Gore Vidal, gay

Os “Estados Unidos da Amnésia” como Gore Vidal chamava o seu país já o tinha esquecido há tempos. O escritor causou um canto do cisne como polemista que sempre o habitou quando culpou o governo Bush pelos atentados de 11 de setembro de 2001. Depois: silêncio, não dele, mas dos americanos em relação a ele. Nesta quarta-feira, 1º, os jornais dos Estados Unidos  irão ter que relembrar o grande escritor e o ser político atuante, pois terão que anunciar sua morte em notas. E nestes textos de hoje terão que rememorar o papel de Vidal para a vida política e cultural do país. Vai ser um raro momento que a amnésia não ocupará o lugar central de certas discussões americanas como Vidal tanto criticava.

Ele mesmo estava afastado da cena cultural e política fisicamente desde 2008 quando fraturou a coluna e começou a andar de cadeira de rodas. Todos sabem de sua ambição política – se candidatou duas vezes ao Congresso americano e não conseguiu vencer – mas isto não deixou de torna-lo por suas atitudes um ser político da mais alta importância, ainda mais para os direitos da minorias.

O significado de ser assumidamente gay antes da revolta de Stonewall em 1969, é algo que não conseguimos dimensionar, exatamente em uma época que a homossexualidade era ou crime ou doença. Gore Vidal rocks!

Um pouco antes da rebelião gay em Nova York, no ano de 1969, ele falou para a revista Esquire: “A homossexualidade é tão natural quanto a heterossexualidade. Repare que eu uso a palavra natural e não normal”.  E a definição de seu estilo literário bem pode servir para a sua sexualidade: “Saber quem você é, o que você quer dizer, e não dando a mínima”.

Foi seguindo seu próprio conselho que seu terceiro livro, “A Cidade e o Pilar” (1946), causou escândalo nos Estados Unidos e fez com que o jornal New York Times tivesse uma futura amnésia de seus seis próximos livros lançados depois desta afronta. Nenhuma linha foi escrita sobre a literatura de Vidal no prestigioso jornal por anos a fio por causa deste livro.

O pecado? Retratar dois jovens sem problemas psicológicos ou distúrbios vivendo um caso homossexual. Detalhe importantíssimo: eles também não acabam no final do livro punidos por isto. Apesar de ter sido publicado quase duas décadas depois de “O Poço da Solidão” (1928), de Radcliff Hall, que também causou escândalo, mas na Inglaterra, o livro não condena a homossexualidade como acontece no romance da inglesa, pois é para o narrador algo natural.

O livro de Vidal abriu corações e mentes e Alfred C. Kinsey, ao lançar “Comportamento Sexual no Macho Humano” (1948),  fez uma nota agradecendo o escritor “por seu trabalho de campo”.

No cinema, como roteirista de Ben-Hur (1959), dirigido por William Wyler, ele fez um subtexto gay sem que ninguém soubesse:  “Charlton Heston nunca soube disso, mas, para mim, Ben-Hur e Massala tiveram um romance na adolescência. Depois de muito tempo separados, Massala volta e quer reatar o romance. Diante da impossibilidade, se torna inimigo de Ben-Hur”.

Desde os anos 1950, tinha um caso com publicitário Howard Austen, que faleceu em 2003. Vidal deve ser enterrado, se seguirem seu desejo, ao lado dele. O resto é silêncio e nunca amnésia.

Gore Vidal (Divulgação)

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12 comentários feitos no blog

  1. eddy comentou em 02/08/12 at 7:54

    Um homen que fala que “não existe uma pessoa gay, o que existe é o ato gay”, como disse o Gore Vidal, está usando jogo de palavras no intuito de confundir e expandir o campo gay. Uma pessoa com certeza é aquilo que pratica. Vivemos em uma sociedade onde ser policamente correto faz bem ao bolso, à carreira politica, ao emprego, etc. Fala-se de tolerância, mas tão logo alguem expressa sua opinião contrária ao da agenda gay, tal qual o fundador do Chik-fil-A recentemente nos EUA, faz-se guerra e caça às bruxas! Onde está a tal tolerância, tão almejada?!

    • Marcos Paulo comentou em 02/08/12 at 10:57

      Caça às bruxas?!?!? Eu só vi um grupo boicotando a marca… assim como o tal do Um Milhão de Mães (q não tem nem 20 mil membro, rs rs) querendo boicotar o Google, a Amazon, Apple etc etc.

      Eu não compro de marcas que não condizem com minha forma de pensar….. isso é caça às bruxas?!?!?!

