Publicidade

Blogay

A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

Perfil Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo

Perfil completo

No Dia Nacional contra Homofobia, campanha quer calar homofóbicos com música

Por Vitor Angelo
25/03/15 17:00

Quando era jovem, escutei pela primeira vez na rádio uma tal de banda chamada The Smiths, aquilo foi um acontecimento pra mim. Que voz, que melodia eram aquelas? Tempos depois fui ver um vídeo de Morrissey cantando e dançando no antigo Carbono 14, em São Paulo (uma espécie de clube-bar-cinema muito famoso nos anos 80). Naquele momento, abria-se para mim as portas não só de uma nova sensibilidade musical, mas o seu comportamento (eu já sabia que o vocalista era gay) era também uma nova possibilidade de ser (não para mim, que estava a quilômetros da sagacidade, da fina ironia, e de uma certa assexualidade sexy dele). Era um homossexual diferente de mim e eu aprendi a respeitá-lo. Entretanto, gostar muito dos The Smiths não me tornou gay, eu já o era, assim como um grande amigo hétero amar, desde a pré-adolescência até hoje, Freddie Mercury, da banda Queen, não o deixou menos heterossexual. Isto só nos deixou mais tolerante. Foi pensando nesta função muitas vezes generosa com a música para a compreensão do outro que uma campanha foi lançada nesta quarta-feira, 25, no Dia Nacional do Orgulho Gay. “Parada Gay na Rádio” faz uma ação entre diversas rádios do Brasil para que durante 24 horas toquem músicas relacionadas ao universo LGBT.

Mariana Sposito, uma das divulgadoras da campanha, escreveu ao Blogay: “Essa é uma parceria entre diversas emissoras de rádio do Brasil que se comprometeram a dedicar parte de sua programação nesse dia para tocar apenas músicas de artistas LGBT. Nossa ideia é calar a homofobia com música!” E completou: “Já são mais de 20 emissoras de rádio comprometidas espalhar essa mensagem para todos os cantos do país”.

A campanha também está nas rede sociais: “Estamos encorajando as pessoas a participarem também nas redes sociais, não só através de nossa página (https://www.facebook.com/paradagaynaradio), mas também enviando vídeos compartilhando suas histórias, mensagens de apoio e se mobilizando sobretudo através e ao redor da música. Afinal, o que seria do mundo sem esses artistas?”, questiona Sposito que avisa que a hastag a ser usada é #CaleAHomofobia.

10923272_918730681492483_5443723823751038377_n

A iniciativa é da revista Billboard e que rádios como a Transamérica (100,1FM em SP), a Continental FM e Super Nova (no Sul) e as Cidade FM e 98 FM (em Minas Gerais) estão empenhadas na campanha que chamar atenção contra a homofobia que a cada 28 horas no Brasil faz uma vítima.

E você, que música de algum artista LGBT marcou sua vida?

0

Vizinho esfaqueia gay e polícia alega lesão corporal; veja vídeo

Por Vitor Angelo
20/03/15 17:30

O engenheiro Rodrigo Mariano Miguel, 33, chegava do supermercado e ia entrar no elevador de seu prédio, em São Bernardo do Campo, quando o seu vizinho Wanderson Pacheco de Oliveira o apunhalou com um facão pelas costas. Miguel, que é homossexual, lembra de claramente escutar o agressor esbravejar: “Isto é pra você aprender a não bater de frente com homem de verdade, seu viado”. Esta frase mais os constantes xingamentos de Oliveira para com ele, como: “Bichinha, baitola e viadinho”, conforme alegou ao Blogay o engenheiro, nesta sexta-feira, 20, o faz acreditar que a agressão tem caráter homofóbico.

Logo após a facada, o zelador os separou, a polícia chegou e prendeu Oliveira em flagrante assim como apreendeu a arma do crime. Mas horas depois, o analista de sistema foi liberado, do 3º Distrito de São Bernardo, apenas com a acusação de agressão corporal. “A polícia foi super negligente. Eles tinham a arma, podiam solicitar o vídeo , mas quiseram tratar apenas como uma briga de vizinhos e liberaram o cara. Foi tentativa de homicídio”, diz Miguel para o blog e pede para que todos vejam o vídeo abaixo.

Pelas imagens é possível ver que não houve briga nenhuma, Oliveira ataca Miguel por trás sem dar chances de defesa e percebe-se que o engenheiro fica atordoado. Ele trincou o osso da coluna e, por muito sorte,  não ficou paralítico, segundo os médicos que o trataram.

O engenheiro Rodrigo Miguel no hospital após ser apunhalado por seu vizinho  (Reprodução/Facebook)

O engenheiro Rodrigo Miguel no hospital após ser apunhalado por seu vizinho (Reprodução/Facebook)

A agressão aconteceu na terça da semana passada e ele só saiu do hospital na segunda-feira, 16, e como relatou ao Blogay: “tenho que ficar na cama e preciso de ajuda para fazer qualquer movimento, de me levantar a ir ao banheiro”.

