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O machismo perpetuado na sala de jantar

Por Vitor Angelo

#AgoraÉQueSãoElas é uma ideia de as mulheres ocuparem os espaços que pertencem aos homens por uma semana, como algo simbólico, até para perceber que os homens ocupam muito espaço. Com vocês: Lu <3

Por Luciana Rabassallo

Eu fui machista – se é que lá no fundo do meu ser pensante eu ainda não seja em algumas questões. Durante parte dos meus 27 anos, eu engrossei coros de “Não deveria ter saído de casa com essa roupa” ou “Tem mulher que gosta de apanhar. Por qual motivo ela se casou com um traste desses?”. Admitir a machista que foi cultivada dentro de mim desde a infância é, ao mesmo tempo, horripilante e libertador. A minha educação, assim como a de muitas mulheres com quem eu convivo, foi fundamentada em um princípio básico: o homem é o comandante e o provedor.

Quando criança, eu tinha de cuidar do meu irmão mais novo, ajudar minha mãe com as tarefas de casa, me portar como uma princesa, não sujar o vestido e fazer balé em vez de jogar futebol – uma das minhas paixões. Conforme eu fui, comecei a ser introduzida aos preceitos da família tradicional brasileira, segundo os quais “mulher que se dá ao respeito não fica até tarde na rua” e “não usa um vestido curto”.

Também passei a fazer parte das conversas das mulheres adultas da família, que julgavam indiscriminadamente a prima que engravidou antes de se casar e o parente distante que morreu em decorrência de complicações da AIDS. “Dizem que ele usava drogas. São mesmo uns degenerados”, dizia uma tia na cozinha. “Ele era tão lindo. Não consigo entender como não arrumava uma namorada”, dizia outra. Enquanto isso, na churrasqueira, um dos homens da família sentenciava: “Isso é falta de surra. Filho meu nunca seria boiola”.

A primeira vez em que questionei conscientemente essas afirmações absurdas foi quando eu pedi autorização para ir a um baile na pequenina cidade na qual os meus avós moravam. A resposta do meu pai foi: “Isso não é lugar de mulher”. Naquele exato momento, eu comecei a questionar qual é o lugar da mulher na sociedade. Na cozinha? Como minhas avós, minhas tias e minha mãe?

Uma interrogação sempre leva a outra e, em pouco tempo, passei a por em dúvida tudo o que me cercava. Por qual motivo eu tinha um namorado que eu não amava? Por qual razão nossas famílias já planejavam um casamento se eu não tinha permissão para ficar sozinha no meu quarto com ele? O que a minha mãe queria dizer ao afirmar que ele é “um homem bom”? Não demorou até essas questões atingirem o campo sexual. E foi nessa época em que eu comecei a entender o significado da palavra machismo e o quanto os efeitos dele são maléficos para todas as mulheres – mesmo para as que ainda não se deram conta disso.

Esse meu namorado, que foi um cavalheiro durante três anos, ameaçou jogar o carro em que estávamos de uma ponte quando eu dei indícios que queria terminar a nossa relação adolescente. Mais tarde, ele passou a se esconder na rua da minha casa para “checar” a que horas eu estava chegando e com quem eu estava saindo. Ele acabou descobrindo que eu estava apaixonada por outra mulher. As “checadas” se transformaram em ameaças. Ele não conseguia entender como eu preferia estar com outra mulher e não com ele. Eu, por outro lado, passava a fazer sinapses com uma velocidade inacreditável. Simplesmente me identifiquei gay. Tudo mudou.

Enfrentei duras e longas conversas com os meus pais, encarei violências físicas e muitos impropérios vindos de todas aquelas mulheres adultas que em outra ocasião se reuniram na cozinha para julgar o parente gay. De quem é a culpa pela minha “degeneração”? De minha mãe que não me educou para ser uma “mulher de família”? De meu pai que me “prendeu” muito durante a adolescência? Da novela “Mulheres Apaixonadas” que exibiu aquele tímido beijo entre Clara e Rafaela? Eu acho que até hoje elas não entraram em um consenso sobre isso. Contudo, eu sei quem é um dos culpados por grande parte dos julgamentos que eu e muitos LGBTs enfrentados todos os dias no Brasil.

Esse culpado é o machismo.

É a cultura patriarcal que está arraigada de forma profunda em nossa educação. É o pai que ensina ao filho que “rosa é cor de mulher” e que “chorar é coisa de menina”. É a mãe que fala para a filha se “portar como uma mocinha” e que “jogar futebol é coisa de menino”. É a cultura que prega que “é tarefa do macho colocar a mulher em seu lugar”. Todos os preconceitos de gênero, antes de qualquer coisa, são filhos da intolerância promovida pelo machismo. É necessário combate-lo em sua raiz mais profunda: a educação.

Fazer com que os jovens que reflitam sobre o machismo incrustado na sociedade brasileira é uma forma de tentar minar os preconceitos e a violência provenientes da não aceitação da sexualidade do outro. Questionar nas escolas as relações de poder configuradas por meio de uma concepção de masculinidade hegemônica, reconhecida e legitimada socialmente. Fazer com que os nossos filhos entendam que a banalização da violência e da intolerância, que muitas vezes são confundidas com a virilidade masculina, são alguns dos pontos que precisam ser transformados. Afinal os gêneros estão muito além da questão “homem-mulher”.

Torço muito para que esse momento de ampla discussão nas redes sociais acerca do machismo, da misoginia e de qualquer tipo de intolerância, seja ela de cunho religioso, étnico, social ou sexual, possa abrir os olhos dos pais – e, por consequência, de seus filhos – para que tenhamos gerações livres de preconceitos perpetuados na sala de jantar.

Luciana Rabassallo é jornalista, gay e acredita que há ainda esperança para a humanidade.

“Untitled (Your Body Is a Battleground)” [Sem Título (Seu Corpo é um Campo de Batalha)], (1989), da artista Barbara Kruger
“Untitled (Your Body Is a Battleground)” [Sem Título (Seu Corpo é um Campo de Batalha)], (1989), da artista Barbara Kruger

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