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Salve Félix, a bicha má

Por Vitor Angelo
23/05/13 19:00

Com a estreia da novela “Amor à Vida” substituindo a sonolenta – muitas vezes involuntariamente engraçada – “Salve Jorge”, um personagem ganhou todos os holofotes e só se fala nele nas redes sociais e na seção de entretenimento e famosos da imprensa: Félix Khoury, interpretado de forma grandiosa por Mateus Solano.

Félix (Mateus Solano) em “Amor à Vida (Divulgação/TV Globo)

Já com alguns apelidos como Félixciano (dizem que a alcunha começou nos bastidores da novela e agora ganhou força no Twitter) e bicha má, o personagem criado por Walcyr Carrasco tem despertado a atenção tanto pelo humor requintado como pelas vilanias.

O termo bicha má não é novidade na TV aberta. O “Pânico na Band” o utiliza faz anos, principalmente quando Evandro Santo encarnando Christian Pior faz alguma crueldade ou comentário venenoso, mas de fundo engraçado em suas matérias para o programa. Existe algo de tão verdadeiro e identificador nestes comentários que acabamos admirando alguém que conseguiu ver o mundo e a situação por um outro prisma e teve a coragem de não se autocensurar ou se autopoliciar e dizê-lo em bom som. A bicha má é novo bobo da corte da Idade Média!

Todo gay, ou pessoas que convivem com homossexuais, conhece a faceta bicha má que às vezes aflora em alguém, quase sempre temperados por comentários inusitados e ácidos – e com uma pitada de humor negro. A acidez humorada é também uma arma contra o preconceito, uma espécie de defesa desenvolvida por boa parte dos homossexuais contra os que tanto os condenam. Enfim, a bicha má é algo consolidado no imaginário LGBT e também das pessoas que conhecem e têm amigos gays.

Mas a grande sacada do autor e do ator Mateus Solano é o fato dele ser alguém no armário profundo.  Tentando disfarçar uma “heteronormalidade”, ele é casado, tem um filho e “aprendeu” a conseguir tocar em sua mulher Edith (Bárbara Paz). Tudo uma farsa, uma angústia, um sofrimento. Esta perversidade o transforma em sádico e obsessivo, em alguém detestável.

Mas por que então gostamos, rimos ou admiramos Félix, se ele é capaz de algo gravíssimo como deixar a irmã semimorta em um banheiro e jogar sua sobrinha em uma lixeira? Porque ele não conseguiu deixar a totalidade de seu ser trancada na escuridão do armário. A bicha má conseguiu escapar  e nos brindar com seu humor para amenizar as barbáries cometidas.

Esta complexidade rica no texto e na interpretação ressalta para um grande público o quão cruel é viver falsas identidades sexuais e como o chamado enrustido pode desenvolver perversidades para além do humor negro exatamente por isto, por não poder ser em sua plenitude. Uma mensagem para grande parte dos homofóbicos que exatamente odeiam e condenam tantos os gays porque não têm sua sexualidade bem resolvida ou minimamente aberta, livre para todos e para si.

Além disso, Félix revela também algo muito importante, em tempos de “cura gay”: não se consegue esconder sua verdadeira natureza sexual por todo e sempre – nem para você nem para os mais próximos -, ela sempre se impõe de alguma forma.  De uma forma estranha, Félix, ao final, seja qual for seu desfecho,  será uma bicha boa como lição para todos aqueles que vivem à sombra de seus verdadeiros desejos sexuais. Salve Félix!

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16 comentários feitos no blog

  1. elaine comentou em 23/05/13 at 21:23

    adoro o Felix. Concordo com Vitor Angelo.

  2. Ricardo HC comentou em 23/05/13 at 21:26

    parabéns pelo texto!

  3. Luis. comentou em 23/05/13 at 21:44

    É vc Feliciana?

  4. LELA comentou em 23/05/13 at 22:26

    e além de tudo isso, o show do talento de MATEUS SOLANO.

  5. LELA comentou em 23/05/13 at 22:27

    E acima de tudo ele é muito convincente pelo show do talento do Mateus Solano.

  6. LELA comentou em 23/05/13 at 22:28

    E acima de tudo o personagem é muito convincente pela excelente interpretação e o talento de Mateus Solano.

  7. Lala comentou em 23/05/13 at 22:51

    Só pra lembrar que o termo bicha má começou como o deboche a um certo ex-apresentador do vídeo show, para tirar o coitado do salto era só citar o apelido que o barraco estava armado.