O Outro Lado

O agressor Wanderson Pacheco de Oliveira (Reprodução/Facebook)

O agressor Wanderson Pacheco de Oliveira (Reprodução/Facebook)

O agressor, depois do ocorrido, deixou a cidade e está com familiares no Rio de Janeiro. “Eu conversava por telefone com minha mãe e ele batia na parede pedindo para eu abaixar o tom de voz”, declarou Oliveira ao site do “ABCD Maior” como razão por ter apunhalado o vizinho. Ele também alega que não sabia que Miguel era gay.

A ONG ABCD’S (Ação Brotar pela Cidadania e Diversidade Sexual) providenciou a advogada Cristiane Leandro de Novaes para acompanhar o caso e defender Miguel e reverter o boletim de ocorrência de lesão corporal para tentativa de homicídio e discriminação homofóbica.

0

Até quando? Filho de casal gay morre depois de ser espancado

Por Vitor Angelo
10/03/15 10:24

Até quando a gente vai chorar a violência dos adolescentes contra outros adolescentes, no caso um de 14 anos que foi brutalmente agredido e morreu na segunda, 9, porque sofria bullying por ser adotado por um casal de homossexuais?

Até quando vamos ler o depoimento da prima da vítima dizendo: “toda a escola viu, menos os professores”?

Até quando a escola vai continuar “não vendo” as agressões cometidas dentro das suas dependências ou por perto delas , como é o caso da Escola Estadual Doutor José Eduardo Vieira Raduan, em Ferraz de Vasconcelos?

Até quando a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo vai afirmar que a agressão não aconteceu  escola e que nada foi registrado, mesmo tendo um investigador de polícia ido até escola e confirmado a agressão? “Secretaria de Estado da Educação nega que o jovem tenha sido agredido em uma briga dentro da escola, e disse que as câmeras do colégio estão à disposição da polícia”. reporta a Folha, mas a prima do adolescente diz que a Secretaria estaria se omitindo.

Até quando o Estado será cúmplice da violência de caráter homofóbica e do bullying de adolescentes?

Até quando ter pais homossexuais será considerado menos família e motivo de agressão por pessoas mesquinhas, pois se não o fossem, ao invés de mugirem o que deve ser família, teriam tido o ato de generosidade de adotar uma criança abandonada como fez o casal?

Até quando vamos chorar a morte de um adolescente por intolerância?

Até quando assistiremos atos covardes como este e nos sentirmos imobilizados e impotentes?

Até quando o silêncio vai ser o melhor remédio (no caso da escola e da Secretaria), quando a vontade é de gritar?

Até quando os LGBTs, seus filhos e quem os apoia, ou mesmo quem quer um mundo mais amoroso irão viver momentos que se sentirão acuados?

Até quando a tristeza destas histórias nos abaterão?

Até quando tentaremos acreditar que dias melhores virão?

Até quando?

17

A sombrinha de Angélica, o xingamento contra Dilma, as vaias e as mulheres

Por Vitor Angelo
09/03/15 14:30

Propositalmente, este texto é escrito um dia depois do 8 de março, consagrado como Dia Internacional da Mulher, até porque, eu acredito, que o dia das mulheres merece ser todos os dias e os problemas de preconceito de gênero e misoginia devem estar em pauta diariamente. Eles partem da mesma raiz que aflige os LGBTs: o patriarcalismo, então nada mais justo que um blog como este reflita a seguir sobre dois fatos recentíssimos.

O primeiro é sobre a vaia da apresentadora Angélica na UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) na última quarta-feira, 4. Ela sai junto com sua equipe sob urros:

Entretanto, a vaia não foi o que mais chamou a atenção de muita gente, como a cineasta Tata Amaral, 54, que escreveu em seu Facebook: “Eis que aqui, vejo uma cena reveladora: alunos de uma faculdade do Rio de Janeiro protestam contra a presença da apresentadora Angélica no campus. A equipe da apresentadora sai calmamente e ganha a rua. Agora o trecho chocante: a apresentadora caminha, e uma jovem a acompanha protegendo-a com um guarda-sol. Parece uma gravura do Debret, do século 19, quando escravas protegiam suas “senhoras” pelas ruas! Alguém, por favor, avisa esta criatura que já abolimos a escravidão no Brasil? Ela já pode passar a carregar sua própria sombrinha. Hoje é o Dia da Mulher. Vamos combinar que nenhuma mulher deve escravizar a outra, a partir de agora?”

Esta é uma tática muito funcional de dominação de minorias, colocar mulheres contra as próprias mulheres (no caso, a postura de Angélica para com outra mulher, a que carrega sua sombrinha) , os LGBTs contra os próprios LGBTs ou negros contra negros. Este exercício era exaustivo nos campos de concentração nazistas em que a delação e a categorização de minorias (se você fosse judia comunista seria obviamente inferior a uma pessoa só judia) imperavam como manobras de sobrevivência.

Viva a vaia, porque aqui ela é reveladora. Mas tem uma outra vaia que camufla, que foi a que presidente Dilma Rousseff recebeu durante seu pronunciamento na noite de domingo, 8.

Ao vaiarem Dilma (parte do processo democrático), o xingamento correu solto, mas que tipo de ofensas foram feitas? O blogueiro do “Uol”, Leonardo Sakamoto escreveu: “Chamar de ‘vaca’’ não é fazer uma análise da honestidade e competência de alguém que ocupa um cargo público e sim uma forma machista de depreciar uma mulher simplesmente por ser mulher. De colocá-la no seu ‘devido lugar’, que é fora da política institucional.”

