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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

Perfil Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo

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Tão longe, tão perto, o cinema canadense e gay de Xavier Dolan

Por Vitor Angelo
16/04/14 19:30

Existem alguns jovens cineastas que devemos prestar atenção, um deles atende pelo nome de Xavier Dolan. A temática LGBT, em seus filmes, é parte importante de suas tramas, mas não a principal. A questão da orientação sexual não é uma bandeira levantada, é uma experiência vivida dentro de muitos contextos. Talvez isto se deva porque o Canadá, seu país de origem e de onde produz seus filmes, seja um dos lugares mais avançados em relação aos direitos homossexuais. Não por menos, o seu filme de estreia “Eu Matei Minha Mãe” faz parte da mostra “Tao Longe, Tão Perto – O Cinema Canadense”, que começa nesta quarta-feira, 16, e vai até 4 de maio no CCBB – SP (confiram os horários clicando aqui).

O que é tão interessante em seu primeiro filme, que Dolan escreveu com 16 anos, produziu, dirigiu e contracenou no melhor estilo cinema de autor? O aparente maniqueísmo é destruído ao pouco. Desde a frase -catequese de Freud para entender os homossexuais: “pai ausente, mãe dominadora”, até a relação de vilania entre os personagens.

Aos poucos, o ambiente familiar conturbado e agressivo do filme vai se desenhando como nosso, principalmente no período da adolescência que nos rebelamos contra os nossos pais, e isto não é uma exclusividade dos homossexuais.

Também o que parece um ambiente de intolerância com ora filho atacando a mãe, ora a progenitora tiranizando sua prole, vai ao poucos nos sendo desenhado como uma dinâmica de relação, que podemos ter com nossos pais, filhos ou namorados e namoradas. E quando falamos em dinâmica da relação, nunca podemos colocar um culpado e uma vítima, são todos culpados e vítimas.

Se o filme mostra em sua superfície uma relação neurótica e cheia de ódio, é na verdade para nos revelar a profundidade do grande amor, do amor de um filho por sua mãe e de sua mãe por seu filho, onde o ódio é só arma de defesa.

Canal voltado para LGBTs estreia com vídeo sobre o racionamento de água

Por Vitor Angelo
15/04/14 18:30

Inusitado, muito bem humorado e cheio de sacadas, foi assim a estreia do novo canal gay na Internet, nesta terça-feira 15.  ”Põe na Roda” foi criado pelo roteirista e colunista da Folha, Pedro Henrique Mendes Castilho, mais conhecido como Pedro HMC, 29.

O humor não está só no vídeo de estreia, que de forma inteligente mixa um assunto atual como o racionamento de água com algo muito particular do mundo gay – apesar de que deveria ser algo utilizado e exercido por todos – a chamada chuca. O bom humor está também nos detalhes, como por exemplo, o horário que os vídeos sobem: 11h24 (a última dezena é relacionada aos homossexuais por causa do jogo do bicho).

Em conversa com o Blogay, Pedro contou mais sobre o “Põe na Roda”.

Blogay – Como surgiu a ideia do ter um canal gay no Youtube?

Pedro HMC - Faz tempo que tenho vontade criar algo pra Internet pela liberdade criativa que ela permite. Algo próximo disso, só tive quando trabalhei na MTV Brasil escrevendo” Furo” e “Comédia MTV” até 2012. Desde então, a ideia permeia minha cabeça. Mas não queria fazer um canal com ideias que já tem de sobra (outro canal de esquetes de humor em geral, videolog, maquiagem, culinária..), então juntei duas coisas nas quais tenho conhecimento que é a causa gay (por ser) e humor (por trabalhar como roteirista de comédia, principalmente) e saiu o “Põe na Roda” rs. Até existem canais e espaços gays mas ainda é muito pouco, se comparado ao que tem fora do Brasil.

Qual a linha editorial do canal; tratará de que assuntos do universo LGBT? Terá Humor? Novelas? Debates? Notícias?

Humor será presente em todos os vídeos, não consigo fugir muito disso. Mas não serão somente esquetes, embora seja o que mais gosto de fazer. Podem esperar também por gameshows, vídeos informativos, entrevistas, depoimentos, debates e notícias. Pode ser o que for, na verdade, cada vídeo tem uma proposta diferente, o que une todos no canal são os fatores humor e (universo) gay.

