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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

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Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo

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Livro conta a trajetória da imprensa gay no Brasil

Por Vitor Angelo
Capa do livro (Reprodução)

O jornal, diferente da máxima que diz que no dia seguinte só servirá pra embrulhar o peixe, é utilizado amplamente por pesquisadores acadêmicos como importante documento histórico. No caso do “Imprensa Gay no Brasil”, de Flávia Péret,  vencedora do prêmio Folha Memória (iniciativa da Folha com patrocínio da Pfizer que financia pesquisas sobre a história do jornalismo brasileiro), o jornal não serve só de registro histórico, é através do  próprio jornal – feito e direcionado em grande parte aos homossexuais – que legitima-se os anseios destes segmentos na sociedade brasileira. O livro vai além do delicioso registro histórico feito em forma de reportagem, ele também trabalha duas questões vitais para a chamada imprensa alternativa: a visibilidade e o diálogo entre militância/idealismo e jornalismo/consumo.

Sobre a visibilidade, o livro não só historiciza e contextualiza a chamada imprensa homossexual, informando que ela surge nos anos 60, mais precisamente em 1963 com a publicação de “O Snob”, e vive principalmente, nos dias de hoje, sob a tutela da internet. De certa forma, Péret tira do armário a história da imprensa gay brasileira, a torna visível em um primeiro estágio.

Em outro estágio se dá a visibilidade do próprio modo de vida gay, se é que podemos usar este termo no singular. Por exemplo, em um número do “Snob”, publicado em 1964 , encontra-se o (tão aludido) sarcasmo gay nos “Dez Mandamentos da Bicha”: “1. Amar todos os homens. 2. Nunca ficar com um só. 3. Beijar todos os bofes. 4. Evitar falar no futuro…”

No pequeno trecho acima, torna-se visível um dos diversos modus operandi dos homossexuais. Entende-se um modo de vida diferente do que é o estabelecido para a maioria da sociedade na época, mas o mais importante, registra-se,  torna documento histórico a existência de um grupo que assim pensava ou questionava de forma irônica uma sociedade completamente conservadora e que se disfarçava como monogâmica.

Já a segunda grande contribuição do livro deflagra um dos embates que os jornais enfrentam todos os dias: militância/idealismo x jornalismo/consumo. O próprio Manual de Redação da Folha diz sobre o termo objetividade: “Não existe objetividade em jornalismo. Ao escolher um assunto, redigir um texto e editá-lo, o jornalista toma decisões em larga medida subjetivas, influenciadas por suas posições pessoais, hábitos e emoções. Isso não exime, porém, da obrigação de ser o mais objetivo possível.”

Se pensarmos que a militância é cheia de paixão e subjetividade procurando a objetividade de ser melhor compreendida e apreendida, fica claro que a discussão torna-se muito mais visível quando se trata da imprensa alternativa. Ela surge da necessidade de militar em certa causa e ao mesmo tempo ela necessita de um espectro de leitores que consumam suas informações.

A autora do livro busca na história da imprensa gay brasileira o exemplo clássico deste embate: o jornal gay “Lampião da Esquina”, que circulou entre 1978 e 1981. Formado por intelectuais, escritores e jornalistas, o periódico já dizia ao que vinha em seu primeiro editorial: “Mas um jornal homossexual, para quê? É preciso dizer não ao gueto e em consequência sair dele. O que nos interessa é destruir a imagem padrão que se faz do homossexualismo, segundo  a qual ele é um ser que vive nas sombras, que encara sua preferência como uma espécie de maldição.”

O Lampião sofreu fortes pressões do regime militar, dos conservadores, mas o que realmente fechou suas portas foi a dificuldade de manter a tensão entre militância/idealismo e jornalismo/consumo vivas.

O autor de novelas Aguinaldo Silva, que era o editor do Lampião, queria que a publicação fosse mais jornalística, popular enquanto o escritor João Silvério Trevisan queria que o tom ativista predominasse. O embate acabou se tornando inconciliável e o fechamento do Lampião foi inevitável.

Não à toa, de forma muito arguta, Péret termina o livro com duas excelentes entrevistas exatamente com os protagonistas desta tensão: Aguinaldo Silva e João Silvério Trevisan. Tensão esta que se impõe até hoje em todas as publicações gays e que este blog não está nem um pouco de fora dela.

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