisso, juntamente com a garantia de maior orçamento e pessoal à Coordenação e à Comissão Processante Especial que julga os processos da Lei Estadual 10.948/01, para fins de melhor garantia dos princípios constitucionais da eficiência e da razoável duração do processo (administrativo). Nesse sentido, sugerimos que as multas aplicadas em razão de processos da referida lei sejam direcionadas ao orçamento colocado à disposição da Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual.

Ass: Comissão de Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da OAB-SP, Mães pela Igualdade do Estado de São Paulo, Pedra no Sapato, Comissão Nacional de Direito Homoafetivo do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM),Comissão Estadual de Direito Homoafetivo do IBDFAM/SP , PV Diversidade, Dynamite , ONG ABCDs, Família Strongers, Comissões de Diversidade Sexual das OABs de Bauru, Santos, Peruíbe, Arujá, Campinas e Jabaquar, Comissão de Diversidade Sexual e Direito Homoafetivo da OAB Nacional.”

No município, o Blogay acompanhou o imbróglio, no final do ano passado, sobre as eleições do Conselho Municipal e, mesmo o coordenador de Políticas LGBT municipal Alessandro Melchior tendo afirmado que nada mudou, não é bem assim que os integrantes do Conselho enxergam a situação. As eleições ainda não aconteceram, foi através de pressões que a coordenadoria afirmou que ocorreria em fevereiro. Uma carta com diversas críticas à política LGBT da cidade de São Paulo foi divulgada no Facebook:

“CARTA ABERTA DA SOCIEDADE CIVIL DO CONSELHO MUNICIPAL DE ATENÇÃO À DIVERSIDADE SEXUAL SOBRE O RETROCESSO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS LGBT NA CIDADE DE SÃO PAULO EM 2014

Prezado Prefeito Fernando Haddad

Prezado Secretário de Direitos Humanos e Cidadania Eduardo Suplicy

Prezado Secretário Adjunto Rogério Sotili

Nós, representantes da sociedade civil do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual, queremos através desta carta aberta encaminhar este relatório. Infelizmente informamos aos senhores que o ano de 2014 pode ser sem dúvida considerado o que mais retrocesso apresentou em termos de políticas públicas para a diversidade sexual na cidade de São Paulo, depois de anos se expandindo.

2014 foi o ano em que a sociedade civil do Conselho Municipal travou embates mensais nas reuniões ordinárias com a Coordenadoria de Políticas LGBT (CPLGBT), com Alessandro Melchior à frente. Inúmeros problemas como o atraso de vários meses das bolsas do POT (Programa Operação Trabalho) para travestis e transexuais, o fechamento e a não reabertura do Autorama (espaço de sociabilização LGBT no Parque do Ibirapuera), apesar de todo o esforço do Conselho na elaboração do Programa Autorama Legal, frustraram a sociedade civil. Houve também um grave problema com a Associação da Parada do Orgulho LGBT, informando que pela primeira vez, em 18 anos, foi prejudicada e preterida na organização das atividades do 18º Mês do Orgulho LGBT de São Paulo pela CPLGBT.

Tudo que foi comprometido para 2014, e tinha orçamento previsto, ficou para 2015: a mudança do CCH (Centro de Combate a Homofobia) para o Largo do Arouche, a unidade móvel, o projeto Transcidadania, a política de saúde integral LGBT, o CCH na zona leste. A execução das metas ficou bem abaixo do estimado ou esperado. Em carta enviada em 19 de janeiro pela presidente do conselho, Janaina Lima, praticamente todos os assuntos dos quais foram solicitadas devolutiva pela CPLGBT, encontravam-se em atraso sob alegações de ser algo ‘inerente ao poder público’.

Porém, a cisão ocorreu quando a Coordenadoria impôs uma alteração de forma unilateral no decreto do Conselho, aprovada por uma comissão minoritária e nunca deliberada pelo próprio conselho com a alegação de ‘falta de quórum’. O decreto acaba com o que de mais importante existia no Conselho paulistano: a divisão equânime por segmentos e independência de entidades. O novo decreto reduz de 15 para 7 vagas os segmentos, priorizando 8 vagas para ONGS, conselhos de classe e coletivos. Isso faz com o que o conselho perca independência que vem empreendendo durante toda sua existência. A farsa foi amplificada em audiências públicas e consulta online, já que foram rechaçadas praticamente todas as propostas, mantendo intacta a fórmula imposta, mais conveniente ao governo.

Nesse tema, cabe destacar que o coordenador da CPLGBT, Alessandro Melchior, realizou um verdadeiro golpe contra a sociedade civil no Conselho Municipal LGBT ao invocar a necessidade de um suposto ‘quorum’ que nunca existiu na história do Conselho, claramente para conseguir impor a posição do Poder Público. Para que o quorum não fosse atingido, o poder público deixou de enviar seus representantes a reuniões do conselho. O jurista Paulo Iotti destacou que pela Constituição Federal ninguém é obrigado a fazer nada senão em virtude de lei ou, no caso, pelo menos de decreto, regimento ou norma infralegal que o imponha, mas o coordenador não aceitou dialogar, inclusive invocando o subterfúgio de que Vossa Excelência, o Prefeito, é quem tomaria a decisão definitiva. Como aliás sempre foi a regra, já que nas eleições anteriores, o prefeito simplesmente adotou a fórmula aprovada pelo conselho. Desta vez, a diferença é que a mudança imposta pela CPLGBT, não foi aprovada pelo Conselho.

Para piorar, o mandato do atual conselho expirou, sem que um novo conselho fosse empossado ou mesmo eleito (o decreto sequer foi assinado pelo prefeito). Pela primeira vez desde sua implementação, São Paulo ficou sem reuniões do conselho, mesmo com uma demanda forte da necessidade de participação. Foi nos dito que aquela seria a última reunião, pois a seguinte já reuniria a comissão eleitoral, o que não ocorreu. Sob muita pressão, a CPLGBT aceitou realizar uma reunião em janeiro. A sociedade civil lotou o auditório do CRD (Centro de Referência da Diversidade) e ficou combinado que o conselho se manterá ativo até a posse do futuro conselho. O novo conselho terá em suas mãos a organização da 3ª Conferência Municipal LGBT, apesar de todos sabermos da falta de implementação das propostas das anteriores (em 2008 e 2011).