O “Põe na Roda” pretende ter que periodicidade de atualizações? E como ele pretende se alimentar? Terá vídeos colaborativos? Tem uma produtora?

Toda terça-feira, às 11h24, tem um vídeo inédito. E, a princípio, toda sexta um vídeo de bastidores. Estou estudando outras opções pra sexta, mas por enquanto, até pela falta de tempo, é isso que consigo produzir e entregar. Não tenho uma produtora. Comecei e fiz tudo por conta (roteiros, gravações, edições…), contando com ajuda de amigos (nessas horas você vê quem são) que toparam participar, ajudar a produzir e até emprestar equipamento e estúdio.

Como o “Põe na Roda” pretende se pagar? Quantas pessoas trabalham para o canal?

Meu objetivo a princípio era criar um projeto em que eu me sentisse realizado e tivesse liberdade criativa. Claro que, se fizer sucesso, o dinheiro deve vir de alguma forma, seria ótimo! Mas nem tenho ideia de quanto, quando ou como por hora. Até agora investi todo meu tempo livre (que nem é muito, trabalho na Band e tenho uma coluna na Folha) dos últimos 2 meses escrevendo, gravando e editando (aprendi a editar e gravar na marra pra esse projeto rs). Então, gastei muito tempo, telefone, gasolina, uma câmera e um macbook rs… Nessas condições, sendo independente, não tem como ninguém trabalhar oficialmente pra mim, senão alguns amigos (Nelson, Maíra, Bruno, Gui, Rapha <3) que me ajudaram muito.

Quem vocês pretendem atingir com o canal? O canal tem um lema, um propósito?

O público LGBT que se vê pouco representado na mídia. Você tem programas e canais voltados para donas de casa, pra crianças, para o público masculino que quarta pode escolher entre desfile de lingerie e futebol… Mas vê quase nada para o público gay. Mesmo na Internet são poucas opções ainda no Brasil. Também gostaria de atingir o público heterossexual que pode se divertir e se informar assistindo. O vídeo de estreia sobre a água é bastante gay (nem sei se heterossexuais sabem o que é chuca [Lavagem intestinal, geralmente feita com a mangueira do chuveirinho, instrumento utilizado para a limpeza do reto; exemplo: use a chuca pra não passar cheque] , mas por exemplo, posso dizer que em um dos vídeos que estão sendo produzidos, vários heterossexuais são os protagonistas.

Veja o vídeo de estreia:

A luta de uma minoria é a luta de todas as minorias

Por Vitor Angelo
02/04/14 19:30

Nesta quarta-feira , 2, comemora-se o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, e o que os LGBTs têm com isto? Nada, responderão os mais apressados, mas a ligação é profunda. A questão das minorias é a primeira que liga autistas, os que têm Síndrome de Down, as pessoas especiais, os negros, as mulheres e também os gays. A luta contra o preconceito e o estigma é de mesma matriz.

Senti que a indignação de muitos pais de autistas com a interpretação de Bruna Linzmeyer para a personagem Linda em “Amor à Vida” era muito semelhante ao de militantes gays que condenavam tempos atrás o retrato dos homossexuais na TV. Enfim, a mesma vontade de uma representação com abrangência total, o que muitas vezes é impossível por diversos motivos,e acaba gerando frustração. Este elo une todas as minorias que querem se ver representada nos meios de comunicação de massa audiovisuais: a vontade de uma representação muito realista até para que esta seja um signo do fim do estigma.

O mesmo pode-se falar sobre outra questão aguda aos LGBTs e aos autistas, a educação, a ida à escola. Cada grupo com seu problema específico, mas tanto um como outro sofre bullying ou mesmo muitas vezes é rejeitado pela própria escola. Além de tudo, não temos uma escola preparada para trabalhar com o diferente e as diferenças e isto faz com que diferentes como gays e autistas sejam iguais no tratamento preconceituoso.

Enfim, a luta de uma minoria é a luta de todas as minorias. E hoje, azul é a cor mais quente!

Azul é a cor do Dia Mundial da Conscientização do Autismo

Azul é a cor do Dia Mundial da Conscientização do Autismo

Homossexualidade e ditadura

Por Vitor Angelo
31/03/14 20:00

Enquanto o Brasil entrava na fase mais sombria da Ditadura Militar, o AI-5, nos Estados Unidos, gays, lésbicas e transgêneros enfrentam a polícia nas ruas de Nova York por respeito e inclusão cidadã. Dentro desta dicotomia entre a luta pela liberdade e direitos dos LGBTs e vivendo o estado de exceção brasileiro, uma pessoa é peça chave para a entendermos a relação entre os militares no poder e os homossexuais que começavam a se organizar no país: João Silvério Trevisan.

