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Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo

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Nelson Rodrigues em dois atos

Por Vitor Angelo
Nelson Rodrigues (1912- 1980) (Divulgação)

1º ato

“O ladrão boliviano, o ladrão boliviano”. Este grito último de Darlene Glória, a Geni, na versão cinematográfica de Arnaldo Jabor de “Toda Nudez Será Castigada” ecoou nos ouvidos de minha amiga Rosane Tierno e nos meus durante muito tempo. Tínhamos 16 anos e estávamos em uma sessão de cineclube, instituição cultural extinta da cidade que não teve a mesma sorte dos micos-leões dourados da Mata Atlântica. Saímos despidos de todos os nossos preconceitos.

Quem era aquela atriz loira, meio histérica e completamente magnânima? Que história era aquela? A narrativa de uma família de carolas que para tirarem o patriarca da fossa da morte de sua primeira esposa (que depois ele mesmo gritaria: “Minha mulher era uma chata!”) o mandam para o puteiro, lá se apaixona por uma prostituta. O filho super religioso enche a cara ao saber que seu pai se casará com uma “mulher da vida”, é preso, estuprado pelo ladrão boliviano, acaba tendo um caso com a madrasta, permite que seu pai case-se com ela e, por fim, ela descobre que o amante irá embora do país com o ladrão boliviano.

Geni, a prostituta dramática, tem uma obsessão: ela tem certeza que morrerá de câncer no seio, mas é ela que amamenta a hipocrisia da família retratada. O câncer é a família hipócrita e dissimulada.

Tanto ela como o ladrão boliviano são os elementos externos que revelam o quanto há de falsidade na ideia tradicional de família, por isto, párias da sociedade.

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2º ato

Encenação ruim de “O Beijo no Asfalto”. Tudo fora do tom, menos as frases maravilhosas do autor. “Em toda a minha vida, a única coisa que salva é o beijo no asfalto.”

A história começa com a morte de um acidentado que antes de falecer pede um beijo na boca para um desconhecido. Este o beija por compaixão e logo “ganha fama” de homossexual. Seu sogro, o mais homofóbico, parece odiar o genro e, no fim, o mata com um tiro.

Mas antes confessa: “Tenho ciúmes de você! Não de minha filha… Ciúmes de você! Tenho! Sempre! Desde o teu namoro, que eu não digo o teu nome. Jurei a mim mesmo que só diria teu nome a teu cadáver. Quero que você morra sabendo. O meu ódio é amor. Por que beijaste um homem na boca? Mas eu direi o teu nome. Direi teu nome a teu cadáver”. Ele era apaixonado pelo genro.

Mais uma hipocrisia posta na mesa da sociedade brasileira.

E quem é o responsável por isto? Nelson Rodrigues, conhecido como reacionário, inimigo dos jovens, da esquerda, da revolução. Porém, ele nos deu muito mais liberdade e senso crítico sobre o que é ser brasileiro e todas as relações falsas de nossa sociedade que qualquer outro revolucionário.

Nelson Rodrigues é o grande gênio da raça!

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