Temos, porém, que fazer referência positiva à criação de vagas para a população LGBT no Centro de Acolhida Zaki Narchi na zona norte de São Paulo e de algumas ações culturais na região central (principalmente no Largo do Arouche), embora consideremos insuficientes ante as necessidades da nossa população.

A sociedade civil do conselho conclama que o prefeito Fernando Haddad, somente assine o decreto de conselho municipal LGBT, se este tiver de volta a fórmula original de equidade entre os segmentos (LGBTTT), sem a inclusão de ONGS, conselhos de classe e coletivos.

A sociedade civil do conselho conclama que o novo Secretário de Direitos Humanos e Cidadania Eduardo Suplicy, ao qual a CPLGBT é vinculada, promova reais mudanças na Coordenadoria LGBT, tornando-a mais efetiva e aberta ao diálogo franco com a sociedade civil.

Janaina Lima – Presidente do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual de São Paulo”.

(Marlene Bergamo/Folhapress)

(Marlene Bergamo/Folhapress)

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Genet é necessário no Brasil de hoje

Por Vitor Angelo
31/01/15 16:30

Em 1969, o período mais pesado e fechado da ditadura militar no Brasil, Ruth Escobar, Victor Garcia e Wladimir Pereira Cardoso mudaram tudo no teatro brasileiro com a encenação de “O Balcão”, de Jean Genet. O escritor e dramaturgo acabou vindo ao país, devido à repercussão da peça. Dizem que foi seco: “pas mal” ( algo como ok), quando perguntaram o que achou do que tinha acabado de assistir. E a história virou lenda

Jean Genet ficou um mês no país, era arredio publicamente, mas no íntimo era muito afetuoso. Ficou na casa de Ruth Escobar e se divertia com os filhos da diretora e atriz. Ele esteve presente quando muitos estavam ausentes – exilados, na clandestinidade ou presos. Vivíamos a nossa marginalidade.

E de marginalidade, Genet entendia. Era homossexual, mas diferente dos gays de hoje que lutam pela normatividade, ele fazia questão de estar do lado oposto do que era considerado “normal”, trazia com sua sexualidade, ou melhor com a não aceitação de sua sexualidade pela sociedade, todos os outros valores também não aceitos pro ela: era ladrão, desertor, preso. Era o Nosso Senhor dos Excluídos!

Agora do Brasil, em que a população como um todo é excluída da água, da luz, do dinheiro, com a chamada crise hídrica, energética ou dos esquemas violentíssimos de corrupção (Petrobrás que o diga), Genet parece mais que necessário e não por acaso ele está nos palcos paulistanos em duas peças bem interessantes.

Uma delas, “As Criadas”, no teatro da Aliança Francesa, é o retrato da situação escravagista no Brasil que não consegue nem se traduzir em luta de classes entre patroa e empregadas, ainda estamos tentando alcançar este patamar com algumas leis.

E a outra é “Genet, O Poeta Ladrão”, no teatro Nair Bello, com texto inteligente de Zen Salles e uma ótima atuação de Ricardo Gelli, narra a vida do escritor intercalado com sua literatura de forma muito orgânica. Aliás, a peça começa citando a montagem de Victor Garcia e Ruth Escobar.

Mesmo vivendo um período histórico muito distinto da ditadura militar, Genet nunca foi tão necessário neste país, pois ele dá dignidade aos excluídos e, neste caso, não são só os LGBTs, hoje, os marginalizados no Brasil somos todos nós.

Jean Genet

Jean Genet

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O que está por trás do discurso inclusivo de Barack Obama?

Por Vitor Angelo
22/01/15 07:00

Em seu discurso anual feito para o Legislativo, na noite de terça-feira, 20, no Congresso norte-americano, em Washington, o presidente Barack Obama chamou a atenção da comunidade LGBT porque, pela primeira vez, ele citou as palavras “bissexuais”, “lésbicas” e “trangêneros”. Ele também foi o segundo presidente, o primeiro foi Bill Clinton, a se referir aos gays dentro desta tradição importantíssima da democracia americana que é quando o Executivo se encontra com os parlamentares conhecido como State of the Union (“Estado de União”). Vale lembrar que, para muitos da imprensa, a palavra gay também abrangeria o termo lésbica, mas elas próprias cada vez mais renegam esta aglutinação.

Obama discursa no Congresso americano (Xinhua/Yin Bogu)

Obama discursa no Congresso americano (Xinhua/Yin Bogu)

Obama, em seu discurso, disse: “Os norte-americanos condenam a perseguição a mulheres, minorias religiosas, ou pessoas que são lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneras”. E foi aplaudido pelos congressistas.

O primeiro recado desta frase é interno e é dirigido à Suprema Corte que neste exato momento está discutindo a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo para todo o território americano. Nisto, Obama foi explícito e a citou também em seu discurso do State of the Union: “é a história da liberdade ao redor do nosso país”. O presidente defende abertamente o casamento igualitário.

O segundo recado é externo e está dentro e em oposição também de muitas de suas condenações. Ao defender a liberdade dos gays, Obama se coloca em confronto contra a Rússia, que tem leis anti-homossexuais. É uma indireta, já que o presidente norte-americano condenou em seu discurso a política externa russa, no caso específico, contra a Ucrânia, e deixa claro que acha o país de Putin é “isolado” e com a “economia em ruínas”.

E mesmo quando defende os LGBTs, as mulheres e as minorias religiosas, ele está falando contra os fundamentalistas religiosos, que no caso muçulmano (mas não só) são o estopim do terrorismo no mundo, outro ponto importante de seu discurso no Congresso americano. São em países que as mulheres, as minorias religiosas e sexual são desrespeitadas por crenças religiosas lidas de forma radical que a intolerância tende a crescer.