Por suas atuações em diversas áreas – ele é escritor, dramaturgo, cineasta, jornalista, ativista -: foi censurado por um longa-metragem, “Orgia ou o homem que deu cria”, considerado subversivo; fundou o primeiro jornal voltado para questões homossexuais, Lampião da Esquina; e esteve na formação do grupo Somos, de ativismo LGBT.  Isto é, Trevisan enfrentou a censura no campo artístico (com seu filme), a censura da imprensa (com Lampião), a censura cultural (com o boicote das distribuidoras que não desejavam espalhar um “jornal de viado”) e a censura partidário-ideológica (o grupo Somos fez um enorme esforço contra a cooptação partidária de grupos homossexuais).

O autor de “Devassos no Paraíso”, livro do qual este blog tem como referência máxima, é acima de tudo libertário – uma afronta ao Regime Militar na época e ao policiamento de certos militantes hoje – e sua voz continua sempre sendo de extrema importância e necessária de ser sempre ouvida.

Com a palavra, Trevisan:

Blogay – Qual era a relação da ditadura com os LGBTs?

João Silvério Trevisan - É próprio das ditaduras cercearem as liberdades, e, no Brasil, não foi diferente, com perseguições políticas ferozes, cassação de políticos, prisões e torturas aos opositores. Em nível institucional, desconheço alguma perseguição aberta ou em massa contra homossexuais, a partir de determinações do regime. Não houve inovações em leis e códigos penais visando moralizar os costumes. O mais parecido com isso foi a Lei de Imprensa, de 1967, que coibia noticiário considerado subversivo ou contrário ao regime, incluindo-se aquilo que fosse considerado imoral.  Essa repressão foi reforçada ainda mais pelo AI-5, de 1969. Em nível de governo, havia a Censura Federal, que foi um órgão extremamente atuante e autoritário, em termos de liberdade de expressão. Além da forte vigilância sobre os jornais, que precisavam mandar antecipadamente sua pauta aos censores, havia muitos livros, filmes e espetáculos proibidos ou censurados. Obviamente, tudo aquilo que fizesse menção à homossexualidade sofria censura ou veto – o que era óbvio numa ditadura que provocou uma maré conservadora em todos os extratos da sociedade. Não apenas o exército reprimia severamente manifestações contrárias ao regime, agentes dispersos, respaldados pelo regime, tinham espaço para reprimir tudo aquilo que era considerado subversivo ou “atentatório à moral e aos bons costumes”. As polícias também serviam como olho vigilante e braço atuante. Foi assim com meu filme “Orgia ou o homem que deu cria”, de 1970, impedido de ser exibido por conter obscenidades em “quase sua totalidade”. As obscenidades, no caso, tinham a ver com a personagem de uma travesti e a representação de homens transando, mas também com palavrões e até mesmo com a sugestão de índios devorando um bebê. Do lado da imprensa, o caso mais emblemático foi o do jornal “Lampião da Esquina”, voltado para a comunidade homossexual, do qual eu era um dos editores. Sofremos um inquérito policial e fomos interrogados e fotografados criminalmente. No processo da promotoria, além de anormais e outras classificações previsíveis fomos chamados de “pessoas que sofriam de graves problemas comportamentais”. Em relação à polícia, aqui em São Paulo, ficou célebre a perseguição moralizante do delegado Wilson Richetti contra bichas, travestis e putas no centro de São Paulo, o que acabou promovendo a primeira passeata de homossexuais, em 1980, em protesto contra as perseguições, maus tratos e prisões arbitrárias.

Making of do filme "Orgia ou o homem que deu cria" (1970), de João Silvério Trevisan

Making of do filme “Orgia ou o homem que deu cria” (1970), de João Silvério Trevisan (Reprodução)

Como foi para você ter uma vivência homossexual em plena ditadura?