A palavra vaca tem hoje um sentido de rebaixamento, de inferiorização. Mas a chamada cultura queer (queer significava estranho, no sentido pejorativo, antes de se tornar algo afirmativo), assim como o Palmeiras que durante um tempo transformou um xingamento, o porco, em seu símbolo ou ainda a Marcha das Vadias que valoriza a palavra vadia, nos ensinam que o caminho não é a vitimização.

Para todas as palavras que inferiorizam as mulheres (e os LGBTs, negros, etc) uma ação transformadora. Transformar a ofensa “vaca” ou qualquer outra em algo positivo é uma ação política da maior importância. “Vaca com muito orgulho”, “Somos todos vaca”, sei lá… Construir afirmações é um caminho contra o discurso de inferiorização e o preconceito e é também uma forma de desconstruir o opressor.

E assim, da vaia se faz aplauso!

10

O Carnaval da cidadania e da diversidade de São Paulo

Por Vitor Angelo
27/02/15 10:00

Muita gente, paulistano ou mesmo de fora da cidade, espantou-se com o volume (nada morto) de blocos de rua que apareceram este ano antes, durante e depois do Carnaval em São Paulo. Mais alguns deles ainda se apresentam neste final de semana (ver programação aqui e preencha o campo com as datas de sábado e domingo – 28/02/2015 e 01/03/2015). Será que o túmulo do samba ressuscitou para a folia de Momo? O que aconteceu para que a cidade vibrasse no ritmo da maior festa do país?

(Reprodução/Instagram)

(Reprodução/Instagram)

A resposta é mais complexa e envolve a vida noturna, a cena underground da cidade, os LGBTs e a nova concepção de cidadania que São Paulo está moldando e poderá influenciar o país (sem bairrismos, mas é aqui que realmente o capitalismo age de forma mais avançada – para o bem e para o mal – e existe uma grande parcela de classe média que a cada dia exige mais seus direitos).

Nos anos 80, São Paulo era uma cidade “indoor”. Alguns diziam que a razão era pelo frio que hoje quase inexiste, mas também por um certo gosto pelo privado. As boates – na época, danceterias – viviam cheias e as pessoas abriam suas casas e apartamentos para festas. Era comum, em um final de semana, ter mais de duas festas na casa de algum conhecido (ou não) para ir. Claro que existiam espaços públicos de convivência (fora os parques). A rua 13 de Maio, na Bela Vista e a Marquês de Itú, no Centro, clássico point gay, impediam o tráfego de carros, principalmente na sexta e no sábado, mas eram exceções que confirmavam a regra em uma cidade das dimensões de São Paulo.

Nos 1990, a movimentação da 13 transferiu-se para a Vila Madalena e a Marquês viveu um período de decadência. Entretanto, as agitações continuavam a acontecer nos clubes e nos dilaus (salve Luma Assis! Este é o outro nome – bem mais legal – para as festas pós-clube que costumavam acabar na tarde do dia seguinte, os chamado chill outs).

Nos anos 2000, a rua Augusta volta novamente a ser o epicentro da noite. Mas ainda com muito mais gente dentro de seus carros (espaço privado) do que tomando as ruas. Surge neste período aquele que foi chamado de Triângulo dos Shortinhos (o apelido era porque se você entrasse naquela área, você não conseguia mais sair). Era formado em um dos vértices por dois botecões sujos com bilhar ao fundo (hoje fechados pela Prefeitura), em outra ponta estava o Ecleticu´s – musicado por Tatá Aeroplano e frequentado por travestis, gays, artistas, jornalistas, boêmios – e, fechando o ângulo, o Bar do Netão, que o Blogay acompanhou desde sua aparição.

A qualidade desse ambiente era que não se pagava para entrar em nenhum desses lugares (algo até então bem raro em São Paulo), tinha boa música – no Netão, pista de dança, e no Ecleticu’s improvisava-se um dancefloor – e as pessoas tomavam as calçadas. Outros lugares assim também surgiram na época ou um pouco antes, mas o Triângulo teve anos de vida, sedimentou a ideia de ocupar os espaços públicos, da calçada ser parte da festa. De lá, saíram coletivos como o Voodoo Hop, por exemplo, que depois se alojou por um período em um prédio ocupado, a Trackers.

Tudo é muito simbólico do que acontece hoje. O Netão, que terminou com uma gigantesca festa de rua no domingo de Carnaval (coincidência é bobagem), e o Ecleticu´s foram demolidos pela especulação imobiliária, a mesma que agora tenta construir duas torres no Parque Augusta. E, cada vez mais, coletivos fazem festas em espaços invadidos, principalmente pelos movimentos sem-teto.

Neste interim, a praça Roosevelt que foi revitalizada espiritualmente pelos grupos de teatro, ganha uma festa de rua em uma escadaria lateral chamada de Vaca Galactose. Um braço do evento, expulsa pela polícia porque fazia barulho e incomodava os vizinhos, transferiu-se para uma entrada do Minhocão e o lugar ficou conhecido como Buraco da Minhoca.

