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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

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Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo

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Salve Félix, a bicha má

Por Vitor Angelo

Com a estreia da novela “Amor à Vida” substituindo a sonolenta – muitas vezes involuntariamente engraçada – “Salve Jorge”, um personagem ganhou todos os holofotes e só se fala nele nas redes sociais e na seção de entretenimento e famosos da imprensa: Félix Khoury, interpretado de forma grandiosa por Mateus Solano.

Félix (Mateus Solano) em “Amor à Vida (Divulgação/TV Globo)

Já com alguns apelidos como Félixciano (dizem que a alcunha começou nos bastidores da novela e agora ganhou força no Twitter) e bicha má, o personagem criado por Walcyr Carrasco tem despertado a atenção tanto pelo humor requintado como pelas vilanias.

O termo bicha má não é novidade na TV aberta. O “Pânico na Band” o utiliza faz anos, principalmente quando Evandro Santo encarnando Christian Pior faz alguma crueldade ou comentário venenoso, mas de fundo engraçado em suas matérias para o programa. Existe algo de tão verdadeiro e identificador nestes comentários que acabamos admirando alguém que conseguiu ver o mundo e a situação por um outro prisma e teve a coragem de não se autocensurar ou se autopoliciar e dizê-lo em bom som. A bicha má é novo bobo da corte da Idade Média!

Todo gay, ou pessoas que convivem com homossexuais, conhece a faceta bicha má que às vezes aflora em alguém, quase sempre temperados por comentários inusitados e ácidos – e com uma pitada de humor negro. A acidez humorada é também uma arma contra o preconceito, uma espécie de defesa desenvolvida por boa parte dos homossexuais contra os que tanto os condenam. Enfim, a bicha má é algo consolidado no imaginário LGBT e também das pessoas que conhecem e têm amigos gays.

Mas a grande sacada do autor e do ator Mateus Solano é o fato dele ser alguém no armário profundo.  Tentando disfarçar uma “heteronormalidade”, ele é casado, tem um filho e “aprendeu” a conseguir tocar em sua mulher Edith (Bárbara Paz). Tudo uma farsa, uma angústia, um sofrimento. Esta perversidade o transforma em sádico e obsessivo, em alguém detestável.

Mas por que então gostamos, rimos ou admiramos Félix, se ele é capaz de algo gravíssimo como deixar a irmã semimorta em um banheiro e jogar sua sobrinha em uma lixeira? Porque ele não conseguiu deixar a totalidade de seu ser trancada na escuridão do armário. A bicha má conseguiu escapar  e nos brindar com seu humor para amenizar as barbáries cometidas.

Esta complexidade rica no texto e na interpretação ressalta para um grande público o quão cruel é viver falsas identidades sexuais e como o chamado enrustido pode desenvolver perversidades para além do humor negro exatamente por isto, por não poder ser em sua plenitude. Uma mensagem para grande parte dos homofóbicos que exatamente odeiam e condenam tantos os gays porque não têm sua sexualidade bem resolvida ou minimamente aberta, livre para todos e para si.

Além disso, Félix revela também algo muito importante, em tempos de “cura gay”: não se consegue esconder sua verdadeira natureza sexual por todo e sempre – nem para você nem para os mais próximos -, ela sempre se impõe de alguma forma.  De uma forma estranha, Félix, ao final, seja qual for seu desfecho,  será uma bicha boa como lição para todos aqueles que vivem à sombra de seus verdadeiros desejos sexuais. Salve Félix!

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