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Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo

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Quero ficar em sua visão feito tatuagem

Por Vitor Angelo

Tatuagem para alguns é um ato de violência com o corpo, já para outros é uma forma de ficar mais sexy. Nela está também um ato de liberdade (o direito sobre seu próprio corpo) e de aprisionamento também (já que é muito difícil, dolorida e onerosa a remoção de uma tattoo). No primeiro longa-metragem de Hilton Lacerda, todos estes ingredientes se encontram presentes em uma discussão muito atual, apesar do filme se passar em 1978, no final da ditadura militar.

A relação amorosa entre o diretor de uma trupe teatral, Clécio Wanderley (Irandhir Santos), e um jovem soldado, Fininha (Jesuíta Barbosa), já mostra o jogo dos contrários entre liberdade e opressão. Os opostos se atraem e o filme também trata disto.

Mas ficar apenas na reflexão sobre o embate dos contraditórios é ver “Tatuagem” de forma simplista. Hiltinho, como é chamado no meio cinematográfico, trabalha a fundo dois temas caros ao cinema e à sociedade contemporânea: a violência e o sexo.

Hoje banalizados, tanto a violência como o sexo, eles se tornam corriqueiros tanto na cinematografia como nos noticiários e na internet. Engraçado é atentar que o que realmente pode “perturbar” é o sexo amoroso longe da heteronormatividade. O diretor chegou a ser apontado de criar cenas de homoerotismo com a intenção de chocar e acabou defendido por outro diretor pernambucano, Kléber Mendonça Filho, como relata sua entrevista para a revista “Samuel”. Sexo como uma extensão do ato amoroso, longe das relações convencionais, na verdade, é o que pode chocar nossa sociedade. Enfim, o amor não convencional ainda perturba.

Ciente disto, “Tatuagem” deixa explícito o amor homossexual e, como numa espécie de teatro naturalista, trata do tema e o representa com total naturalidade. O choque – ou não – é dado para o espectador sentir e refletir. Que sociedade é esta que se choca com um ato amoroso?

Se a chave do sexo (e sua relação com o amor), o filme trata explicitamente, sem rodeios, já não acontece o mesmo com a violência. Glauber Rocha (citado nominalmente no filme) foi um dos primeiros cineastas a apontar e escrever sobre a banalização da violência no cinema. O tiro de um revólver tem que entrar no cérebro do personagem e tudo, inclusive o sangue, deve ser mostrado de forma direta. A morte brutal como entretenimento!

No filme, todo ato de violência é tratado por um recurso de linguagem que o diretor usa com requinte: a elipse (com exceção da cena do corredor polonês, talvez porque a violência psicológica sofrida por Fininha, antes de apanhar dos soldados, tenha sido mais forte).

A elipse é uma técnica narrativa que passa de um período a outro através de um corte de tempo.  Por isto, não vemos o embate (sangrento?) entre os militares e a trupe teatral em um momento chave do filme ou a separação do casal de protagonistas (afinal, a separação também é uma forma de violência).

A violência é silenciada de seu habitual holofote, “Tatuagem” deixa para nós a imaginarmos e assim ela fica mais suavizada. Ela está presente, mas de forma implícita durante todo o filme. Nada mais atual.

Mais do que uma história de amor, “Tatuagem” é a história de amor com o cinema, ou melhor, com um tipo de cinema, aquele que reflete e emociona ao mesmo tempo, algo tão em falta no mercado.

O militar Fininha (Jesuíta Barbosa) e o diretor de uma trupe teatral Clécio (Irandhir Santos) vivem relação amorosa em “Tatuagem”, de Hilton Lacerda (Divulgação)

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