Blogay

A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 -

Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Tão longe, tão perto, o cinema canadense e gay de Xavier Dolan

Por Vitor Angelo

Existem alguns jovens cineastas que devemos prestar atenção, um deles atende pelo nome de Xavier Dolan. A temática LGBT, em seus filmes, é parte importante de suas tramas, mas não a principal. A questão da orientação sexual não é uma bandeira levantada, é uma experiência vivida dentro de muitos contextos. Talvez isto se deva porque o Canadá, seu país de origem e de onde produz seus filmes, seja um dos lugares mais avançados em relação aos direitos homossexuais. Não por menos, o seu filme de estreia “Eu Matei Minha Mãe” faz parte da mostra “Tão Longe, Tão Perto – O Cinema Canadense”, que começa nesta quarta-feira, 16, e vai até 4 de maio no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) em São Paulo (confira os horários clicando aqui).

O que é tão interessante em seu primeiro filme, que Dolan escreveu com 16 anos, produziu, dirigiu e contracenou no melhor estilo cinema de autor?  O que uma história de relação entre mãe e filho -já tão explorada a exaustão no cinema e literatura – nos deixa tão impactados e envolvidos e identificados?

Hubert (Xavier Dolan) tem uma relação bem problemática com sua mãe Chantale (Anne Dorval). O pai se separou dela quando ele ainda era criança e os dois vivem sozinhos e juntos. O jovem é homossexual e tem um namorado, Antonin (François Arnaud). O fato dele ser gay não é um problema para sua mãe (estamos no Canadá, muito longe de nós) e, sim, o gesto dele de não ter contar a ela que estava namorando. Ela não consegue se comunicar com seu filho, além das agressões e alfinetadas que um dá no outro.  Por outro lado, Hubert nega sua mãe e os valores dela, desprezando-a.

O aparente maniqueísmo de ter algum vilão na história é destruído ao pouco. Desde a frase -catequese de Freud para entender os homossexuais: “pai ausente, mãe dominadora”, até a relação de vilania entre os personagens, tudo se esvai com o decorrer do filme. Aos poucos, o ambiente familiar conturbado e agressivo do filme vai se desenhando como nosso, principalmente no período da adolescência que nos rebelamos contra os nossos pais, e isto não é uma exclusividade dos homossexuais (e isto não é exclusividade tampouco só dos canadenses, o filme fica muito perto de nós e de nossas vidas).

Também o que parece um ambiente de intolerância com ora filho atacando a mãe, ora a progenitora tiranizando sua prole, vai ao poucos nos sendo desenhado como uma dinâmica de relação, que podemos muito bem ter com nossos pais, filhos ou namorados e namoradas. E quando falamos em dinâmica da relação, nunca podemos colocar um culpado e uma vítima, são todos culpados e vítimas.

Se o filme mostra em sua superfície uma relação neurótica e cheia de ódio, é na verdade para nos revelar a profundidade do grande amor, do amor de um filho por sua mãe e de sua mãe por seu filho, onde o ódio é só arma de defesa.

Blogs da Folha