Buraco da Minhoca no Carnaval 2015 (Reprodução/Instagram)

Buraco da Minhoca no Carnaval 2015 (Reprodução/Instagram)

Esta vontade nova para São Paulo de ocupar os espaços públicos pode ser sentida nos debates para a construção de dois parques: o Augusta e o Minhocão. E, nos últimos anos, tornou-se algo orgânico: coletivos e jovens militantes cada vez mais reivindicam o espaço que é de todos. Assim, karaokês em praças, festas atrás da Biblioteca Municipal assim como no jardim em frente ao Teatro Municipal ganham força e impõem uma importância que, independente da linha ideológica que estiver a frente da prefeitura, não tem mais volta.

Parque Augusta ocupado recebe o bloco Tarado Ni Você (Reprodução/Instagram)

Parque Augusta ocupado recebe o bloco Tarado Ni Você (Reprodução/Instagram)

O prefeito Fernando Haddad (PT-SP) percebeu esta vontade pelos espaços públicos dos cidadãos de São Paulo – em parte (o caso Parque Augusta e o Autorama –área de encontro gay no estacionamento do Ibirapuera que foi fechado por ele – ainda se mostram como um calcanhar de Aquiles  gritante desta administração) . E, com o crescimento dos blocos e da noção de cidadania na cidade, a prefeitura inteligentemente decretou que eram proibidos abadás e áreas vips. Esta é uma diferença aparentemente gritante em relação a muitos outros Carnavais famosos no Brasil, acostumados à Casa Grande e Senzala como Gil declarou em outras palavras mais doces, mas com o mesmo significado.  A outra é que o reinado da cidadania foi coroado neste Carnaval (mesmo no caso do saudável debate entre os foliões e os moradores da Vila Madalena e o limite do respeito e do que é vandalismo), já que a questão de tomar os espaços públicos é essencial para o conceito de cidadão. Enfim, a cidadania nunca esteve tão repleta de alegria, confete e purpurina.

(Reprodução/Instagram)

(Reprodução/Instagram)

5

Militantes pressionam órgãos LGBT na esfera estadual e municipal

Por Vitor Angelo
12/02/15 12:00

Militância em movimento! O diálogo entre poder público e militância nunca é fácil, muito pelo poder de cooptação que o primeiro pode exercer sobre o segundo e também pelo quesito independência que militantes mais sérios tentam fazer prevalecer no embate. Neste momento, tanto na esfera estadual de São Paulo, comandada pelo PSDB, como na municipal, liderada pelo PT, existem pressões que mostram como esta relação é tensa, independente da coloração ideológica, porque, trata-se. no fundo, da relação de poder.

Entidades importantes ligadas aos movimentos gay e dos direitos humanos pedem a permanência da Heloísa Alves na coordenação estadual LGBT. O Blogay conversou com estes grupos que nos enviaram o seguinte documento:

“Ilustre Senhor Doutor Secretário de Justiça e da Defesa da Cidadania,

Vimos, por meio deste, cumprimenta-lo pela posse no cargo de Secretário de importante pasta de nosso estado. Temos certeza que Vossa Excelência conduzirá os rumos das políticas públicas voltadas para os cidadãos paulistas, norteadas com justiça, cidadania e igualdade.

Temos acompanhado o comprometimento da pasta no que se refere às questões voltadas à diversidade sexual por meio da Coordenação de Políticas Públicas para a Diversidade Sexual, e somos testemunhas de que os avanços foram muitos.

A criação do Comitê Intersecretarial de Defesa da Diversidade Sexual, composto pelas 11 Secretarias de Estado que tiveram demandas advindas da 2ª Conferência Estadual de Políticas Públicas e Direitos Humanos de LGBT de São Paulo, Gestão Pública, Esporte, Desenvolvimento Social, Turismo, Adm. Penitenciária, Cultura, Saúde, Educação, Segurança Pública, Emprego e Trabalho e Justiça, coordenado pela Coordenadoria citada, acenou para um novo caminho de perspectivas e de respeito a uma população tão discriminada em nosso país.

Outra importante articulação das Comissões da Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de São Paulo, juntamente com a Defensoria Pública, Conselho Estadual LGBT e a Coordenação Estadual de vossa pasta, junto ao Conselho Estadual da Educação, culminou na inclusão de nome social nos registros escolares das instituições públicas e privadas no Sistema de Ensino do Estado -– Deliberação CEE 125, avançando no respeito e à dignidade de travestis e transexuais junto à educação de nosso Estado.

Atuação relevante foi a assinatura do Termo de Convênio firmado entre a Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania e a Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo, com a realização de oficinas de capacitação de advogados nas subseções no sentido de que as Casas dos Advogados recebessem denúncias amparadas nos termos da Lei 10.948/01, que pune práticas discriminatórias em face da homotransobia.

Nesse sentido, Senhor Secretário, queremos desejar uma gestão profícua à Vossa Excelência, e ao mesmo tempo manifestar nosso apoio à manutenção da Dra. Heloisa Cidrin Gama Alves à frente da Coordenação de Políticas Públicas da Diversidade Sexual, reafirmando  nosso desejo que essa parceria se mantenha e se consolide ainda mais nos próximos anos, pois que o combate ao preconceito e a discriminação com a população LGBT de nosso Estado é nosso primeiro compromisso, juntamente com a garantia de maior orçamento e pessoal à Coordenação e à Comissão Processante Especial que julga os processos da Lei Estadual 10.948/01, para fins de melhor garantia dos princípios constitucionais da eficiência e da razoável duração do processo (administrativo). Nesse sentido, sugerimos que as multas aplicadas em razão de processos da referida lei sejam direcionadas ao orçamento colocado à disposição da Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual.