Foi bastante doloroso, pois coincidiu justamente com o florescimento da minha homossexualidade, a partir do momento em que a assumi. A vida guei em São Paulo existia em muito menor grau e a gente desfrutava do que era possível, inventando lugares para paquerar, fossem cinemas, praças, banheiros públicos ou algumas saunas menos vigiadas – sempre correndo risco de repressão. Também frequentávamos as poucas boates exclusivas para o público guei. Entre 1971 e 1973, morei numa pequena comunidade de homossexuais, onde fazíamos reuniões frequentes para discutir nossos problemas pessoais, o que nos proporcionava imenso apoio uns aos outros. Meu grande refúgio era a boate Medieval, muito próxima da casa onde morávamos. Quando eu entrava lá, sentia que era o meu espaço, e adorava dançar quase sem parar. Depois que voltei para o Brasil do meu exílio de três anos, entendi que era necessário criar espaços e situações em que homossexuais pudessem ir além das paqueras, para discutir e se organizar politicamente. Daí, tive a ideia de fundar o grupo Somos, que depois se multiplicou pelo Brasil afora. O começo foi muito difícil, mas conseguimos articular um grupo razoável, que trabalhava em várias frentes, divulgando os direitos homossexuais em faculdades, protestando contra a repressão e fazendo contatos no exterior. Foi um horizonte amplo que se abriu, juntamente com o jornal “Lampião da Esquina”, que tinha distribuição nacional, montada a duras penas, já que as distribuidoras tradicionais se recusavam a trabalhar com “jornal de viado”. Mesmo os donos de banca eram preconceituosos, e tínhamos que convencer a cada um. Na somatória de todas essas atividades foi possível ver um horizonte mais favorável no futuro. A energia que a gente tinha era indescritível, movidos pela consciência crescente de estar abrindo caminhos para a conquista de nossos direitos.

João Silvério Trevisan com seu livro sobre a história da homossexualidade no Brasil, "Devassos no Paraíso" (Divulgação)

João Silvério Trevisan com seu livro sobre a história da homossexualidade no Brasil, “Devassos no Paraíso” (Divulgação)

Qual a grande lição histórica da experiência do Lampião da Esquina e do grupo Somos que podemos tomar para nós?

“Lampião da Esquina” foi uma expressão libertária de um grupo social que começou a se organizar para se defender dos preconceitos seculares e conquistar seus direitos. Hoje, a comunidade LGBT é assombrada pela ilusão de que chegamos ao paraíso – bastando acessar a internet e encontrar o próximo parceiro de cama. Na contramão desse conformismo, eu me reporto a um documentário que fiz clandestinamente, em 1969, no qual inseri em várias línguas esta frase que me parece um parâmetro de vitalidade política: “É preciso atrever-se a pensar, falar, agir, ser temerário e não intimidar-se com os grandes nomes nem as autoridades.” Dentro do grupo Somos-SP, aliás, nós reivindicávamos a necessidade de cada homossexual ser dono da sua própria voz, inclusive contra lideranças manipuladoras ou doutores donos do saber. Tínhamos convicção de que ninguém é dono do saber e estávamos cansados de ter a voz da ciência, das igrejas e dos legisladores falando por nós – em geral, para nos condenar. Já então, lutávamos também contra a cooptação de qualquer partido político, que poderia sim ser nosso aliado, mas nunca nosso mentor, como tem acontecido com as cooptações de lideranças homossexuais na atualidade. As manifestações de junho de 2013 vieram mostrar que nós, em 1978, tínhamos razão ao reivindicar a autonomia dos movimentos sociais e a ação direta em nosso questionamento político, utilizando nossa própria voz e não a voz de possíveis “companheiros”, sempre quando interessa a eles, é claro.

O escritor, jornalista, cineasta, tradutor, dramaturgo João Silvério Trevisan, peça chave para entender a luta pelos direitos LGBTs no Brasil

O escritor, jornalista, cineasta, tradutor, dramaturgo João Silvério Trevisan, peça chave para entender a luta pelos direitos LGBTs no Brasil (Arquivo Pessoal)

Da intolerância da militância

Por Vitor Angelo
30/03/14 19:00

As conquistas de boa parte dos direitos das minorias não ocorreria sem a ajuda e a luta da militância, ela é fundamental para denunciar, defender, debater e esclarecer assuntos que são propositalmente colocados para debaixo do tapete da sociedade para negar melhor qualidade de vida para algumas parcelas desta mesma sociedade. Porém, existe um certo exercício de acusar, apontar dedos quase de forma irascível de uma parte da militância, para tudo e todos que não fazem o seu discurso e estão fora do seu quadrado, que é cheio de ódio e rancor e violência, os mesmos valores que estes militantes acreditam estar combatendo. Recentemente, um importante militante LGBT, Ricardo Rocha Aguieiras, fez aquilo que é importante para uma militância séria crescer: fez uma autocrítica da militância sobre este cartaz de uma declaração da atriz Glória Pires que foi espalhado nas comunidades gays nas redes sociais.