      Tsc tsc tsc…

    • Luis comentou em 03/08/12 at 12:13

      As bruxas evangélicas estão soltas caçando todos que não participem de seu delírio cristão. Eles querem que todos sejam evangélicos e que paguem dízimos para sustentar enriquecer deus…

  2. charlie comentou em 02/08/12 at 9:59

    Gore Vidal, do ponto de vista gay, foi mesmo um libertário, e um pioneiro. O problema é que, de todos os outros pontos de vista, foi uma espécie de Paulo Francis da América: um elitista que tinha nojo de pobres e trabalho, um almofadinha de pseudoesquerda mas que nunca conviveu com as massas, um intelectual que vivia numa torre de marfim comprada em lojas de luxo… Um homem extremamente pernóstico, e frio, sem generosidade nem sensibilidade, com livros sem alma nem brilho, que refletem sua triste condição de homem “do mal”…

    • eddy comentou em 02/08/12 at 14:28

      Concordo plenamente contigo. Outro dia a Rede Globo mencionou que ele disse de si mesmo ser muito frio, como um rio congelado, que depois de se quebrar o gêlo como fazem alguns para pescar, somente encontram água gelada por baixo.

      • Luis comentou em 03/08/12 at 12:16

        Temos que ser calorosos como os crentes ! Que pulam, gritam, se esgoelam, rodopiam, vomitam, soluçam td muito emocional e cristão. Querem pq querem nos curar, como seres doentes podem curar alguém ?

        • eddy comentou em 04/08/12 at 15:33

          Ninguém falou em cura ou conversão. Apenas de uma tolerância que não existe quando se trata da universalidade da mesma. Querem os gays ser tratados de uma jeito, mas estão prontos a mostrar suas garras assim que uma opinião contrária é espressada.

    • Mario Mendes comentou em 02/08/12 at 16:07

      O simples fato de concluir que alguém é “do mal” à guisa de anpálise de uma vida é obra, por si só já é uma prova de visão estreita e obtusa. Mr. Vidal era sim filho do poder e do privilégio (família abastada e com fortes conexões políticas) e sempre assumiu isso. Se alguém que produziu 25 romances, contos, ensaios, peças teatrais, roteiros de cinema e dois volumes de memórias tinha nojo de trabalho, então eu não sei o que é trabalho. Ele seria melhor escritor e poderia ser considerado da “esquerda de verdade” apenas se tivesse trabalhado na estiva, morasse mal de aluguel e usasse transpórte público? Escreva pelo menos um livro à altura da corrosiva sátira Kalki e depois a gente conversa sobre falta de sensibilidade, alma, brilho e outros clichês preconceituosos de esquerda pé de chinelo e calcanhar rachado.

  3. Mario Mendes comentou em 02/08/12 at 16:13

    Vitor, tentei deixar um comentário no Vírgula, na sua matéria sobre YSL, mas não consegui. Então deixo aqui: só um adendo, monsieur Saint-Laurent não foi forçado a se aposentar por empresários desalmados e ganaciosos. Ele estava há anos com a saúde em frangalhos e não tinha mais estrutura para suportar as pressões da indústria. Bergé, o homem/raposa por trás do mito – e iso é um elogio – tratou de vender os negócios enquanto o nome ainda estava na crista da onda e tratou de manter vivo a imagem do gênio mártir incompreendido pelos novos tempos. Vi o penúltimo desfile de alta-costura de YSL (com Jean Paul Gaultier sentado na minha frente com cara de criança solta em loja de doces) e no final, durante o agradecimento, o mestre parecia um fiapo de gente, alquebrado por anos de nervos a flor da pele e abuso de drogas – ilícitas. Quanto a mr. Vidal, o que eu tinha a dizer – além do obituário que esai esta semana em VEJA – está aí na resposta ao leitor Charlie, acima. bjs

  4. Mario Mendes comentou em 02/08/12 at 16:14

    OOOOPs…. “drogas lícitas e ilícitas”

  5. GAYZYNHO BABADO comentou em 02/08/12 at 20:28

    Dramáticas! Alguém sabe me dizer se o Gore Vidal fazia pegação nas docas do West Side nova-iorquino nos anos 70? Adoro toda essa cena… Pirei quando li A Cidade e o Pilar, muuuito ousado pra época, mas as bibas do bem atuais não curtiriam aquele drama todo!TOCA BETHANIA aé! …Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser
    Mas é assim que eu sei te amar…

  6. Bruno Morais comentou em 03/08/12 at 9:38

    Ângelo…

    Gostaria que você fizesse um post que trouxesse um lista com 10 ou 20 melhores livros com temática gay na sua concepção.

    Ficaria muito feliz.

    abs;