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Meninos, eu vi: A morte de Lady Di

Por Vitor Angelo

Prólogo:

Era um verão tipicamente brasileiro em Londres. Algo atípico aquele sol todo. Um agosto destes que faz você estranhar que a Inglaterra tem fama de chuvosa. Estava na cidade para uma temporada de dois meses. Costumava me reunir com amigos no Soho Square para o piquenique do almoço que sempre se estendia –  para os que não estavam trabalhando como eu – até o “happy hour”. Por incrível que pareça, meus amigos ingleses (sim, existem ingleses em Londres) eram todos republicanos, antimonarquistas e odiavam a princesa Diana. “Ela tem um senso de moda detestável”, dizia uma amiga muito elegante. “Cada um tem a novela que merece, nós ingleses temos a família real com a Lady Di”, disse outro entre uma cerveja e outra sob sol do meio-dia.

***

Remoção dos destroços do carro em que estava Diana, em Paris (Pierre Boussel – 31.ago.97/France Presse)

Era um verão muito quente e as pessoas estavam animadas, até abrir as casas para dar festas, elas estavam fazendo. Era um ambiente de exceção para quem conhece os londrinos. E em um “saturday night fever” destes que pede alegria, fui a uma dessas festas, na casa de uma pessoa que eu mal conhecia – algo bem exceção – e, de repente, percebi que todos sumiram da sala, a pista de dança improvisada. Reencontrei a festa em silêncio em um quarto, todos meio chocados – sem falar nem “oh, my God” nem nada – viam as imagens anunciando a morte de Lady Di em um túnel de Paris.

Nunca me esqueço que as primeiras imagens na televisão mostravam os clubbers com seus cabelos laranjas e azuis saindo das boates e os negros indo levar flores para a ex-princesa Diana, na porta dos palácios de  Kensington e Buckingham. Foram as primeiras de milhares.

Acabou a festa, acabou o verão, o tempo fechou em um clima de tristeza mórbida e quieta – muito diferente do melodrama quase histérico dos brasileiros ao presenciarem mortes históricas. Mesmo aqueles meus amigos que escorraçavam a família real e Lady Di estavam quietos, não se ouviu uma piada sobre a morte, nenhum comentário malicioso. A turbulenta Londres era só silêncio muito antes das 23h, quando costumavam fechar os pubs.

Os indianos colocaram, em cada deli, um cartaz na porta de entrada escrito: “Diana, Princess of Ours Hearts” (“Diana, Princesa de Nossos Corações”). A vida gay sempre tão agitada teve uma semana desanimada. A ressaca de um verão maravilhoso bateu antes do previsto. O luto de uma semana foi sentido por todos, os que gostavam ou não da mãe de William e Harry.

Era realmente a princesa do povo, sem demagogias. E isto ficou claro quando as minorias – negros, indianos, gays, clubbers – choravam, emudeciam-se, levavam flores nas portas dos palácios reais e se indignavam com a frieza da rainha Elizabeth. De certa forma, ela representava o retrato daquela minoria perante a aristocracia. Diana estava à margem mas, mesmo assim, era odiada por estes mesmos aristocratas, pois ela era o centro de todas as atenções. Como as minorias o são quando lutam pelos seus direitos e dignidade e irritam uma certa “maioria” que tem todos os direitos e não quer que outros os tenham.

Há 15 anos, o verão mas atípico da capital inglesa terminou de uma forma mais triste que o habitual.

Turistas prestam homenagens à Diana em frente ao monumento Chama da Liberdade com flores, fotos e cartazes, em Paris (Jacques Brinon – 31.ago.12/Associated Press)

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