(Reprodução/Facebook)

(Reprodução/Facebook)

“Vejo pessoas militantes LGBT e mesmo líderes atacando a fala de Glória Pires mostrada no cartaz acima. Acho ilusório o que exigimos das pessoas não homossexuais e não LGBTs. Mas gente, ela não é militante LGBT, não tem o nosso discurso. Acho que o que ela disse é positivo, sim. Ela não se mostrou homofóbica em seu comentário, pelo contrário. Ao exigir demais, podemos é afastar pessoas aliadas. Tenho a absoluta certeza de que bastaria uma conversa com ela e ela entenderia. E ainda existem, no nosso discurso mesmo, muitas contradições. Em cima da fala de Simone de Beauvoir, a “não se nasce mulher, torna-se”; tem boa parte defendendo que com homossexuais é a mesma coisa. Afinal, ao se esconder num armário, um enrustido ou enrustida não estaria vivenciando sua homossexualidade, estaria? E tem ainda teóricos queers que falam que homossexualidade não existe, é apenas um rótulo cooptado. Então, se nem entre nós há concordâncias para levarem a um discurso único, como posso exigir isso de quem não é LGBT e está de fora dos nossos debates? ilusão acharmos que atingimos o mundo todo…”, escreveu Ricardo.

Um ponto muito importante colocado na entrelinhas do texto de Aguieiras é a soberba que muitas vezes a própria militância  se alimenta. Exigir que todos pensem como ela (a “cartilha LGBT” diz que deve ser assim e não assado), que sigam a mesma conduta e que tenham o mesmo grau de conhecimento e discurso passa muito mais por uma atitude autoritária do que democrática.

Aguieiras coloca clara uma certa intransigência que permeia muito o pensamento dos militantes, como existisse uma verdade única e tudo o que fosse contrária a ela, automaticamente seria inimigo da causa.  No fundo é o mesmo espelho da intolerância que os LGBTs sofrem, não existe margem para as áreas cinzas, é tudo preto no branco. Estar atento a si, em primeiro lugar, antes de apontar o dedo com tanta raiva para os outros deveria ser a primeira lição que os militantes deveriam ter, exatamente como Ricardo fez. Seria muito bom que a militância fosse cada vez mais diversa e menos intolerante, afinal é por diversidade e o respeito a ela que militamos.

Temos que tomar cuidado para não nos tornarmos tão intolerantes como contra aqueles que lutamos.

A tal questão de gosto dos homossexuais

Por Vitor Angelo
29/03/14 15:00

Recentemente, um texto de Marcio Caparica no site Lado Bi sobre a busca da masculinidade total que muitos gays se impõem e exigem dos seus parceiros e amigos gerou certa polêmica entre os homossexuais masculinos.

De forma breve explico, o texto coloca uma questão importante já discutida pelo colunista americano Dan Savage: que os homens heterossexuais vivem em eterno estado de vigilância por todos (seus amigos, as mulheres, os outros héteros, os LGBTs). Qualquer deslize dentro de uma conduta dita adequada para “machos”, podem acabar fazendo com que sejam apontados como homossexuais ou não tão “homens” (como se gays não fossem homens…) suficientes.

Ao fazermos tal policiamento de forma ostensiva ou mesmo de modo leviano e bem humorado, enfim, de todas as elas, contribuímos para a manutenção de certos padrões machistas e homofóbicos.  Afinal, por que nos interessa tanto a sexualidade do outro (desculpando-se apenas se for para fins sexuais)? E o mais estarrecedor é que fazemos esta vigilância com a maior naturalidade. Todos!