Ass: Comissão de Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da OAB-SP, Mães pela Igualdade do Estado de São Paulo, Pedra no Sapato, Comissão Nacional de Direito Homoafetivo do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM),Comissão Estadual de Direito Homoafetivo do IBDFAM/SP , PV Diversidade, Dynamite , ONG ABCDs, Família Strongers, Comissões de Diversidade Sexual das OABs de Bauru, Santos, Peruíbe, Arujá, Campinas e Jabaquar, Comissão de Diversidade Sexual e Direito Homoafetivo da OAB Nacional.”

No município, o Blogay acompanhou o imbróglio, no final do ano passado, sobre as eleições do Conselho Municipal e, mesmo o coordenador de Políticas LGBT municipal Alessandro Melchior tendo afirmado que nada mudou, não é bem assim que os integrantes do Conselho enxergam a situação. As eleições ainda não aconteceram, foi através de pressões que a coordenadoria afirmou que ocorreria em fevereiro. Uma carta com diversas críticas à política LGBT da cidade de São Paulo foi divulgada no Facebook:

“CARTA ABERTA DA SOCIEDADE CIVIL DO CONSELHO MUNICIPAL DE ATENÇÃO À DIVERSIDADE SEXUAL SOBRE O RETROCESSO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS LGBT NA CIDADE DE SÃO PAULO EM 2014

Prezado Prefeito Fernando Haddad

Prezado Secretário de Direitos Humanos e Cidadania Eduardo Suplicy

Prezado Secretário Adjunto Rogério Sotili

Nós, representantes da sociedade civil do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual, queremos através desta carta aberta encaminhar este relatório. Infelizmente informamos aos senhores que o ano de 2014 pode ser sem dúvida considerado o que mais retrocesso apresentou em termos de políticas públicas para a diversidade sexual na cidade de São Paulo, depois de anos se expandindo.

2014 foi o ano em que a sociedade civil do Conselho Municipal travou embates mensais nas reuniões ordinárias com a Coordenadoria de Políticas LGBT (CPLGBT), com Alessandro Melchior à frente. Inúmeros problemas como o atraso de vários meses das bolsas do POT (Programa Operação Trabalho) para travestis e transexuais, o fechamento e a não reabertura do Autorama (espaço de sociabilização LGBT no Parque do Ibirapuera), apesar de todo o esforço do Conselho na elaboração do Programa Autorama Legal, frustraram a sociedade civil. Houve também um grave problema com a Associação da Parada do Orgulho LGBT, informando que pela primeira vez, em 18 anos, foi prejudicada e preterida na organização das atividades do 18º Mês do Orgulho LGBT de São Paulo pela CPLGBT.

Tudo que foi comprometido para 2014, e tinha orçamento previsto, ficou para 2015: a mudança do CCH (Centro de Combate a Homofobia) para o Largo do Arouche, a unidade móvel, o projeto Transcidadania, a política de saúde integral LGBT, o CCH na zona leste. A execução das metas ficou bem abaixo do estimado ou esperado. Em carta enviada em 19 de janeiro pela presidente do conselho, Janaina Lima, praticamente todos os assuntos dos quais foram solicitadas devolutiva pela CPLGBT, encontravam-se em atraso sob alegações de ser algo ‘inerente ao poder público’.

Porém, a cisão ocorreu quando a Coordenadoria impôs uma alteração de forma unilateral no decreto do Conselho, aprovada por uma comissão minoritária e nunca deliberada pelo próprio conselho com a alegação de ‘falta de quórum’. O decreto acaba com o que de mais importante existia no Conselho paulistano: a divisão equânime por segmentos e independência de entidades. O novo decreto reduz de 15 para 7 vagas os segmentos, priorizando 8 vagas para ONGS, conselhos de classe e coletivos. Isso faz com o que o conselho perca independência que vem empreendendo durante toda sua existência. A farsa foi amplificada em audiências públicas e consulta online, já que foram rechaçadas praticamente todas as propostas, mantendo intacta a fórmula imposta, mais conveniente ao governo.

Nesse tema, cabe destacar que o coordenador da CPLGBT, Alessandro Melchior, realizou um verdadeiro golpe contra a sociedade civil no Conselho Municipal LGBT ao invocar a necessidade de um suposto ‘quorum’ que nunca existiu na história do Conselho, claramente para conseguir impor a posição do Poder Público. Para que o quorum não fosse atingido, o poder público deixou de enviar seus representantes a reuniões do conselho. O jurista Paulo Iotti destacou que pela Constituição Federal ninguém é obrigado a fazer nada senão em virtude de lei ou, no caso, pelo menos de decreto, regimento ou norma infralegal que o imponha, mas o coordenador não aceitou dialogar, inclusive invocando o subterfúgio de que Vossa Excelência, o Prefeito, é quem tomaria a decisão definitiva. Como aliás sempre foi a regra, já que nas eleições anteriores, o prefeito simplesmente adotou a fórmula aprovada pelo conselho. Desta vez, a diferença é que a mudança imposta pela CPLGBT, não foi aprovada pelo Conselho.