Enfim, Obama coloca os LGBTs (e não só ele, a União Européia também trilha no mesmo caminho) como valores ocidentais e civilizatórios (em uma grande chave que hoje todos gostam de chamar de diversidade e tolerância) em contraposição ao terrorismo, e ao que não é do Ocidente, isto é : a barbárie. É engraçado pensar que há menos de 50 anos, este mesmo Ocidente levava homossexuais para campos de concentração e prisão, ou, no melhor dos casos, a hospitais psiquiátricos.

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Com o arquivamento da lei contra a homofobia, o que fazer?

Por Vitor Angelo
18/01/15 17:39

O ano começa com uma má notícia para os LGBTs, o PLC122/06, o projeto de lei que criminaliza a homofobia, que na verdade surgiu em 2001 e passou por diversas modificações e ficou estacionada no Senado Federal por oito anos, está sendo arquivado e, muito pouco provável, terá força política para ser desarquivado (seja porque a bancada fundamentalista seja contra, seja porque ele foi tão modificado que os aliados do PLC não enxerguem mais sentido em tentar retomá-lo.

Enquanto isto, o cenário é o seguinte: o Grupo Gay da Bahia divulgou esta semana o Relatório Anual de Assassinatos de Homossexuais no Brasil de 2014. O grupo se baseia em notícias que saem em jornais entre outras fontes e foram documentados 326 mortes de gays, travestis e lésbicas no Brasil, incluindo 9 suicídios. Segundo eles, acontece “um assassinato a cada 27 horas. Um aumento de 4,1 % em relação ao ano anterior (313)”.

A presidente eleita Dilma Rousseff, tanto na campanha do segundo turno como depois de eleita, declarou que é a favor de uma lei que criminalize a homofobia (tomando atitude completamente oposta de seu silêncio e de seus vetos contra os LGBTs em seu primeiro mandato). Em compensação, a bancada fundamentalista, que compõe boa parte da base governista da presidente, voltou a se dizer radicalmente contra esta lei e teve apoio do Exército.

Depois do PLC122 falhar, o que fazer, perguntam os militantes? Alguns sugerem pressão no STF para que a lei saia pelo Judiciário, outros acreditam que seria também interessante pressionar os órgãos internacionais e outros apostam na aprovação da lei Maria do Rosário que vem ocupar o PLC122. Então, como diz o velho bordão da militância: o que fazer?

“A procrastinação do debate e as manobras para paralisar a tramitação do PLC122 não combinam com uma casa legislativa que supostamente deveria ser de parlamentares mais maduros e sensíveis a realidade nacional e menos sujeitos a pressões de forças teocráticos, como é o Senado Federal. O senador Vital do Rêgo (PMDB) por exemplo: Votou pelo apensamento do PLC 122 a Reforma do Código Penal e depois, como relator da reforma, retirou os trechos que tratavam da criminalização da homofobia e rejeitou também as emendas que tratavam da homotransfobia. É um grande jogo de cena e de cumplicidade com a violência. Enquanto isso, LGBTs são discriminados o tempo todo e vítimas de crimes de ódio. Minha esperança agora está depositada no STF mas é preciso abrir uma nova frente: na Comissão Interamericana de Direitos Humanos”, diz para o Blogay, o militante Todd Tomorrow, 33.

Marcelo Gerald Colafemina, 34, psicólogo e administrador do site do PLC122,reflete: “O arquivamento é triste porque denuncia um Congresso sem empatia em relação às mortes de homossexuais e travestis, o que me chateia de verdade não é este fato em si, mas o de vários congressistas que se posicionaram como aliados terem colaborado pra que isto acontecesse. Vários governistas e senadores da oposição votaram pelo apensamento ao Código Penal, e esta foi somente mais uma manobra para ganhar tempo e levar ao arquivamento definitivo. Não acredito em ingenuidade neste caso, pois todos sabiam, ou deveriam saber, que projeto que não é votado em duas legislaturas é arquivado definitivamente. Eu preferia ter visto o PLC122 votado, mesmo que perdesse. Seria bom sabermos quem apoiava e quem era contra de fato, mas acho que justamente por isto nunca foi colocado em votação. O Executivo teve sua parcela de culpa neste processo, pois nenhum presidente se envolveu apoiando verdadeiramente a equiparação da homofobia e da transfobia ao racismo, o apoio não só teria sido benvindo como traria um peso enorme e positivo a esta causa. Depois que as notícias sobre o arquivamento saíram, eu vi muitos ativistas deprimidos e não vejo motivos pra sermos alarmistas, o PLC122 termina a sua história em 2015, mas a luta pela equiparação da LGBTfobia ao racismo continua e é isto que importa, eu considero o projeto de Maria do Rosário bem pertinente, mas percebo que é meio desconhecido dentro da militância e espero que isto mude. A luta continua”.

O que se percebe é que os LGBTs estão buscando outras alternativas como diz Marcelo Hailer, 32, jornalista: “Como bem colocou a senadora Ana Ria Esgario (PT-ES), o PLC 122 ficou estigmatizado e a campanha dos setores fundamentalistas, sobre inverdades do texto, deu certo. Nós já temos uma lei, que foi apresentada pela deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) no fim da legislatura passada, que se encerrou em 2014. Trata-se do projeto de lei 7582/2014, que segue basicamente a estrutura do texto anterior e que visa tornar crime atos de ódio movidos por orientação sexual e identidade de gênero”. E conclui: “O caminho é um só: muita pressão popular em cima dos parlamentares e da presidenta Dilma Rousseff, que se comprometeu publicamente em empenhar a sua base para que a homofobia se torne crime. Se não houver pressão, os parlamentares se sentirão a vontade para se eximir desta questão”.

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Morre a jornalista e agitadora cultural Suzy Capó

Por Vitor Angelo
11/01/15 17:30

A agitadora cultural, atriz, produtora, curadora, militante, jornalista Suzy Capó morreu no sábado, 10, em São Paulo, aos 52 anos. A causa da morte não foi divulgada. Ela será enterrada em Brasília, na terça-feira, 13, no Cemitério Campo da Boa Esperança.