Levantado este ponto, vem o próximo que diz sobre  a exigência de muitos gays de se mostrarem machões. O texto diz: “Amarrar-se a uma masculinidade completa é a verdadeira demonstração de uma visão limitada do que é ser gay. O homem que se coloca nessa jaula se priva de samplear a enorme gama da sexualidade humana, e se engana quando se sente privilegiado ao se limitar à caixinha de uma identidade que sabe não ser a sua. Não adotar alguns (ou muitos) comportamentos pintosos porque não se identifica com eles é normal e razoável. Quando um homossexual repudia absolutamente tudo do “mundo gay”, no entanto? Isso é sintoma de um medo de rebaixar-se ao se afastar do olimpo tão cobiçado da heteronormatividade. E pior, ceder a esse medo não traz vantagem nenhuma. Ninguém além do próprio vai considerá-lo um gay melhor por isso – nem os héteros, muito menos os ‘outros’ gays. Melhor é escapar dessa tocaia e se permitir experimentar outras atitudes. A vida vai ser mais relaxada – e quem sabe até mais feliz”.

Pronto, bastou isto para muitos homossexuais nos comentários do post se revoltarem contra o autor. A desculpa: a questão do gosto. “Mas eu gosto de ser masculino”, ou “Eu prefiro sair com homens discretos”. Antes de mais nada, gosto se discute sim, porque ele não é só uma conquista individual, ele carrega muito da cultura, muito mais do que pensamos, por isto ele se modifica, se aprimora, se cultiva. Se fosse estático como algo individual que trazemos do nossa nascimento, ele não se transformaria.

Posto isto, é muito estranho em diversos aplicativos gays, chats de encontro entre pessoas do mesmo sexo nunca aparecer: “só curto efeminados”, “dispenso discretos”. Se é uma questão de gosto, porque não existe este gosto por efeminados, mesmo que em pequena escala. Se a nossa sexualidade é tão diversa porque estas categorias nunca aparecem como algo desejável. Há alguns anos, era muito frequente o texto de gays que procuravam parceiros em chats dizendo: “não curto gordos” ou “velhos fora”. Com a ascensão da cultura urso no meio gay, estas prerrogativas foram sendo cada vez menos colocadas e manifestadas (a pessoa pode até não desejar gordos, mas é cada vez mais raro ela escrever isto). Aliás, hoje, tem uma quantidade grande que deseja pessoas mais velhas: “curto coroa” é um termo muito presente nos aplicativos de encontros gays. Mais uma prova que gosto se aprimora, se modifica.

Não é uma questão que, mais pra frente, os gays só irão curtir homens mais femininos, mas talvez muito deles irão se permitir, se refletirmos por que nós, homossexuais masculinos, negamos tanto a feminilidade em nós e nos outros como algo desejável.

De fundo e para se pensar,  o não gostar de efeminados passa muito perto pelo mesmo discurso daqueles homofóbicos que dizem que não gostam de gays. A desculpa é a mesma: “é uma questão de gosto”. Será?

David de Michelangelo (Wikicommons)

David de Michelangelo (Wikicommons)

A Aids como metáfora: Clube de Compras Dallas

Por Vitor Angelo
02/03/14 21:00

Susan Sontag em seu livro “Aids como Metáfora”, de 1988, coloca com propriedade a questão da culpabilização da vítima pela doença, como se ela a merecesse. E, logo quando surgiu, a Aids foi considerada como uma espécie de punição direcionada especialmente aos homossexuais, até muito mais do que os usuários de drogas injetáveis.  Exatamente por questionar este estigma de “peste gay”, que muitos ignorantes tentam até hoje repetir, que o filme “Clube de Compras Dallas”, de Jean-Marc Vallée, já teria um grande mérito.

Com uma narrativa clássica, o filme narra a vida do eletricista Ron Woodroof (interpretado de forma surpreendente por Matthew McConaughey), que faleceu em 1992, sete anos depois de ser diagnosticado com a doença. Detalhe: ele não tinha relações homossexuais, e era, até saber que tinha o vírus HIV, um típico machão do Texas, aficionado em rodeios e mulheres. E carrega todos os preconceitos que este estereótipo possui.

Com a doença, é expulso de sua roda de amigos, tem a casa pichada, transforma-se no produto de seu preconceito.  Além disto, os médicos lhe dão um mês de vida. Ele, então, trava uma guerra contra a indústria farmacêutica assim como contra sua homofobia.

O momento de passagem contra a sua homofobia acontece na seca e, ao mesmo tempo, poética cena do supermercado. Ron está com sua sócia, a travesti Rayon (o músico Jared Leto em performance estupenda e, como McConaughey, inesperada) e um dos antigos amigos machões do eletricista recusa-se a apertar a mão da trans.