Para piorar, o mandato do atual conselho expirou, sem que um novo conselho fosse empossado ou mesmo eleito (o decreto sequer foi assinado pelo prefeito). Pela primeira vez desde sua implementação, São Paulo ficou sem reuniões do conselho, mesmo com uma demanda forte da necessidade de participação. Foi nos dito que aquela seria a última reunião, pois a seguinte já reuniria a comissão eleitoral, o que não ocorreu. Sob muita pressão, a CPLGBT aceitou realizar uma reunião em janeiro. A sociedade civil lotou o auditório do CRD (Centro de Referência da Diversidade) e ficou combinado que o conselho se manterá ativo até a posse do futuro conselho. O novo conselho terá em suas mãos a organização da 3ª Conferência Municipal LGBT, apesar de todos sabermos da falta de implementação das propostas das anteriores (em 2008 e 2011).

Temos, porém, que fazer referência positiva à criação de vagas para a população LGBT no Centro de Acolhida Zaki Narchi na zona norte de São Paulo e de algumas ações culturais na região central (principalmente no Largo do Arouche), embora consideremos insuficientes ante as necessidades da nossa população.

A sociedade civil do conselho conclama que o prefeito Fernando Haddad, somente assine o decreto de conselho municipal LGBT, se este tiver de volta a fórmula original de equidade entre os segmentos (LGBTTT), sem a inclusão de ONGS, conselhos de classe e coletivos.

A sociedade civil do conselho conclama que o novo Secretário de Direitos Humanos e Cidadania Eduardo Suplicy, ao qual a CPLGBT é vinculada, promova reais mudanças na Coordenadoria LGBT, tornando-a mais efetiva e aberta ao diálogo franco com a sociedade civil.

Janaina Lima – Presidente do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual de São Paulo”.

(Marlene Bergamo/Folhapress)

(Marlene Bergamo/Folhapress)

11

Genet é necessário no Brasil de hoje

Por Vitor Angelo
31/01/15 16:30

Em 1969, o período mais pesado e fechado da ditadura militar no Brasil, Ruth Escobar, Victor Garcia e Wladimir Pereira Cardoso mudaram tudo no teatro brasileiro com a encenação de “O Balcão”, de Jean Genet. O escritor e dramaturgo acabou vindo ao país, devido à repercussão da peça. Dizem que foi seco: “pas mal” ( algo como ok), quando perguntaram o que achou do que tinha acabado de assistir. E a história virou lenda

Jean Genet ficou um mês no país, era arredio publicamente, mas no íntimo era muito afetuoso. Ficou na casa de Ruth Escobar e se divertia com os filhos da diretora e atriz. Ele esteve presente quando muitos estavam ausentes – exilados, na clandestinidade ou presos. Vivíamos a nossa marginalidade.

E de marginalidade, Genet entendia. Era homossexual, mas diferente dos gays de hoje que lutam pela normatividade, ele fazia questão de estar do lado oposto do que era considerado “normal”, trazia com sua sexualidade, ou melhor com a não aceitação de sua sexualidade pela sociedade, todos os outros valores também não aceitos pro ela: era ladrão, desertor, preso. Era o Nosso Senhor dos Excluídos!

Agora do Brasil, em que a população como um todo é excluída da água, da luz, do dinheiro, com a chamada crise hídrica, energética ou dos esquemas violentíssimos de corrupção (Petrobrás que o diga), Genet parece mais que necessário e não por acaso ele está nos palcos paulistanos em duas peças bem interessantes.

Uma delas, “As Criadas”, no teatro da Aliança Francesa, é o retrato da situação escravagista no Brasil que não consegue nem se traduzir em luta de classes entre patroa e empregadas, ainda estamos tentando alcançar este patamar com algumas leis.

E a outra é “Genet, O Poeta Ladrão”, no teatro Nair Bello, com texto inteligente de Zen Salles e uma ótima atuação de Ricardo Gelli, narra a vida do escritor intercalado com sua literatura de forma muito orgânica. Aliás, a peça começa citando a montagem de Victor Garcia e Ruth Escobar.

Mesmo vivendo um período histórico muito distinto da ditadura militar, Genet nunca foi tão necessário neste país, pois ele dá dignidade aos excluídos e, neste caso, não são só os LGBTs, hoje, os marginalizados no Brasil somos todos nós.

Jean Genet

Jean Genet

0

O que está por trás do discurso inclusivo de Barack Obama?

Por Vitor Angelo
22/01/15 07:00

Em seu discurso anual feito para o Legislativo, na noite de terça-feira, 20, no Congresso norte-americano, em Washington, o presidente Barack Obama chamou a atenção da comunidade LGBT porque, pela primeira vez, ele citou as palavras “bissexuais”, “lésbicas” e “trangêneros”. Ele também foi o segundo presidente, o primeiro foi Bill Clinton, a se referir aos gays dentro desta tradição importantíssima da democracia americana que é quando o Executivo se encontra com os parlamentares conhecido como State of the Union (“Estado de União”). Vale lembrar que, para muitos da imprensa, a palavra gay também abrangeria o termo lésbica, mas elas próprias cada vez mais renegam esta aglutinação.

