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‘Foi um ato político’, diz transexual ‘crucificada’ na Parada

Por Vitor Angelo

Viviany Beleboni, 26, talvez não tivesse a real dimensão de seu ato (apesar de ter noção da mensagem poderosa que estava passando) quando apareceu crucificada na 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, no domingo. Durante dias, programas de TV, as redes sociais, sites discutiram se era ofensiva ou não a representação que fez de uma imagem tão forte ao cristianismo, mais precisamente ao catolicismo. Porém, a resposta de forma mais radical veio de fundamentalistas ligados aos evangélicos, um paradoxo, já que eles não cultuam imagens e até já chegaram a chutar uma estátua da Nossa Senhora, o que chamam de idolatria. Posto isto, percebe-se que a razão é muito mais de fundo intolerante que religioso.

“Quando um famoso aparece crucificado está tudo certo. O problema é quando parece uma travesti, porque eles [críticos e fundamentalistas] acham que Parada Gay é palhaçada, ou que é um deboche, uma ironia colocar um Jesus, e é exatamente o contrário, aí está uma inversão de valores”, disse Beleboni em conversa pelo telefone com o Blogay.

Ela ressalta: “Em momento algum eu rebolei na cruz ou fiz qualquer gesto obsceno. Jamais pretendi agredir nenhuma religião, pois existem vários gays cristãos. Quem não entendeu é porque tem uma má educação. Falar que gays zombam de Deus é não entender nada do que fiz, não existe zombaria nenhuma”.

Entretanto, a bancada religiosa da Câmara não perdoou e sacralizou a imagem de Vivi em um protesto dos deputados fundamentalistas contra a Parada Gay, na quarta-feira,10. A resposta aos ofendidos será feita no dia 27 deste mês, em um Ato de Desagravo a Viviany Beleboni, organizada pela Comissão Extraordinária dos Direitos Humanos e Minorias, em São Paulo. Segundo a chamada do evento, “pretendemos reunir lideranças religiosas para se contrapor aos fundamentalistas e a má-fé”. A performer conta que tem recebido muitas manifestações de apoio de cristãos, católicos e evangélicos.

"Foi um ato político", diz  Viviany Beleboni sobre crucificação na Parada Gay (Reprodução/Facebook)
“Foi um ato político”, diz Viviany Beleboni sobre crucificação na Parada Gay (Reprodução/Facebook)

A ideia da crucificação aconteceu por uma vontade de Vivi de que mais questões políticas fossem colocadas na pauta da Parada. “É um dia de protesto, um dia de lutar pelos direitos que a gente não tem e falei com o Marcelo (Gil, presidente da Ong ABCD’s) que tinha esta ideia [da crucificação]. Era uma mensagem contra o ódio que nós LGBTs sofremos todos os dias. A atitude da imagem da crucificação foi para tirar a carga só de festa da Parada Gay, ter também mensagens, protesto contra as agressões que os homossexuais sofrem. O meu Deus não é diferente do Deus de ninguém, Deus ama a todos, inclusive eu”.

A vontade de estar crucificada tem relação com sua história de vida. A gaúcha de Garibaldi, passou uma pré-adolescência e juventude na cidade litorânea de Torres, sendo assediada verbal e fisicamente.

“Quando tinha oito 8 anos, eu recebia agressões verbais como: ‘você é uma bichinha, uma menininnha’. Desde criança, tinha o entendimento que ser diferente iria magoar minha família, então, apesar de não entender estas agressões, eu as escondia. Aí, elas evoluíram para as agressões físicas porque era afeminada. E quando eu tinha 13 anos, um grupo de meninos da escola, um até filho de uma professora, resolveu me agredir até quase o portão da minha casa, eles foram chutando minhas costas. Uma amiga tentou impedir”.

O terror não acaba aí. Ela teve muita autonegação e vergonha quando jovem: “neguei que era gay porque tinha muito medo das pessoas não gostarem de mim, e quando dava o sinal da escola eu já saía correndo pra casa para não apanhar. Estas agressões foram muitas, e uma vez eu levei uma paulada de um menino que dizia que estava me batendo porque eu era bichinha. Cheguei em casa, tomei banho e tentei esconder da minha família. Minha mãe me levou pra cortar o cabelo, a cabeleireira disse que tinha algo estranho na minha cabeça e viu um caroço, eu, com medo, disse tinha caído de uma árvore, pois não podia falar pra ela que apanhei porque as pessoas na escola achavam que eu era gay e acreditava que minha mãe iria me bater e me expulsar de casa”.

Infelizmente com esse histórico, para os que agora a ameaçam de morte, ela já está calejada. A página do Facebook de Vivi está bloqueada por tantas denúncias dos intolerantes.“Estou sofrendo horrores de ameaça, já me desejaram que eu morresse de câncer, que devia ter quebrado o pescoço, ameaça de morte, e isto não é chocante? Aliás, isto é uma atitude cristã? Este é o Deus deles”?

Para os que ainda não entenderam a metáfora, ela explica: “Eu sou crucificada a partir do momento que ponho o pé fora de casa. E não são só as transexuais, são os gays afeminados, os casais do mesmo sexo que andam pela rua de mãos dadas”. Recado dado, Vivi, aliás um belo e forte recado!

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