O fundamental do filme é como se dá a relação entre os que detêm o poder e os que não (heteronormatividade versus pessoas infectadas pelo vírus HIV; indústria farmacêutica versus tratamentos alternativos). O Clube de Compras Dallas é o gueto, onde os que têm a doença podem se refugiar, mas precisa-se ir além do gueto, ir aos tribunais, lutar por direitos, esta é a grande metáfora do filme.

"Clube de Compras Dallas", de Jean-Marc Vallée. Na cena, Rayon (Jared Leto) e Ron Woodroof (Matthew McConaughey) (Divulgação)

“Clube de Compras Dallas”, de Jean-Marc Vallée. Na cena, Rayon (Jared Leto) e Ron Woodroof (Matthew McConaughey) (Divulgação)

PS: Na noite de domingo, 2, Jared Leto ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e Matthew McConaughey, de Melhor Ator. O roqueiro disse em seu discurso de agradecimento, oferecendo o Oscar:  “É para as 36 milhões de pessoas que perderam a batalha para a Aids”.

 

Jota Jota Davis (1975-2014), ícone da noite de São Paulo

Por Vitor Angelo
20/02/14 18:00

Jonas Ferreira da Cruz nasceu na cidade de São Paulo no dia 8 de janeiro de 1975, mas entraria para a história da noite de São Paulo como Jota Jota Davis, nome dado por Estela Davis, na época que ele era o primeiro bailarino nas apresentações da drag queen.

Quando criança, ele já demonstrava para onde sua estrela queria dançar. De família evangélica, ele sempre ensaiava coreografias escondido dos parentes. Quando sua irmã mais nova, Sara Ferreira da Cruz, era pequena, ele era quem sempre dava opiniões sobre as roupas que ela devia vestir e avisava a mãe, dona Arminda Franco dos Santos, onde tinha algum vestido bonito e que combinasse com a irmã. Ele também gostava de organizar festas surpresas. Sim, entre 10, 12 anos, ele preparava o bolo, chamava os amigos, decorava a casa e esperava a mãe chegar, que ficava encantada com a festa surpresa organizada pelo filho.

Estava já no íntimo de sua infância, a tríade que o explicitaria e o transformaria em Jota: dança, moda e festa. E foi com esta santíssima trindade que a noite de São Paulo se encantou por este negro montadíssimo, sempre feliz, dançando muito bem e ainda com um componente de virilidade latente.

Trabalhou como bailarino em diversos shows de casas noturnas, foi barman do Pix, host da Torre, do D-Edge e de tantos outros clubes. Sua figura meio centauro meio fauno foi conquistando espaço e admiração de muita gente que fazia a noite de São Paulo como proprietários de bares e boates, DJs, VJs, promoters e frequentadores (clubbers?), para logo se transformar em um ser mitológico da vida noturna da cidade. Uma pista sem Jota dançando ou uma entrada de clube sem seu sorriso na porta eram com certeza lugares menos felizes.

Nos últimos 20 anos, quem era da cena de São Paulo (e São Paulo é como o mundo todo) sabia quem era Jota Jota Davis, ou Jotinha como era chamado com carinho pelos mais íntimos. Um ícone não se constrói, ele acontece e sempre por uma combinação de carisma e originalidade e isto Jota tinha demais.

Na manhã de domingo, 16, Jonas, 39, morreu de complicações nos rins em decorrência do câncer linfático e com certeza os chill outs foram mais tristes. Uma gente bonita e muito conhecida da noite de São Paulo apareceu em peso no seu velório no Cemitério do Araçá, parecia uma festa de tanta gente bacana – apesar de ser velório – e assim que deveria ser pois Jota era signo de festa boa.

Ele foi enterrado no Cemitério da Vila Formosa, no dia seguinte, e estava de cartola, gravata borboleta, calça de alfaiataria, elegante e montado como sempre. Em seu caixão, ao lado das flores, um tubo de glitter, porque purpurina pouca é bobagem e antiquada para o sempre antenado Jota. R.I.P. JJ Davis!

O que está em jogo com Bolsonaro na CDHM? Ativistas marcam protesto

Por Vitor Angelo
12/02/14 20:30

Depois de Marco Feliciano (PSC-SP), não poderia ter outro pesadelo maior. Mas sim, existe a possibilidade de Jair Bolsonaro (PP-RJ) ser o novo presidente da CDHM (Comissão dos Direitos Humanos e minorias) da Câmara. Um protesto está sendo marcado em São Paulo pelas redes sociais, para quinta-feira, 13, na Praça do Ciclista, na Avenida Paulista, em São Paulo. Um abaixo assinado também acontece na internet.