    Félix é o espelho da bicha amargurada, frustrada consigo mesmo e refletindo todo o ódio que recebeu da sociedade e do lar. Impondo aos outros o flagelo que sofreu.

  8. Renard comentou em 24/05/13 at 5:52

    Desculpe-me, mas o que mais tem é gay assumido com sexualidade mal resolvida. Nunca estive no armário, porém defendo o direito de cada um sair e assumir quando, como, onde e – acima de tudo – SE quiser. “Felix” faz tanto sucesso por ter um certo lado cômico, assim como a “Carminha” e a “Nazaré Tedesco”, mas ainda faz falta um vilão versão gay da “Odete Roitmann”, cuja vilania não tinha comicidade e sim sofisticação, requinte, arrogância e prepotência. De qualquer maneira sou amplamente favorável ao personagem “Felix” por mostrar que existe sim muitos gays com falhas de caráter, saindo da mesmice de mostrar só gays bonzinhos, amigos, simpáticos, comportados, educados como se todos fossem assim. Brasileiro adora humor, mas no geral, não aprendeu que muitas vezes há algo por trás do humor que deveria induzir a uma reflexão mais séria, levando a uma discussão também e não só ao riso.

  9. Vivi comentou em 24/05/13 at 7:39

    kkkkkk “sonolenta, involuntariamente engraçada.” foi até gentil…

  10. João Márcio comentou em 24/05/13 at 9:02

    Se interpretei direito o texto, o personagem só é mau por que vive amargurado por estar no armário. Caso assumisse sua homosexualidade certamente seria uma boa pessoa. Por essa visão, não existem homossexuais assumidos que sejam maus. É tudo “buona gente”. Mau mesmo só hetero ou homossual enrustido…cada uma…

  11. Paulo Pereira comentou em 24/05/13 at 9:45

    Discordo de algumas analises como a de associar a perversidade e os crimes da pessoa à condição de está enrustido. É um equívoco. O enrustimento é um fato que requer análise mais profunda e não essa condenação categórica. Antes de tudo, está enrustido não significa uma má índole do indivíduo e sim uma consequência do preconceito social. O erro é dizer que as maldades tem origem no armário. É tanto que existem muitas “bichas más” por aí e são abertamente declaradas, assim como, gays no armário são pessoas do bem O desvio está na natureza psíquica que se manifesta por meio de pensamentos, ideias e ações, independente de ser hétero, gay, assumido ou enrustido.

  12. manoel duarte comentou em 24/05/13 at 14:41

    é divertido… mas sei lá, o cara é afetado DEMAIS… é como aquele meme que fizeram com um cantor canadense dizendo prum ator marombeiro que ele era um menino… Mentiu pro tio… kkkk
    Caras como esse felix só têm respeito se tem grana ou for um profissional competente…kkk..Assim as línguas malvadas se apaziguam, mas só um pouquinho…

  13. charles comentou em 24/05/13 at 16:32

    BICHA MÁ PONTOCOM arrasandoooooo!!! kkkk … o nome FÉLIX com certeza não foi por acaso… tapinha na cara de FeliciANTA e Cia… Só nesse lixo de país mesmo que a comissão de DEFESA das minorias, age CONTRA as minorias… vai se resolver, querida!! porque na vida real, a BICHA MÁ e FELINA tem feito muito mais estragos que o da ficcção… principalmente nas cabecinhas fracas de um povinho GADO que se deixa manipular…

  14. midiã comentou em 24/05/13 at 20:39

    Você tem que tomar cuidado com o que escreve. Nítidamente está associando a maldade do Félix com a sua orientação sexual enrustida. Se perdeu no texto e argumentação. Usar o termo “humor negro” também é “puxado”, meu caro. Atenção para não reproduzir achismos.

  15. Lucas Estevam comentou em 26/05/13 at 9:11

    FELIXCIANA a bicha boa. Só que não rss.

  16. isaias malheiros comentou em 01/06/13 at 21:34

    Tem fundamento até certo ponto a visão do autor. Não poder viver de forma plena sua opção sexual, dificultando sua vida social, ainda ter que ouvir na sala de jantar, na escola, afirmações contrárias a sua opção ,o cara tem que ter a mente de ferro. Lógico que alguma autoproteção deve surgir nesse turbilhão ,;e a ironia , a maldade e a insensibilidade, as vezes ao próximo torna-se visível, não pela maldade da pessoa, mas o que ela teve que construir para se proteger. Isso não acontece apenas nos caras do armário, mas em outras experiências que não são apenas do universo gay; contudo , no universo gay essa lógica é verdadeira.

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