Obama discursa no Congresso americano (Xinhua/Yin Bogu)

Obama discursa no Congresso americano (Xinhua/Yin Bogu)

Obama, em seu discurso, disse: “Os norte-americanos condenam a perseguição a mulheres, minorias religiosas, ou pessoas que são lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneras”. E foi aplaudido pelos congressistas.

O primeiro recado desta frase é interno e é dirigido à Suprema Corte que neste exato momento está discutindo a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo para todo o território americano. Nisto, Obama foi explícito e a citou também em seu discurso do State of the Union: “é a história da liberdade ao redor do nosso país”. O presidente defende abertamente o casamento igualitário.

O segundo recado é externo e está dentro e em oposição também de muitas de suas condenações. Ao defender a liberdade dos gays, Obama se coloca em confronto contra a Rússia, que tem leis anti-homossexuais. É uma indireta, já que o presidente norte-americano condenou em seu discurso a política externa russa, no caso específico, contra a Ucrânia, e deixa claro que acha o país de Putin é “isolado” e com a “economia em ruínas”.

E mesmo quando defende os LGBTs, as mulheres e as minorias religiosas, ele está falando contra os fundamentalistas religiosos, que no caso muçulmano (mas não só) são o estopim do terrorismo no mundo, outro ponto importante de seu discurso no Congresso americano. São em países que as mulheres, as minorias religiosas e sexual são desrespeitadas por crenças religiosas lidas de forma radical que a intolerância tende a crescer.

Enfim, Obama coloca os LGBTs (e não só ele, a União Européia também trilha no mesmo caminho) como valores ocidentais e civilizatórios (em uma grande chave que hoje todos gostam de chamar de diversidade e tolerância) em contraposição ao terrorismo, e ao que não é do Ocidente, isto é : a barbárie. É engraçado pensar que há menos de 50 anos, este mesmo Ocidente levava homossexuais para campos de concentração e prisão, ou, no melhor dos casos, a hospitais psiquiátricos.

9

Com o arquivamento da lei contra a homofobia, o que fazer?

Por Vitor Angelo
18/01/15 17:39

O ano começa com uma má notícia para os LGBTs, o PLC122/06, o projeto de lei que criminaliza a homofobia, que na verdade surgiu em 2001 e passou por diversas modificações e ficou estacionada no Senado Federal por oito anos, está sendo arquivado e, muito pouco provável, terá força política para ser desarquivado (seja porque a bancada fundamentalista seja contra, seja porque ele foi tão modificado que os aliados do PLC não enxerguem mais sentido em tentar retomá-lo.

Enquanto isto, o cenário é o seguinte: o Grupo Gay da Bahia divulgou esta semana o Relatório Anual de Assassinatos de Homossexuais no Brasil de 2014. O grupo se baseia em notícias que saem em jornais entre outras fontes e foram documentados 326 mortes de gays, travestis e lésbicas no Brasil, incluindo 9 suicídios. Segundo eles, acontece “um assassinato a cada 27 horas. Um aumento de 4,1 % em relação ao ano anterior (313)”.

A presidente eleita Dilma Rousseff, tanto na campanha do segundo turno como depois de eleita, declarou que é a favor de uma lei que criminalize a homofobia (tomando atitude completamente oposta de seu silêncio e de seus vetos contra os LGBTs em seu primeiro mandato). Em compensação, a bancada fundamentalista, que compõe boa parte da base governista da presidente, voltou a se dizer radicalmente contra esta lei e teve apoio do Exército.

Depois do PLC122 falhar, o que fazer, perguntam os militantes? Alguns sugerem pressão no STF para que a lei saia pelo Judiciário, outros acreditam que seria também interessante pressionar os órgãos internacionais e outros apostam na aprovação da lei Maria do Rosário que vem ocupar o PLC122. Então, como diz o velho bordão da militância: o que fazer?

“A procrastinação do debate e as manobras para paralisar a tramitação do PLC122 não combinam com uma casa legislativa que supostamente deveria ser de parlamentares mais maduros e sensíveis a realidade nacional e menos sujeitos a pressões de forças teocráticos, como é o Senado Federal. O senador Vital do Rêgo (PMDB) por exemplo: Votou pelo apensamento do PLC 122 a Reforma do Código Penal e depois, como relator da reforma, retirou os trechos que tratavam da criminalização da homofobia e rejeitou também as emendas que tratavam da homotransfobia. É um grande jogo de cena e de cumplicidade com a violência. Enquanto isso, LGBTs são discriminados o tempo todo e vítimas de crimes de ódio. Minha esperança agora está depositada no STF mas é preciso abrir uma nova frente: na Comissão Interamericana de Direitos Humanos”, diz para o Blogay, o militante Todd Tomorrow, 33.