Bolsonaro é conhecido por suas posições contras as minorias, ainda mais os homossexuais, e sua defesa da Ditadura Militar e das torturas. Não poderia ser o a pessoa mais errada para presidir esta comissão que visa exatamente dar direitos sonegadas às minorias e os menos privilegiados. Quando o deputado federal diz: “Minha proposta é defender direitos da maioria e não da minoria…”, ele comprova que não entende para o que funcionam os direitos humanos. É a ideologia de dar direitos aos que não têm. A maioria não é composta de pessoas especiais, então, se é para a maioria, como diz o discurso do filiado ao PP, danem-se as calçadas sinalizadas para cegos, o transporte com acessibilidade e assim por diante.

Mas por que uma figura tão bizarra foi escolhida para o cargo? Todos sabemos que se alguém saiu desgastado da presença de Feliciano na CDHM, este alguém foi o PT. O partido com sua ampla base governista sofre chantagens e é o que está acontecendo agora. Todos sabem que se Bolsonaro assumir, o desgaste vai ser maior ainda. Jeferson Monteiro, o criador da Dilma Bolada escreveu: “Se o PT deixar Bolsonaro assumir a Presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, não apenas a Dilma Bolada acaba como também não voto na Dilma”. Novamente quem pagará a conta será o PT.

Exatamente por isto, é uma forma do PP pressionar o partido que é o topo da pirâmide da base governista para conseguir ter o que deseja: a Comissão de Minas e Energia, mas o PSD está na frente na ordem das escolhas e já disse que a deseja.  Com isto, podemos, graças ao jogo político, ter um algoz contra as minorias chefiando o lugar que pretende ser exatamente o lugar dos direitos desta mesma minoria.

Ordem de escolha de comissões da Câmara por partido

Ordem de escolha de comissões da Câmara por partido

 

Protestos e vídeos denunciam a crueldade contra os homossexuais na Rússia

Por Vitor Angelo
05/02/14 20:00

Saindo de um estado totalitário que condenava a homossexualidade por ser um “sinal da decadência burguesa”, o comunismo soviético deixou seu veneno homofóbico mais nefasto exalar para os outros governos, na Rússia, que pretendiam ser um contraponto ao regime que vigorou desde 1917 até a Glasnost do final os anos 1980. Mas a homofobia estava impregnada e o governo de Vladimir Putin (muda-se presidente, primeiro-ministro e é sempre ele quem manda), aliado à Igreja Ortodoxa Russa, faz uma severa campanha de anulação de direitos de existência dos LGBTs no país.

As chamadas leis antigays que proíbem a divulgação de qualquer  ”propaganda de relações sexuais não tradicionais” apesar de drásticas não são tão terríveis como a omissão do Estado aos ataques homofóbicos. A ONG Human Right Watch (HRW) publicou um vídeo esta semana que mostra LGBTs apanhando, sofrendo bullying, agressões psicológicas e torturas. Detalhe: os vídeos são feito pelos próprios agressores que se beneficiam com a ausência e omissão da polícia.

Veja abaixo, imagens fortes:

Com a aproximação das Olimpíadas de Inverno que acontecem em Sochi e começam nesta sexta-feira (07), os protestos ao redor do mundo aumentam. Em São Paulo e no Rio, nesta quarta-feira, 5, manifestantes se vestiram de vermelho e convocam as “pessoas no mundo todo vão se reunir numa Mobilização Global pra pressionar os patrocinadores das Olimpíadas – como o McDonald’s, Coca-Cola e Visa,  - a se manifestarem contra a violência na Rússia às vésperas da abertura dos Jogos”. A All Out está com diversas campanhas contra as leis antigays da Rússia, clique aqui.

leis anti-gays na Rússia

O próprio COI (Comitê Olímpico Internacional) alertou para os protestos no podium de forma branda. “Os Jogos não podem ser usados para atos políticos mesmo que as causas sejam justas”, disse Thomas Bach, presidente da associação. Apesar da afirmação, ele deixou uma brecha: “Mas os atletas podem se expressar livremente nas entrevistas”.

Vendo as imagens acima dá para ter uma nítida ideia do que acontecia com os judeus durante a ascensão do Nazismo. E isto não é nada bom!

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