Suzy é uma destas peças fundamentais do movimento LGBT sem nunca pedir holofotes. Ela foi cofundadora do MixBrasil, o Festival da Diversidade Sexual, criou o termo GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), fundamental nos anos 90, na época em que entendeu que era muito importante agregar homos e héteros (os simpatizantes) em uma mesma conquista: a liberdade (seja ela sexual ou individual, o que no fundo é a mesma coisa).

Agregar é uma coisa que Suzy sabia muito bem fazer, com facilidade unia diretores, produtores, fazia amigos de seus amigos ficarem amigos, criava o ambiente para que coisas acontecessem e assim foi com o Mix, e com o primeiro selo de distribuição de filmes LGBT do Brasil, o Festival Filmes, ou o primeiro festival que debatia a pornografia, o PopPorn.

Também tinha entendimento que a imagem era importantíssima para as questões ideológicas, políticas e sexuais, por isto, sempre esteve ligadíssima ao terreno do audiovisual e da militância, mesclando os dois, mas sem sectarismo e verdades prontas. Suzy foi sempre dos questionamentos, mais do que das certezas cheias de rigidez, uma grande lição que a militância que a acompanhou aprendeu.

Outra lição, ela sempre fez questão de que a arte não se separasse da política, ou que esta se sobrepusesse a outra. A arte e o bom humor! Por um militância mais artística e bem humorada, esta é uma das lições valiosas que Suzy sempre fez questão de ter em seus princípios. Assim como o hedonismo, nada de LGBTs caretas, comportadinhos para serem melhor aceitos pela sociedade dita “normal”. Pelo desbunde, pela alegria, pela vida plena, era o que desejava Suzy.

Ela era uma gata de botas (e tinha umas lindas e era muito elegante). Em Brasília, cidade que cresceu (apesar de ser do mundo) agitou a cena como atriz, se formou em jornalismo, depois deu um pulo de léguas para Nova York para estudar Teoria de Cinema e Performance. Voltou ao Brasil, fez o Mix, o selo Festival Filmes, o PopPorn, editou o site gay Supersite, foi uma das incentivadores da “Dicionária Aurélia” e foi sereia, ou melhor, foi a Lady Una Troubridge (que teve um romance de 32 anos com a escritora Radclyffe Hall), na peça de Vange Leonel, “As Sereias da Rive Gauche”, foi jornalista, foi o que desejou.

A garra, a vontade, o ímpeto, o questionamento que eram tão inerentes de Suzy assim como a risada, a ironia, o deboche, o amor pela arte, pelo hedonismo, pelo prazer e pela liberdade vão fazer muita falta em um mundo que está a cada dia mais radicalizando-se. E principalmente, a sua vontade e seu projeto de liberdade, que era algo central em seu pensamento. Suzy Capó soube como poucos unir militância, poesia e alma libertária. R.I.P.

Suzy Capó  (1963-2015)

Suzy Capó (1963-2015)

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Grupo gay lança dossiê e acredita que enquete no site da Câmara está sendo manipulada

Por Vitor Angelo
10/12/14 02:00

(atualizada no dia 11/12/2014 às 19h33)

O grupo LGBT Brasil liderado pelo médico Éverton de Lima Oliveira, 40, pelo bibliotecário Daniel Rodrigues, 34, pelo investidor Miguel Costa, 39, e pelo ativista Benjamin Bee. 69, lançam dossiê, nesta quarta-feira, 10, pois acreditam que a enquete sobre a definição de família está sendo manipulada.

“Como já é de conhecimento de muitos, o site da Câmara do Deputados está promovendo uma enquete em que se pergunta se o internauta concorda ou não com a definição de família como a união de homem e de uma mulher. De saída, a enquete, que faz referência ao Estatuto da Família, patrocinado pela bancada fundamentalista, já é em si um erro por promover um projeto de lei inconstitucional e por fazer uma pergunta que induz muitas pessoas a votarem pelo ‘sim’ mesmo sem concordar com o projeto do Estatuto. Preocupado com o desenrolar da enquete, o grupo LGBT Brasil montou uma comissão para acompanhar as votações na enquete e chegou a conclusões estarrecedoras: A enquete estaria sendo manipulada e adulterada para dar uma falsa legitimidade ao projeto conservador de estatuto da família em tramitação na Câmara”, diz o documento do grupo enviado ao Blogay.

O LGBT Brasil monitorou a enquete desde fevereiro deste ano e descobriu dados suspeitos como oscilações e saltos nas votação. “Houve, portanto, três saltos na votação do ‘não’ e pelo menos um salto na votação do ‘sim’ sem razões plausíveis que os justificassem, chegando a um patamar de supostas votações que nem mesmo as mais populares petições da internet chegaram, apresentando um nível de adesão comparável às maiores petições de interesse mundial promovidas por sites especializados como o Avaaz”. afirmam.

Eles sugerem três motivos para a manipulação:

“1. Mesmo com repetição de votos, 2,2 milhões de votos dados à opção ‘não’ seriam suficientes para alavancar as assinaturas da iniciativa popular pelo Estatuto da Diversidade patrocinada por Maria Berenice Dias que, em petição pública, não chega a 25 mil assinaturas.

2. Após o último salto de votações, que em 20 dias deu à enquete um montante de cerca de 1,8 milhões de votos (em um total de 4,4 milhões de votos distribuídos por 10 (!) meses), aproximou as duas opções para empate técnico, chegando a opção pelo ‘não’ ultrapassar com larga vantagem a opção pelo ‘sim’. Nestes últimos dias, a opção ‘sim’ aproxima-se da outra com montante de votos insignificantes, conforme se pode observar nos gráficos e tabela (veja aqui), comprovando o desinteresse pela votação na opção ‘não’. A sucessiva alternância de velocidade no avanço das opções sugerem controle sobre a votação, mesmo tendo as mais populares lideranças LGBTs insistido na falta de legitimidade da enquete. Só os votantes da opção ‘sim’ têm interesse em exibir tão grande votação.

3. A análise dos gráficos e tabela de dados da monitoração diária, comparados à divulgação que a enquete obteve, mesmo com a divulgação da grande mídia como se pode extrair do Google, não explica uma votação tão exagerada, antes, contradiz a própria votação”.

O grupo entrou com representação no Ministério Público e a denúncia foi encaminhadas à ouvidoria da Câmara. “Em resposta à solicitação da Procuradoria, a ouvidoria da Câmara encaminhou, como parte da defesa da coordenadoria de Participação Popular da Secretaria de Comunicação da Câmara, o resumo de um dia em que 40 IPs foram responsáveis por 40.000 votos. O que era para ser uma defesa, mostrou apenas o quanto a enquete é falha, permitindo que um mesmo computador possa votar milhares de vezes; ou seja, uma enquete que tem 4 milhões de votos, pode ter apenas 40.000 votos reais ou menos!”

O grupo pede maior transparência e cuidado com as enquetes futuras feitas pelo site da Câmara.

“Só não posso deixar de observar que o autor, o relator e a maioria da comissão pretendem com esse PL inconstitucional desacreditar um dos Três Poderes da República, o Judiciário representado pelo STF, negando decisão unânime do STF em relação ao conceito de família. O que pretende a bancada evangélica tentando que a nação rejeite decisões supremas? Querem acabar com o STF?” questiona Benjamin ao blog da Folha.

OUTRO LADO

O Blogay entrou em contato com o site da Câmara e recebeu a seguinte resposta:

” Câmara dos Deputados, por meio da Coordenação de Participação Popular da Secretaria de Comunicação Social, nega a ocorrência de manipulação nos resultados da enquete que trata do Estatuto da Família (Projeto de Lei 6583/2013) e de qualquer outra enquete veiculada em seu portal de internet. Para evitar fraudes e manipulações, a Câmara sempre adotou mecanismos que impedem o uso de ‘robôs’ e a duplicação de votos pelo mesmo browser (navegador). Entre os cuidados observados, está a utilização do sistema ‘captcha’, que obriga a digitação de caracteres para a autenticação do voto, e o constante monitoramento online das votações. Segundo atesta o Centro de Informática da Câmara, não foram registradas tentativas de uso de ferramenta automatizada capaz de provocar distorções no resultado das votações.

A Câmara dos Deputados esclarece, ainda, que um IP não representa obrigatoriamente um computador, podendo, ao contrário, agrupar um conjunto de assinantes de determinado serviço prestado por operadoras de telefonia ou empresas de telecomunicações, que costumam centralizar milhares de usuários sob uma mesma identificação. No dia 21 de maio, em resposta a denúncia protocolada pela Rede LGBT na Procuradoria de Defesa do Cidadão, a Câmara apresentou planilha com os votos na enquete sobre o Estatuto da Família, mostrando que, nos dados provenientes dos dois IPs com maior volume de votações, a opção pelo ‘não’ (a mesma do reclamante) obteve ampla maioria.

Outro equívoco na denúncia, segundo esclarece a Coordenação de Participação Popular, é que os picos nas votações foram justamente o oposto do apresentado pela Rede LGBT. Ocorreram três saltos na votação pelo ‘sim’ e um pela votação do ‘não’, todos devidamente explicados no processo mas ignorados pelo denunciante na sua tentativa de chamar a atenção para o caso e desqualificar a votação dos cidadãos.

O primeiro pico ocorreu em 31 de março, gerado pelo efeito viral de postagens incluídas de hora em hora pelo perfil ‘Silas Malafaia’ no Twitter, que, na época, já apresentava mais de 700 mil seguidores. A ampla campanha, que repercutiu em dezenas de sites mantidos por instituições evangélicas, chegou a ser divulgada por jornalistas, como a coluna Poder Online do portal IG, que publicou, no dia 3 de abril, o texto ‘Malafaia convoca seguidores a votarem em enquete sobre Estatuto da Família’.

O segundo pico pelo ‘sim’ ocorreu na segunda semana de maio, após a enquete ter sido rápida e amplamente divulgada pelos cidadãos por meio do aplicativo de mensagens WhatsApp. Cópia dessas mensagens que se disseminaram por todo o Brasil também foi apresentada no processo.

O terceiro pico pelo ‘sim’ ocorreu em julho, quando a equipe de monitoramento da Câmara registrou disputa polarizada dos dois grupos, com mobilização pelas redes sociais e também pelo aplicativo WhatsApp. Desde então, essa movimentação mantém a matéria ‘Câmara promove enquete sobre conceito de família’, publicada em fevereiro no portal da Câmara, como a mais lida entre todas as notícias. Apenas no mês de novembro, a reportagem obteve mais de 150 mil acessos. O efeito viral alcançado pelo tema nas redes sociais fez com que o Facebook passasse a recomendar a seus usuários a página da enquete, aumentando ainda mais a sua repercussão.

O pico pelo ‘não’ foi identificado no período próximo ao dia 7 de setembro, quando ocorreu grande mobilização de grupos LGBT pelas mídias sociais, incluindo a criação de página específica no Facebook. Somente no dia 7, quando a manifestação conhecida como Parada Gay destacou a temática ‘Família’, foram registrados 30.895 votos ‘não’ pelo IP da empresa Amazon, que centraliza milhares de assinantes.

Estatísticas do Google Analytics demonstram que o serviço de enquetes é hoje o mais visitado do portal da Câmara na internet, tendo obtido, somente no mês de novembro, mais de 2 milhões de visitas. Esse fluxo é gerado, em grande parte, pela divulgação dos temas pela mídia externa. Exemplo disso são as matérias de página inteira dos jornais O Globo e Correio Braziliense, nos dias 5 e 11 de novembro, e o programa ‘Encontro com Fátima Bernardes’, da TV Globo, durante o qual o assunto foi amplamente discutido pelos convidados da apresentadora. No último mês, a referida votação também foi divulgada por vários perfis de reconhecimento nacional e amplo engajamento nas redes sociais, como ‘Dilma Bolada’ e ‘Alexandre Nero’ (ator protagonista de novela da TV Globo), gerando efeito viral.