Marcelo Gerald Colafemina, 34, psicólogo e administrador do site do PLC122,reflete: “O arquivamento é triste porque denuncia um Congresso sem empatia em relação às mortes de homossexuais e travestis, o que me chateia de verdade não é este fato em si, mas o de vários congressistas que se posicionaram como aliados terem colaborado pra que isto acontecesse. Vários governistas e senadores da oposição votaram pelo apensamento ao Código Penal, e esta foi somente mais uma manobra para ganhar tempo e levar ao arquivamento definitivo. Não acredito em ingenuidade neste caso, pois todos sabiam, ou deveriam saber, que projeto que não é votado em duas legislaturas é arquivado definitivamente. Eu preferia ter visto o PLC122 votado, mesmo que perdesse. Seria bom sabermos quem apoiava e quem era contra de fato, mas acho que justamente por isto nunca foi colocado em votação. O Executivo teve sua parcela de culpa neste processo, pois nenhum presidente se envolveu apoiando verdadeiramente a equiparação da homofobia e da transfobia ao racismo, o apoio não só teria sido benvindo como traria um peso enorme e positivo a esta causa. Depois que as notícias sobre o arquivamento saíram, eu vi muitos ativistas deprimidos e não vejo motivos pra sermos alarmistas, o PLC122 termina a sua história em 2015, mas a luta pela equiparação da LGBTfobia ao racismo continua e é isto que importa, eu considero o projeto de Maria do Rosário bem pertinente, mas percebo que é meio desconhecido dentro da militância e espero que isto mude. A luta continua”.

O que se percebe é que os LGBTs estão buscando outras alternativas como diz Marcelo Hailer, 32, jornalista: “Como bem colocou a senadora Ana Ria Esgario (PT-ES), o PLC 122 ficou estigmatizado e a campanha dos setores fundamentalistas, sobre inverdades do texto, deu certo. Nós já temos uma lei, que foi apresentada pela deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) no fim da legislatura passada, que se encerrou em 2014. Trata-se do projeto de lei 7582/2014, que segue basicamente a estrutura do texto anterior e que visa tornar crime atos de ódio movidos por orientação sexual e identidade de gênero”. E conclui: “O caminho é um só: muita pressão popular em cima dos parlamentares e da presidenta Dilma Rousseff, que se comprometeu publicamente em empenhar a sua base para que a homofobia se torne crime. Se não houver pressão, os parlamentares se sentirão a vontade para se eximir desta questão”.

30

Morre a jornalista e agitadora cultural Suzy Capó

Por Vitor Angelo
11/01/15 17:30

A agitadora cultural, atriz, produtora, curadora, militante, jornalista Suzy Capó morreu no sábado, 10, em São Paulo, aos 52 anos. A causa da morte não foi divulgada. Ela será enterrada em Brasília, na terça-feira, 13, no Cemitério Campo da Boa Esperança.

Suzy é uma destas peças fundamentais do movimento LGBT sem nunca pedir holofotes. Ela foi cofundadora do MixBrasil, o Festival da Diversidade Sexual, criou o termo GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), fundamental nos anos 90, na época em que entendeu que era muito importante agregar homos e héteros (os simpatizantes) em uma mesma conquista: a liberdade (seja ela sexual ou individual, o que no fundo é a mesma coisa).

Agregar é uma coisa que Suzy sabia muito bem fazer, com facilidade unia diretores, produtores, fazia amigos de seus amigos ficarem amigos, criava o ambiente para que coisas acontecessem e assim foi com o Mix, e com o primeiro selo de distribuição de filmes LGBT do Brasil, o Festival Filmes, ou o primeiro festival que debatia a pornografia, o PopPorn.

Também tinha entendimento que a imagem era importantíssima para as questões ideológicas, políticas e sexuais, por isto, sempre esteve ligadíssima ao terreno do audiovisual e da militância, mesclando os dois, mas sem sectarismo e verdades prontas. Suzy foi sempre dos questionamentos, mais do que das certezas cheias de rigidez, uma grande lição que a militância que a acompanhou aprendeu.

Outra lição, ela sempre fez questão de que a arte não se separasse da política, ou que esta se sobrepusesse a outra. A arte e o bom humor! Por um militância mais artística e bem humorada, esta é uma das lições valiosas que Suzy sempre fez questão de ter em seus princípios. Assim como o hedonismo, nada de LGBTs caretas, comportadinhos para serem melhor aceitos pela sociedade dita “normal”. Pelo desbunde, pela alegria, pela vida plena, era o que desejava Suzy.

Ela era uma gata de botas (e tinha umas lindas e era muito elegante). Em Brasília, cidade que cresceu (apesar de ser do mundo) agitou a cena como atriz, se formou em jornalismo, depois deu um pulo de léguas para Nova York para estudar Teoria de Cinema e Performance. Voltou ao Brasil, fez o Mix, o selo Festival Filmes, o PopPorn, editou o site gay Supersite, foi uma das incentivadores da “Dicionária Aurélia” e foi sereia, ou melhor, foi a Lady Una Troubridge (que teve um romance de 32 anos com a escritora Radclyffe Hall), na peça de Vange Leonel, “As Sereias da Rive Gauche”, foi jornalista, foi o que desejou.

A garra, a vontade, o ímpeto, o questionamento que eram tão inerentes de Suzy assim como a risada, a ironia, o deboche, o amor pela arte, pelo hedonismo, pelo prazer e pela liberdade vão fazer muita falta em um mundo que está a cada dia mais radicalizando-se. E principalmente, a sua vontade e seu projeto de liberdade, que era algo central em seu pensamento. Suzy Capó soube como poucos unir militância, poesia e alma libertária. R.I.P.

Suzy Capó  (1963-2015)

Suzy Capó (1963-2015)

4
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade