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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

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Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo

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A morte

Por Vitor Angelo
Velório de Hebe (Arquivo Pessoal)

A morte é fria! Isto é um clichê absoluto, mas também uma verdade das mais profundas. Ao tocar na mão de Hebe Camargo em seu velório, que aconteceu no sábado, 29, em São Paulo, nada mais real que o freezer de seus dedos, e nada mais falso do que achar que ali estava a apresentadora, ali existia apenas um corpo.

Era uma máscara mortuária apenas, nem as joias que compunham o que chamávamos de Hebe estavam presente, comprovando a ideia de Aristóteles sobre essência: algo que dá identidade a um ser, que o faz reconhecido como único.

Somos únicos e o que nos une é a morte. Seja homossexual, fundamentalista, lésbica, heterossexual, intolerantes, travestis, a senhora da foice estará em algum momento nos esperando.

Mas o arquétipo da morte também significa transformação, mudança. Platão em seu livro “Fédon” conta a condenação de Sócrates e seu suicídio com a cicuta. Já prestes a ter que cumprir a pena de se matar, os soldados libertam o filósofo das correntes  que tinha nos pés e ele diz: “Como é estranho isso que os homens denominam prazer. Ele está intimamente ligado à dor, que acreditamos ser o seu oposto. Embora essas duas sensações não se apresentem simultaneamente, aquele que persegue uma das duas é levado a experimentar a outra. É como se fossem inseparáveis. Agora que me soltaram das correntes, sobreveio-me um sentimento de prazer; o prazer de estar liberto. Ocorreu uma substituição de um pelo outro”.

Neste sentido, morre uma sensação para nascer outra e sendo a morte uma ideia de mudança, esteja também aí a mais profunda raiz para as rejeições e/ou insegurança e /ou apreensão que temos com toda e qualquer transformação.

Mas as mudanças (talvez aí, que sabe, incluso a do fim da sociedade patriarcal, de uma maior liberdade de gênero e dos direitos aos homossexuais) assim como a morte são inevitáveis. Ao ver Hebe em seu caixão sabia que algo tinha mudado, em seu corpo que já não apresentava “anima”, na essência que ali não existia mais e na transformação que a falta daquela presença nos fará. Foi assim com Hebe, com meus amigos e parentes queridos que já morreram. E um dia será comigo, e com você. Pois repito: as mudanças assim como a morte são inevitáveis. Ainda bem!

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