O objetivo das enquetes disponibilizadas pelo portal da Câmara é despertar, nos cidadãos, o interesse pelas atividades do Poder Legislativo, dando-lhes oportunidade de se manifestar contra ou a favor dos projetos e participar, portanto, do processo de elaboração das leis. Cada enquete vem acompanhada de matéria jornalística que explica detalhadamente a proposta em discussão, fornecendo insumos para que o cidadão possa formar sua própria opinião a respeito do assunto.

As enquetes promovidas pela Câmara revelam o interesse e a posição da sociedade sobre os diversos temas em debate, mas seu resultado não determina, obrigatoriamente, o voto dos deputados. O elevado número de pessoas que se manifestaram na enquete sobre o conceito de família mostra que o tema interessa tanto aos cidadãos quanto à grande imprensa, revelando que a iniciativa atingiu o objetivo de ampliar o debate antes que o projeto seja votado pela Câmara”.

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Você já sofreu alguma violência por ser hétero?

Por Vitor Angelo
21/11/14 20:00

O que mais me espantou depois da divulgação dos dados do Disque 100, da SDHPR (Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República), levantados pelo jornal “O Estado de São Paulo”, nesta sexta-feira, 21, que indica que a cada hora, um LGBT sofre um ato de violência no Brasil, foram os comentários insensíveis, desumanos e, convenhamos, sem lógica.

“Um por hora é muito inferior do que entre crianças e, entre heterossexuais, o número é bem superior”. Ou “quem mata os gays são os próprios gays”. Ou ainda: “Cada um tem o direito de ser o que quiser, mas ter privilégios em detrimentos de outros muitos não está certo”.

A diferença é que o fato de uma pessoa ser hétero nunca é o motivo essencial da violência contra ela cometida. Você nunca escuta: “Vamos quebrar a cara daquele hétero, a heterossexualidade dele me enoja”. Já em relação aos homossexuais…  O princípio da violência contra os gays parte do fato deles serem o que são. E, dentro desta ideia, podemos colocar a violência contra os negros e as mulheres no mesmo patamar.

A tese que os gays que matam os próprios gays pode até ter um pouquinho de lógica (tendo muita complacência), já que muitos homofóbicos são homossexuais mal resolvidos, mas nem todo homofóbico é gay. Entretanto, essa tese é um deslocamento de outra, a dos racistas: que dizem que os negros que escravizaram os próprios negros. É uma análise superficial e, pra não dizer, mesquinha. Mesmo se fossem só gays que matassem outros homossexuais, a causa de fundo ainda seria o machismo e o preconceito contra os gays. Uma tática do opressor é sempre culpar a vítima e, neste caso, culpar os gays pela própria violência sofrida. De qualquer forma, isto não invalida o problema de LGBTs sofrendo violência a cada uma hora no país.

Por fim, a questão ilógica dos privilégios (que os gays têm e os héteros não, segundo certos comentaristas), e encerro com uma pergunta, que privilégio existe em ser humilhado, sofrer preconceito ou aparecer morto só porque você tem trejeitos, é afeminado ou beijou uma pessoa do mesmo sexo por amor ou desejo? Não vejo o mesmo acontecendo para quem coça o saco, se esfrega com sua namorada ou fala grosso.

Enfim, o que mais me choca é que a violência, esta sim que deve ser combatida (seja ela pra quem se endereçar), é justificada e não condenada como deveria naturalmente, em uma civilização, ser. Tristes trópicos!

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Uma lâmpada se acendeu no movimento gay e dos direitos humanos

Por Vitor Angelo
20/11/14 16:30

A lâmpada, no nosso imaginário, é um símbolo ligado à racionalidade, inteligência e civilização. Porém, no dia 14 de novembro de 2010, quatro adolescentes e o jovem Jonathan Lauton Domingues, na época com 19 anos, obscureceram este sentido, usando duas lâmpadas fluorescentes para atacar pessoas que eles consideravam homossexuais, em plena avenida Paulista, em São Paulo, considerada um local da diversidade e da tolerância no país. A barbárie explodiu em cacos de violência pela calçada. O segurança, que interviu em um dos ataques, escutou de um dos agressores: “Viado tem que morrer”. Passado quatro anos, assim como os gays americanos subverteram o conceito “queer” da conotação negativa para algo afirmativo, militantes LGBTs, feministas e o movimento negro mudaram o sentido agressivo que as palavras relacionadas com lâmpada estavam tendo (o que teve de homofóbico escrevendo aqui no blog que gay devia mesmo levar uma lampadada na cara…).

"Revolta da Lâmpada", ato pela liberação de todos os corpos (Vitor Angelo)

“A Revolta da Lâmpada”, ato pela liberação de todos os corpos (Vitor Angelo)

Com o nome  de “A Revolta da Lâmpada”, um grupo de 150 pessoas, segundo a Polícia Militar, 600 participantes, para os organizadores, tomou as ruas de São Paulo, no final de tarde ensolarado de domingo,16. Logo, no início do ato, chegou a notícia que mais um homossexual tinha sido assassinado por suposto crime de homofobia (as causas ainda estão sendo investigadas), naquela madrugada, no Parque do Ibirapuera. Marcos Vinicius Macedo Souza, de 19 anos, foi morto a facadas.

Apesar da notícia “faca na bota”, o núcleo duro da manifestação pretendia  mesclar afirmatividades e novidades. A primeira estava no lema: “Fervo também é luta”. Nele, iria ocorrer uma resposta àqueles que condenam o hedonismo ou a carnavalização como forma política, ou a enxergam como algo menor. Entender a festa como ato político é fundamental para os rebeldes da lâmpada, mas mais que isso, fazer política com fervo e vice-versa. Entre os discursos (um deles, emocionante e emocionado de Raphael Martins, 20, que foi agredido junto com o namorado Danilo Putinato, 21, por um grupo de 15 homens no metrô de São Paulo no último dia 9 de novembro) e os gritos de guerra tinha muita música (e música boa, que fazia tempo que não se escutava em manifestações gays). E mais que isso, aconteceu um “catwalk protesto” pra lá de babadeiro, em frente ao restaurante Sukiya, que teve um recente caso de homofobia dentro de seu estabelecimento na rua Augusta. Todo mundo dando pinta contra a homofobia com direito a beijaços também.

