Blogay

A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 -

Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Filmes abrem temporada do orgulho gay em São Paulo

Por Vitor Angelo
Cartaz da pré-estreia de "Eu Vos Declaro..." e "Profissão Drag Queen" (Divulgação)

Os filmes “Eu vos declaro…”, de Alberto Pereira Jr., e “Profissão Drag Queen”, de Leandro Manhães, abrem a semana cultural Orgulho LGBT de São Paulo. Eles terão uma sessão de pré-estreia na Galeria Olido (av. São João, 473, praça da República), neste segunda-feira, 4.

O Blogay conversou com os diretores dos filmes.

“Eu Vos  Declaro…”

O casal Nilton e Luiz em "Eu Vos Declaro..." (Divulgação)

Blogay – Como surgiu a ideia do projeto? Como você viabilizou o projeto?

Alberto Pereira Jr. – A ideia do filme surgiu durante uma aula de Direitos Humanos da minha pós-graduação. O professor estava discorrendo sobre todos os artigos e quando passou pelo 16º, que diz que todo homem e mulher deve ter o direito de constituir família, me veio a ideia. Afinal, por mais avançadas as conquistas da comunidade LGBT, ainda a lei não reconheceu o casamento civil, que é a base da família na sociedade. Inscrevi o projeto no ProAC (Programa de Ação Cultural – 2010, da Secretaria de Estado da Cultura, do o Governo do Estado de São Paulo) e fui contemplado.

O que foi mais difícil nas filmagens? Teve algum episódio inusitado que estava muito fora de um pré-roteiro e causou surpresa?

O mais difícil foi encontrar os casais, principalmente o casal transexual. Ainda há muito preconceito e muitos não querem expor sua intimidade. Tive vários cancelamentos de personagens transexuais até que consegui encontrar o Léo. Diferente dos outros personagens, conheci o casal Nilton e Luís já em uma filmagem. Estava acompanhando o ensaio da cerimônia de união estável de uma igreja evangélica inclusiva, quando me deparei com eles. Já tinha fechado os 3 casais participantes do filme, mas a história e o carisma deles me convenceu a incluí-los no filme.

O filme se sustenta com depoimentos no melhor estilo documentário pregado por Eduardo Coutinho, os das pessoas que fabulam. Como foi a pesquisa para achar os casais?
Tive a ideia do filme antes de ter os casais propriamente dito. Foi a parte mais complicada do processo. Fiz um blog e comecei a divulgar o projeto, tentando encontrar esses personagens. A partir daí, surgiram pessoas de fora de Brasília, Bahia, e do interior interessados no projeto. A dificuldade era que eu me dividi fazendo o documentário com o meu trabalho formal (no jornal Agora São Paulo) e com a conclusão da minha pós. Não ia conseguir ficar viajando e acompanhar o cotidiano dessas pessoas fora de SP. Também contei com a ajuda de amigos de amigos, que me apresentaram alguns casais. Foi assim que cheguei à história do Will e do Marco e do Léo e da Gabriela. Encontrei a Munira e a Adriana em uma reportagem da Folha, falando sobre a luta delas na Justiça em conseguir registrar os filhos como dupla maternidade.

Eles parecem pessoas próximas da gente, gente que pode ser nossos vizinhos, foi proposital a escolha deles?

A ideia era justamente essa. Queria histórias e pessoas comuns, como nossos amigos, vizinhos. Gente que não tem um discurso engajado, que não é presidente de ONG, nada contra. Mas queria focar em histórias de pessoas reais. Gente que vive com seu companheiro em um laço de amor e família.

A Lu [um dos personagens do filme que é transexual e antes era lésbica] que agora é Leo é um caso muito interessante. Vocês entraram em contato com a Gabi [travesti que foi sua mulher por anos]. Ela não quis gravar ou foi o cronograma de produção?

A Gabi estava na Espanha, nos falamos algumas vezes e chegamos a marcar entrevistas por Skype, mas infelizmente não conseguimos realizar. Nossos horários não batiam e eu tinha um prazo para concluir o filme. Ia ser com certeza bastante interessante tê-la nos depoimentos, mas acho que a história do Léo merecia entrar mesmo que sozinha.

Na sua opnião, por que o filme continua atual mesmo com a decisão do STF a favor da união estável entre pessoas do mesmo sexo?

O STF não foi favorável ao casamento civil. Essa é uma luta que ainda devemos seguir e batalhar. A decisão do STF que igualou a união estável homoafetiva à união civil estável heterossexual foi muito positiva e aconteceu no meio da produção do documentário. Mesmo assim, o tema segue atual. A minha ideia era mostrar esses casais já estáveis, que mesmo antes dessa decisão já viviam como família. O filme fala antes de tudo de sentimento, de amor e companheirismo. E chega à legislação, mostrando que todo cidadão é igual e que a comunidade LGBT merece todos os direitos e deveres que a os heterossexuais possuem.

“Profissão Drag Queen”

Dicesar em "Profissão Drag Queen" (Divulgação)

Blogay – Como surgiu a ideia do projeto?

Leandro Manhães – Conheci o Dicesar em 2005, na época era estagiário de produção em uma produtora e fizemos um vídeo de moda sendo ele um dos participantes. Ficamos amigos e um ano depois ele me liga querendo fazer um DVD de divulgação dos shows dele, sugeri uma coisa um pouco maior e ai surgiu o DVD “Dimmy Kieer – Diário de uma Drag” mostrando um pouco dos bastidores também. Foi nessa época que tive a oportunidade de fato de conhecer este universo e as pessoas que dele fazem parte, universo esse que me surpreendeu e quebrou alguns conceitos até então pré estabelecidos que eu tinha. Nascia ali a sementinha de um projeto maior, conhecendo aquele universo achei que aquela era uma história interessante de ser contada, a ideia ficou amadurecendo na cabeça e em 2010 encaminhei um projeto para a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo que foi selecionando, possibilitando assim a execução do projeto.

O que você achou de rico no universo da drag?

Vi que atividade da drag queen não é apenas uma brincadeira, mas um ofício, uma profissão, e que as pessoas que praticam esse atividade, vivem desse trabalho, e não somente elas mas as pessoas que estão em volta também. Existem profissionais que fazem roupas para as drags, que fazem música para as drags, que produzem os shows delas. Este é um mercado e existe um público que o consome. Os profissionais que se dedicam ao trabalho de drag queen vivem para o seu personagem.

Para você, a drag é homossexual ou é transgênero, ou ainda uma ponte entre eles?

Todas as drags que tive a oportunidade de conhecer são homens homossexuais que se travestem, mas também exercem uma outra atividade. Vejo como uma manifestação não apenas artística mas de vida.

Aconteceu algum caso curioso nas gravações. algo te surpreendeu?

Gostei muito de gravar com as famílias dos personagens do filme, principalmente com as do Rodrigo/Amanda di Polly e Dicesar/ Dimmy Kieer em que vi a naturalidade com que a questão era tratada. Na verdade, isso é tratado apenas como um detalhe no núcleo familiar.

[youtube egaNkIfreCU nolink]

Blogs da Folha