Outra novidade foi a ampliação e a união dos movimentos sociais. A entrada como presidente da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias, em 2013, do pastor Marco Feliciano, considerado homofóbico e racista pelos movimentos LGBT e negro, fez que estas duas importantes militâncias unissem forças, mas faltava as feministas. Na “Revolta da Lâmpada”, elas participaram com maior afinco e voz, inclusive nas pautas de reivindicações.

A manifestação também surgiu, além de lembrar das agressões do fatídico dia 14 de novembro de 2010, para pressionar o governo hoje com pautas progressistas. Elas são reivindicações das minorias faz muito tempo como, entre elas, a criação de uma campanha nacional contra o assédio sexual e intimidação da mulher, a legalização do aborto (até porque as verdadeiramente afetadas são as mulheres pobres e uma fração das negras que não têm condições econômicas para pagar uma clínica particular de aborto), a legalização do consumo recreativo e medicinal da maconha (já que, na guerra das drogas, os que acabam presos, em sua maioria, são os jovens pobres e negros da periferia) e se posicionar contra ações políticas que criminalizem os movimentos sociais.

Claro que, o casamento igualitário, a criminalização da homofobia e o pedido de aprovação da Lei Nacional de Identidade de Gênero, também estão ali, mas agora de forma mais amplificadas, como que irmanadas a outras questões de outros movimentos. “A Revolta da Lâmpada” é o momento que o autocentrismo dos movimentos sociais começa a perder voz, deixa-se de olhar ou priorizar seu próprio umbigo para abrir-se à generosidade, ao outro, neste momento não como inimigo (como assistimos nas dramáticas polarizações imbecilizantes de ambos os lados no segundo turno destas eleições presidenciais em todo o Brasil). Agora o outro é companheiro, amigo, irmão, mesmo que diferente.

Sim, polarizações ainda existem, estamos no lado oposto do homofóbico, do racista, do machista, mas com muito cuidado porque também podemos escorregar, sem querer, em discursos da cultura homofóbica, racista ou machista. Não estamos impunes, nem ilesos. A velha presunção militante de pairar com um ar de certa superioridade sobre estes valores é engodo e atraso (resultado de toda e qualquer polarização que não deixa espaço para dúvidas ou áreas cinzas). Existe um paradoxo dentro de uma parte da militância das minorias, como pedir tolerância sendo intolerante contra os intolerantes? Uma possível resposta foi dada pelos rebeldes: não colocando os intolerantes como foco principal ou importante da luta, diminuindo a questão “nós contra eles”. Enfim, a polarização se coloca, mas, neste caso, quando o outro não é inimigo, não se impõe nem tem importância significativa.

Feminista "toda viada" na "Revolta da Lâmpada". A generosidade do outro (Vitor Angelo)

Feminista “toda viada” na “Revolta da Lâmpada”. A generosidade do outro (Vitor Angelo)

Ao chegar na questão do outro desta forma, não como repulsa ou o diferente inconciliável exatamente por ser diferente, também passamos a nos enxergar melhor com todas as nossas imperfeições, pois não estamos mais no campo das polarizações e sim no da compreensão. Ao nos enxergarmos, o corpo se impõe como “primeiro eu”, o primeiro sinal e signo do eu. E é nele que está a matriz da liberdade individual. Se compreendemos o corpo do outro, podemos nos compreender. Não à toa, o subtítulo da manifestação diz: “ato pela liberação de todos os corpos”.

O corpo livre reflete a liberdade individual. Quando os manifestantes se deitaram no asfalto por Letícia Sabatella, acusada, recentemente, por “haters” de “dar vexame”, ao beber um pouco a mais e deitar na calçada em frente a um bar, os rebeldes estavam dando um recado que não queriam vigilância, aquela que condena o outro (por beber demais, por não seguir as regras, por não ter o corpo adequado, etc). Eles deitavam e estavam firmes na ideia que o corpo deve ser livre e respeitado seja pelo outro, seja por eles mesmos, sem vigilâncias ou polarizações. Uma nova luz se acendeu naquele dia 16 de novembro.

Apenas "Revolta da Lâmpada"(Vitor Angelo)

Apenas “Revolta da Lâmpada”(Vitor Angelo)

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‘Gazelle  – The Love Issue’ exibe o quão profunda é a superficialidade

Por Vitor Angelo
14/11/14 17:00

Com première mundial marcada para esta sexta-feira, 14, no CineSesc, às 19h, dentro da programação do 22º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, em São Paulo, “Gazelle –  The Love Issue” leva a máxima de um dos maiores artistas de todos os tempos, Andy Warhol,  ao pé (ou seria salto 15?) da letra: desvendar a profundidade da contemporaneidade através do que é considerado menor, leviano, popular, superficial, isto é, mergulhar na essência da cultura pop. E, para isso, a questão da imagem é essencial e, no documentário de 93 minutos, dirigido por Cesar Terranova, 33, a persona de Gazelle é o corpo-imagem do filme que desvenda a alma de Paulo. O filme será reapresentado no domingo, 16, no Espaço Itaú, às 22h.

Mas quem é Gazelle? Paulo, 45, o mentor e criador, descreveu a criatura ao Blogay: “Gazelle, na minha vida, representa uma heroína pessoal, cujos poderes invocam emoções e reações nas pessoas partindo do meu ponto de vista sobre a beleza e visões do mundo. Paulo e Gazelle compartilham a mesma jornada, se complementam. Eu me sinto Paulo em todos os momentos da vida, desde muito pequeno, eu entendi quem eu era como pessoa e qual o meu papel na sociedade. Gazelle apenas leva certos sentimentos do Paulo para o plano ilimitado da fantasia com a ajuda de ferramentas como a moda e o bom humor. Gazelle existe, para além da montação, na cabeça de algumas pessoas que nem me chamam mais de Paulo. Porém, para mim, Gazelle só existe com a minha permissão.”

Gazelle é uma figura conhecida da cena noturna de Nova York, Londres e São Paulo. Ele (Paulo)/ela (Gazelle) tinha um fotolog (nos idos tempos que essa rede social era “hype”) e postava fotos com seus looks pra lá de absurdo. Além disso, tinha também uma revista, a “Gazelland”, que seu último número, a “Love Issue”, ele acabou não imprimindo, até o começo das filmagens do documentário.  O verbo ter, conjugado no pretérito imperfeito, é fundamental para a primeira parte do filme. Paulo Gazelle tinha um namorado que morreu. Tinha um tesão por uma revista que acabou antes da última publicação. Tinha uma casa de família em Teresina, Piauí, sua terra natal, que não existe mais. Tinha saúde.

(Divulgação/Mark Anthony)

(Divulgação/Mark Anthony)

Aliás, a cena em que Paulo visita o médico, logo no começo do filme, e descobre que, mesmo sendo HIV positivo e até então com cargas virais boas, ele precisará tomar medicamentos, pois sua saúde debilitou-se, é impactante. Primeiro porque rompe com a questão de uma primeira glamourização da personagem (não existe glamour na doença, apesar de todo “trendismo” que gays americanos e europeus tentaram fazer no caso da Aids) como também mostra o fio da navalha que o documentário andará para captar a essência de Paulo Gazelle. Como não invadir de forma brutal a privacidade do outro é um ponto delicado no filme e Cesar explica ao Blogay a técnica que ele usou para que o registro não ficasse extremamente invasivo: “Meu desejo maior era traçar um retrato verdadeiro e pessoal do Paulo e da Gazelle, que não perpetuasse equívocos ou preconceitos em relação a temas como: noite, vida gay e também o HIV, mostrando que tudo isso geralmente é apenas uma pequena parte do trabalho árduo que é ser humano e lutar contra a corrente que o destino reserva para cada um nós. O curso de Documentary  Filmmaking da New York Film Academy [que Cesar frequentou] é muito bom. Muitas aulas são voltadas ao processo de registro da vida pessoal alheia, levantando questões importantes e ensinando o processo ‘fly on the wall’ [em português, mosca na parede, e é um estilo de documentário que a equipe tenta ficar o mais invisível ao registrar os sujeitos do filme] interferindo o mínimo possível na narrativa da personagem e amplificando na edição a história principal.”

A persona Gazelle, que nunca repete um look, que está em inúmeros eventos sociais, que frequenta a noite com desenvoltura, se apresenta de forma categórica, mas a cada camada de roupa ou make, desvenda-se o eu profundo de Paulo, um ser apaixonado, sensível, frágil. O vestuário e sua troca constante desnuda um ser sólido e constante. Neste momento, o verbo ter muda sua forma verbal e vai para o presente do indicativo. Paulo tem um novo namorado. Tem a última edição de sua revista impressa. Tem saúde.

É muito interessante como ele tem domínio da imagem, ele próprio adora fotografar e vive rodeado com artistas, ilustradores, fotógrafos. Ele tem a imagem a seu favor. Ele tem Gazelle a seu favor. Uma morte do cisne pronta para ser ressuscitada. E neste momento o verbo ter sai de cena e surge o verbo ser com a mesma intensidade de um novo look sendo criado.

(Divulgação/Cesar Terranova)

(Divulgação/Cesar Terranova)

E para quem acredita que a tal montação é algo fútil, Paulo revela: “É uma linguagem muito pessoal, que me deixa em sintonia com a existência entre o belo e o grotesco… Onde a imperfeição torna-se perfeita”. Bem que Andy Warhol já tinha nos avisado que a tal superficialidade (ou aquilo que julgamos como superficial) é muito mais complexa do que visualizamos …

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'Nossos Ossos' e as carcaças da alma

Por Vitor Angelo
10/11/14 18:30

O primeiro romance de Marcelino Freire, “Nossos Ossos” (2013) é um dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2014, que acontece nesta segunda-feira, 10, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, a partir das 20h. O livro conta a estória do dramaturgo premiado Heleno que recebe a notícia de um michê que, ele, às vezes, pagava, foi brutalmente assassinado.  Sua via-crúcis é levar o corpo do “boy” até o interior do Nordeste e entregá-lo à família do rapaz.

Narrado com muita fluidez na primeira pessoa, a língua do eu e de toda a subjetividade deste eu particular, a maestria do romance está na arte do deslocamento. Seja o deslocamento que este eu, às vezes, dá em sua narrativa, ao incorporar discursos na terceira pessoa dentro de sua própria fala. Seja o deslocamento geográfico do Nordeste para São Paulo e de novo para o Nordeste. Seja o deslocamento da figura amorosa, ele vem para a capital paulista para encontrar seu grande amor, Carlos, que partiu antes dele para São Paulo e depois o despreza fazendo Heleno substituí-lo, nem que fosse apenas no campo das imagens, pela figura do michê que depois seria assassinado.

Enfim, a operação feita pelo deslocamento é a antítese da polarização onde existe o eu e o outro como inferno e oposto. Quando o eu se desloca para o outro, como no livro que é dividido em “Parte um” e “Parte outro”, existe o esforço de se conhecer a partir da relação de aproximação com o outro e não por oposição. E este exercício é levado na sua experiência mais radical, quando o eu e o outro se encontram na morte. Exatamente por isso, não é meu, não é seu, é nosso.

Curto e ágil, “Nossos Ossos” não deixa de ser denso por causa dos primeiros adjetivos por mim descritos neste parágrafo.  Através do corpo, da fisicalidade deste, chegamos às carcaças da alma. Assim como o enigma “rosebud” do Cidadão Kane, a chave do corpo (e também da alma) de Heleno está em algum lugar no passado, no sertão, quando criança representava um guerreiro sertanejo. Aliás, em alguns campos da ciência e da psicanálise acredita-se que é na infância que o eu e a individualidade são formados.

Talvez o que de mais belo parece nos sussurrar “Nossos Ossos” é que nosso eu é feito de outros. E, em tempos de polarização e radicalismo, onde o outro como alteridade, como diferente, é sempre inimigo, é uma valiosa e poética lição.

Capa do livro "Nossos Ossos", de Marcelino Freire ( Divulgação)

Capa do livro “Nossos Ossos”, de Marcelino Freire ( Divulgação)

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